INÍCIO ARTIGOS ESPÉCIES GALERIA SOBRE EQUIPE PARCEIROS CONTATO
 
 
    Artigos
 
Genética das Cores de Caramujos “Ramshorn”
 
Variedades de cor e genética de Planorbídeos
Artigo publicado em 27/06/2014, última edição em 27/11/2016



Genética das Cores de Caramujos “Ramshorn”

 

 

 

Variedades de Cor de Caramujos “Ramshorn”

 

Os caramujos “Ramshorn” (chifre-de-carneiro) são pequenos gastrópodes de concha planispiral, da família Planorbidae. Englobam tanto os caramujos marrons comuns encontrados como invasores em aquários, quanto espécies ornamentais de cor vermelha, azul, etc. No Brasil, quase todos os selvagens e vermelhos são caramujos do gênero Biomphalaria, que inclui as diversas espécies vetores da Esquistossomose. Embora muitas lojas e sites se refiram a estes caramujos ornamentais como Planorbis, espécimes albinos vermelhos (“Red Ramshorn”) comprados em lojas brasileiras já foram dissecados, e todos foram identificados como Biomphalaria. Recentemente realizamos alguns experimentos de dissecção, o artigo pode ser visto aqui.





"Red Ramshorn" Biomphalaria glabrata albina, comprada em loja de aquarismo em São Paulo, SP. Foto de Walther Ishikawa.




Biomphalaria glabrata, animais usados em pesquisas envolvendo Esquistossomose. Foto gentilmente cedida pelo Dr. Pedro Luiz Silva Pinto (Núcleo de Enteroparasitas - Instituto Adolfo Lutz).


Mais recentemente, outras variedades de cor foram importadas (como a Azul), estes sim pertencendo ao gênero Planorbella (antigo Helisoma), uma espécie exótica norte-americana. Planorbella albinas (de cor rosa) são eventualmente importadas, mas bem raramente. Variedades selvagens de Planorbella já haviam sido detectadas em coletas na natureza, possivelmente originárias de espécimes inadvertidamente importados juntamente com plantas ornamentais, e liberados na natureza.






"Blue Ramshorn" Planorbella duryi, comercializado na Argentina. Foto de Valeria Castagnino.







Planorbella duryi selvagens, fotografados na Flórida, EUA. Na primeira foto, exemplar coletado em um alagado próximo à estrada, perto de Treaty Park, St. Johns County. Na segunda foto, em um lago em Florida State College Jacksonville south campus, Duval Co.. Fotos de Bill Frank.


Veja o artigo sobre os caramujos Biomphalaria aqui, e sobre os Planorbella duryi aqui.


Em lojas, sites e revistas de aquarismo, existem referências a muitas variedades de cor de Caramujos “Ramshorn”: Selvagem, Leopardo, Vermelha, Rosa, Laranja, Amarela, Verde, Azul, Branca, etc. Vamos tentar compreender o que define estes padrões de cor nestes animais.

 

 




"Pink Ramshorn", "Blue Ramshorn" e "Orange Ramshorn" (todos Planorbella duryi), exemplares de aquarismo da Alemanha. Fotos de Chris Lukhaup.




Pigmentação Melânica e Albinismo

 

Assim como diversos outros animais, o principal pigmento que define a coloração destes caramujos é a Melanina, uma classe de pigmentos poliméricos derivados da tirosina, de coloração escura, marrom ou azul-enegrecida. A falta de Melanina dá origem a uma condição denominada Albinismo, também presente em diversos outros animais, inclusive em seres humanos. Geralmente sua falta se deve à ausência ou defeito de uma enzima envolvida na produção do pigmento.

Na ausência de Melanina, em outros animais, a tendência é que eles fiquem com um aspecto claro, pálido e esbranquiçado. Isto não ocorre nos Ramshorn, porque muitos caramujos planorbídeos apresentam Hemoglobina na sua hemolinfa, o mesmo pigmento que é visto em hemácias de vertebrados, de cor vermelha. No caso dos caramujos, este pigmento se encontra livre na hemolinfa, extracelular, diferente dos vertebrados. É uma interessante adaptação destes animais, permitindo-os viver em ambientes mais hipóxicos, devido à maior eficácia deste pigmento como carreador de oxigênio. Desta forma, quando são albinos, estes animais exibem uma bela coloração vermelha, o mesmo mecanismo que confere os olhos vermelhos em coelhos, cobaias e peixes albinos. Formas vermelhas albinas de planorbídeos ocorrem em diversos gêneros, como Biomphalaria, Planorbella e Planorbis.

O Albinismo é conhecido por afetar todo o reino animal, e na grande maioria dos casos, resulta de uma herança de alelos de gene recessivo, monofatorial, obedecendo a uma herança Mendeliana simples. Este padrão de herança é visto nos caramujos Planorbella, Physa e Lymnaea

Entretanto, nas Biomphalarias, a herança da pigmentação é bem mais complexa, na Biomphalaria glabrata (a espécie mais estudada), a pigmentação é influenciada por dois loci, um locus básico ou "C", e um locus não-relacionado "S" controlando a distribuição do pigmento no manto. 

Dependendo da espécie, existem até três alelos determinando o padrão básico de pigmentação: além da pigmentação normal e albinismo, existe também uma mutação com padrão intermediário de pigmentação, chamada de “Blackeye” (olhos negros). Este fenótipo mostra pigmentação nos olhos, e em pequenas áreas do manto, mas não possui pigmentação no corpo e colar do manto.

Neste artigo, seguiremos a nomenclatura usada pelo Dr. Charles S. Richards nos seus trabalhos pioneiros descrevendo a genética de Biomphalarias, denominando o albino de c e a pigmentação selvagem de C. O “Blackeye” será denominado cb, é um terceiro alelo dominante sobre o albino (c), mas recessivo em relação à forma selvagem (C).










Biomphalaria sp. "Leopardo". Nesta variedade, há manchas em filhotes e adultos. Fotos de Juan Felipe Zulian Santos.






Biomphalaria glabrata com exuberate padrão de manchas, animal usados em pesquisas envolvendo Esquistossomose. Foto gentilmente cedida pelo Dr. Pedro Luiz Silva Pinto (Núcleo de Enteroparasitas - Instituto Adolfo Lutz).



Na Biomphalaria glabrata, além destes três alelos, existem outros três alelos regulando a pigmentação do manto, este gene aparentemente localizado em um cromossomo distinto do gene que determina a pigmentação básica. Há três padrões fenotípicos: "coalescente", "manchas" (um padrão chamado popularmente entre aquaristas de “Leopardo”), e "ausência de pigmentação". Quase sempre estas manchas estão presentes em juvenis, desaparecendo quando o caramujo cresce. Porém, existem populações onde estas manchas persistem em indivíduos adultos.

Novamente seguiremos a nomenclatura do Dr. Richards, usando a letra S (de “spotted”), denominando a ausência de pigmentos de s, manchas de S, e coalescência de Sd. Diferente da pigmentação básica, há co-dominância entre S e Sd, mas ambos alelos mostram uma dominância sobre s.


A combinação destes seis alelos resulta em nove padrões finais de pigmentação na Biomphalaria glabrataOs genótipos possíveis estão descritos na ilustração abaixo. A forma pigmentada geralmente é chamada de "selvagem", "natural" ou "comum". Algumas fontes (inclusive artigos científicos) chamam esta variedade de "melânica", mas é uma denominação errada, que deve ser reservada às formas com excesso de pigmentação (como a Pantera Negra ou a Molinésia Negra).




Variedades de pigmentação melânica segundo Richards CS (1985). Fenótipos acima, com as possibilidades de genótipo abaixo.





Exemplo de cruzamento de variedades de pigmentação melânica.



Outras espécies de Biomphalaria não foram tão extensamente estudadas, existem somente alguns trabalhos envolvendo Biomphalaria straminea, onde é descrito uma herança mais simples, com somente quatro padrões fenotípicos e quatro alelos com dominância progressiva: "albino" (c), "manto com manchas" (cm), "blackeye" (cb) e "selvagem" (C).



Biomphalarias albinas são conhecidas há muito tempo por cientistas, criadas de forma seletiva para experiências envolvendo mecanismos de transmissão de esquistossomose. Quando os “Red Ramshorn” surgiram no mercado brasileiro de peixes ornamentais, eram justamente crias destes animais selecionados para laboratórios de parasitologia. Em diversas ocasiões estes animais comprados em lojas foram dissecados para identificação, e sempre se confirmou que se tratava de Biomphalarias (principalmente B. glabrata e B. taenagophila), ao invés de Planorbis, como eram vendidos, e chamados em sites e fóruns brasileiros. Sempre se evitou chamá-los de Biomphalarias, pela associação negativa com a doença, o que se mostrou um erro perigoso: atualmente o aquarismo representa uma das vias mais importantes de dispersão destes hospedeiros intermediários de esquistossomose na natureza.



"Red Ramshorn" Biomphalaria sp. albina, juntamente com Corydoras hastatus. Note a cor vermelha intensa, mas com discreto tom alaranjado, e sua concha lisa e translúcida. Foto de Chantal Wagner.




Biomphalaria glabrata albina (ao centro), exemplar de laboratório de parasitologia. Na foto, também estão representadas duas outras espécies que são vetores de outras espécies de Schistosoma: Bulinus truncatus truncatus (vetor de S. haematobium) e Oncomelania hupensis hupensis (vetor de S. japonicum). Foto de National Institutes of Health - National Institute of Allergy and Infectious Diseases (NIH-NIAID).






Biomphalaria glabrata, padrão "blackeye". Animais usados em pesquisas envolvendo Esquistossomose. Fotos gentilmente cedidas pelo Dr. Pedro Luiz Silva Pinto (Núcleo de Enteroparasitas - Instituto Adolfo Lutz).






Biomphalaria glabrata
, forma selvagem, fotografada no Suriname. Fotos gentilmente cedidas pela Associação Francesa de Conquiliologia.




Na Europa e EUA, os “Red Ramshorn” (e demais variedades de cor) são da espécie Planorbella (antigo Helisoma) duryi, uma espécie norte-americana. Atentando-se a fotos dos “Red Ramshorn” brasileiros e estrangeiros, percebe-se que se trata de espécies diferentes, embora ambos sejam vermelhos e com concha planispiral: O Biomphalaria cresce mais (até 4 cm), possui concha mais lisa, relativamente fina, com giros que crescem lentamente em diâmetro. O Planorbella é menor (até 2 cm), com uma concha com linhas de crescimento mais visíveis, mais espessa e globosa, com giros que crescem rapidamente em diâmetro, abertura da concha dilatada.

Na mesma época em que “Blue Ramshorn” começaram a ser importados, algumas Planorbellas avermelhadas também chegaram às lojas do Brasil. São bem mais raros do que as Biomphalarias vermelhas, e tem um vermelho não tão intenso, por serem variedades com menor quantidade de hemoglobina (vide adiante). Por este motivo, geralmente são vendidos com a denominação de “Pink Ramshorn”. Até onde sei, nunca os Planorbella "Red Ramshorn" (albinos com quantidade normal de hemoglobina) foram importados para o Brasil.

Sua herança de albinismo é bem mais simples do que nos Biomphalaria, trata-se de um alelo autossômico recessivo simples, relacionado a um único locus. 

 
 


"Pink / Red Ramshorn" Planorbella duryi albina, comercializado na Argentina. Note a cor vermelha menos intensa, tendendo ao róseo, sua concha mais espessa e opaca, com linhas de crescimento mais demarcadas. Compare com a foto acima do Biomphalaria. Foto de Valeria Castagnino.




Planorbella duryi, variedade albina. Imagens gentilmente cedidas pelo aquarista norte-americano Daniel B. (fórum The Planted Tank).









Cacho de ovos de Planorbella duryi, mostrando a prole mista, alguns "Blue" e outros "Pink" (albina), veja explicação adiante no artigo. Assim como as Ampulárias, a distinção entre variedades albinas e eumelânicas pode ser feita já no início do seu desenvolvimento, pela presença ou ausência de olhos escuros, usando um microscópio ou uma câmera com recurso macro. Imagem cedida pelo aquarista Tibério Graco.




Expressão de Hemoglobina

 

Como já mencionado, o que confere a coloração vermelha aos planorbídeos é a Hemoglobina presente na sua hemolinfa (o correspondente ao sangue nestes animais). Em Biomphalarias, sabe-se da existência de mutações onde há defeitos na expressão da hemoglobina, com um quadro correspondente a uma anemia congênita. Estes defeitos podem se manifestar somente durante a fase juvenil dos caramujos, ou persistir mesmo durante a idade adulta. Estas mutações também ocorrem em outros planorbídeos, como os Planorbella.

Uma das variedades ornamentais mais conhecidas e comercializadas de “Ramshorn” é a Azul, recentemente introduzida no mercado brasileiro. A variedade Azul (“Blue”) ocorre naqueles animais onde há escassez de hemoglobina (menos vermelho), mas com presença de melanina (não-albinos). A melanina tem uma coloração negro-azulada, conferindo um tom azulado nestes animais. Um processo idêntico ao que ocorre nas variedades azuis de Ampulárias. Como mencionado, eventualmente este defeito se manifesta somente na infância, o que explica alguns relatos em fóruns estrangeiros de “Azuis” que adquiriram um aspecto de animais Selvagens quando crescidos. Não há este tipo de relato ainda no Brasil.




"Blue Ramshorn" Planorbella duryi, comercializado na Argentina. Foto de Valeria Castagnino.



Em fóruns estrangeiros, encontram-se algumas teorias alternativas para explicar a coloração azul, a mais conhecida é a dessaturação de hemoglobina. A hemoglobina só é vermelha quando oxigenada (oxi-hemoglobina), quando não-oxigenada (desoxi-hemoglobina) o pigmento adquire um tom arroxeado. O mesmo fenômeno ocorre na hemoglobina de vertebrados, e é o motivo pelo qual o sangue arterial tem uma cor vermelho-vivo, enquanto o sangue venoso é mais escuro. Também explica a coloração arroxeada em extremidades em dias muito frios, e doenças cardíacas ou pulmonares onde o paciente adquire uma cor arroxeada (cianose). Entretanto, não é o que acontece com os “Ramshorn” Azuis, a principal prova disso é o fato dos Azuis albinos terem uma cor rosa claro ou esbranquiçada.






Prole de "Blue Ramshorn" Planorbella duryi, mostrando alguns filhotes albinos, de cor rosa clara. Foto de Felipe Leite.



Assim, a quantidade de hemoglobina também explica as variedades rosadas de planorbídeos (“Pink”), caramujos albinos onde há também menor expressão de hemoglobina. Uma situação extrema ocorre na rara variedade branca (“White”), albinos sem a cor vermelha da hemoglobina. Não se sabe se a hemoglobina é ausente, ou um defeito estrutural muda sua cor. Uma terceira possibilidade é que parte da hemoglobina seja substituída por hemocianina, que está presente em pequenas quantidades, em Biomphalaria. Estas variedades “anêmicas” costumam ser mais sensíveis, com maior mortalidade e menor fecundidade, possivelmente decorrente deste fato. Sabe-se que clones com ausência total de pigmentação na hemolinfa ocorrem em Biomphalaria, mas são bem raros, e com mortalidade elevada. Da mesma forma, a variedade “White” de Ramshorn ornamentais é considerada a variedade mais rara de todas. Não é incomum de ser vista entre a prole de outras variedades (como a “Blue”), mas tem mortalidade bem alta, e dificilmente se desenvolve até a idade adulta.




Exemplos de variações de cor baseada na pigmentação melânica, e expressão de hemoglobina.



O fato destes caramujos terem menos Hemoglobina precisa ser lembrado quando se planeja sua criação. Via de regra, “Ramshorn” são caramujos bastante robustos, virando pragas em aquários rapidamente. Podem ser criados em tanques pequenos e sem oxigenação, justamente por serem resistentes a ambientes hipóxicos. O mesmo não ocorre com a variedade Azul, que necessita de tanques mais oxigenados, e com parâmetros mais estáveis do que a Vermelha ou a Selvagem.

 

 




Variedade "Blue Ramshorn" de Biomphalaria cf. tenagophila. A primeira foto mostra a variedade selvagem, e as duas seguintes uma mutação azulada/arroxeada. Fotos de Walther Ishikawa e João Vítor Serrano Linhares.




Outros pigmentos

 

Além da Melanina e Hemoglobina, sabe-se que planorbídeos produzem um terceiro pigmento, granular e de cor amarelada, muito parecida com a Lipofuscina de vertebrados. Mas, ao contrário destes, a presença deste pigmento não parece estar relacionada ao processo de envelhecimento celular. Ocorre em diversos tecidos, mas predomina no tecido conectivo do colar do manto, tanto intra quanto extracelular.

Sua presença e quantidade podem estar relacionadas à variação de cor destes caramujos envolvendo o tom amarelo. Muitas vezes variedades albinas mostram um tom puxado para dourado ou alaranjado, ao invés de rosa ou vermelho. São chamadas por alguns aquaristas de variedades “Orange”, “Yellow” ou “Golden”.

Outro mecanismo que pode gerar estas variedades com coloração amarelada é a presença de pigmento amarelado na concha. Sua genética não é clara, eu pessoalmente vi surgir esta variedade em uma colônia de Planorbella.

 






Planorbella duryi, variedade amarela. Imagens gentilmente cedidas pelo aquarista norte-americano Daniel B. (fórum The Planted Tank).








Planorbella duryi, variedade com pigmento amarelo na concha. A primeira foto mostra a colônia original de "Blue". As três últimas imagens mostram também uma concha vazia de um animal morto, e a última esta concha em destaque, em comparação com uma concha de "Blue". Fotos de Walther Ishikawa.




Cor e transparência da concha

 

O último elemento que contribui na coloração final do caramujo é a própria concha. Sua cor, espessura e transparência. A concha em si pode ser não-pigmentada ou apresentar uma coloração amarelada, cor de âmbar. A camada mais externa não-mineral (periostraco) apresenta certa porosidade, e pode se impregnar de algum pigmento do próprio ambiente, o que explica alguns Planorbídeos coletados na natureza com uma concha bem escura.

Finalmente, quanto mais espessa a concha, a tendência é que ela seja mais opaca e esbranquiçada. Este é o motivo pelo qual alguns aquaristas não recomendam a criação em águas excessivamente duras, o que leva a conchas menos transparentes e esbranquiçadas.





Planorbella duryi, variedade rosa clara com a concha mais espessa, opaca e esbranquiçada. Imagens gentilmente cedidas pelo aquarista norte-americano Daniel B. (fórum The Planted Tank).



Planorbella duryi, variedade rosa clara com a concha mais espessa, opaca e esbranquiçada. Imagens cedidas por Lazaro Santos.


 

Sobre a manutenção comunitária de variedades diferentes de “Ramshorn”

 

Esta é uma dúvida bastante comum em fóruns de aquarismo. No momento em que este artigo é escrito (Junho de 2014), as duas variedades principais de “Ramshorn” disponíveis em lojas brasileiras são a Vermelha e a Azul. As duas variedades podem ser criadas juntas? Existe o risco deles se cruzarem?

O risco de cruzamento não existe, pelo simples fato de serem espécies diferentes: “Red Ramshorn” são Biomphalaria glabrata ou Biomphalaria tenagophila, enquanto o “Blue Ramshorn” são Planorbella duryi. Mesmo havendo planorbídeos selvagens no aquário, geralmente são de outras espécies, como o Biomphalaria straminea ou Biomphalaria intermedia. A única situação onde provavelmente haverá mistura é entre os “Blue Ramshorn” e os “Pink Ramshorn”, quando este último for também um Planorbella. Algumas lojas recebem importações destas variedades vermelhas de Planorbella, mas são bem mais incomuns (e mais caros) do que os Biomphalaria albinos. 

Independente deste fato, criá-los juntos não é recomendável, se a idéia for reproduzi-los. Como mencionado anteriormente, a variedade Azul é aquela com menor quantidade de Hemoglobina. Ou seja, é uma variedade com uma doença genética que leva a anemia, que foi selecionada por ser visualmente atraente. Com menos Hemoglobina, a capacidade da hemolinfa de carrear oxigênio é menor, assim, são animais mais frágeis, com uma expectativa de vida menor. Da mesma forma, há menor viabilidade dos seus ovos, e maior mortalidade dos filhotes. Colônias de “Ramshorn” Azuis criadas junto com Vermelhas invariavelmente acabam sendo extintas, por simples competição.

O mesmo fenômeno ocorre com a variedade albina, mas em menor grau. Embora mais robustas do que as Azuis, a variedade Vermelha também é mais frágil do que a Selvagem, com maior foto-sensibilidade, maior fragilidade a doenças e uma viabilidade menor dos seus ovos. Existe um trabalho comparando gasto energético na produção de ovos de Planorbella duryi, mostrando que a forma albina gasta o dobro de energia para reprodução se comparada à forma selvagem. Se criadas juntas com animais selvagens não-albinos, a tendência é a de que o “Red Ramshorn” tenha um sucesso reprodutivo menor.

 


 

Bibliografia:

  • Richards CS. (1970). Genetics of a Molluscan Vector of Schistosomiasis. Nature 227, 806 – 810.
  • Norton CG, Nelson B, Johnson AF, Beyer A, Peterson A. 2009.  Albinism in Helisoma trivolvis:  Genetics and Practical Applications of Pigmentation Differences. (poster).  Annual Meeting of the American Malacological Society.  Cornell University, Ithaca, NY  July 19-23, 2009.
  • Richards CS. (1975). Genetics of Pigmentation in Biomphalaria straminea. Am J Trop Med Hyg 24(1): 154-156.
  • Mulvey M, Woodruff DS. (1985). Genetics of Biomphalaria glabrata: linkage analysis of genes for pigmentation, enzymes, and resistance to Schistosoma mansoni. Biochemical Genetics, 22: 877–889.
  • Lemos QT. (1999). Contribution to the histology of Biomphalaria glabrata. Rev. Soc. Bras. Med. Trop. 32(4): 343-347.
  • Amaral RS (Org.), Thiengo SARC (Org.), Pieri OS (Org.). Vigilância e Controle de Moluscos de Importância médica: Diretrizes técnicas. 2. ed. Brasília: Editora MS, 2008. 178 p.
  • PAHO-Pan American Health Organization 1968. A guide for the identification of the snail intermediate hosts of schistosomiasis in the Americas. Scientific Publication no. 168, Washington, 122 pp.
  • Corrêa LL, Corrêa AO, Vaz JF, Silva MPG, Silva RM, Yamanaka MT. Importância das plantas ornamentais dos aquários como veículo de propagação de vetores do Schistosoma mansoni. Rev. Inst. Adolfo Lutz, 40: 86-96, 1980. 
  • Guimarães CT, Souza CP, Soares DM, Araújo N, Schuster LMR. Occurrence of molluscs in aquaria of ornamental fishes in Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, 85: 127-9,1990.
  • Ferrari AA, Hofmann PRP. First register of Biomphalaria straminea Dunker, 1848, in Santa Catarina State. Rev. Inst. Med. trop. S. Paulo. 1992 Feb; 34(1): 33-35.
  • Paraense WL. A natural population of Helisoma duryi in Brazil. Malacologia 1976. 15: 369-376.
  • Milward-de-Andrade R, Maruch SM, Costa MJ. Alimentação e fecundidade de planorbídeos criados em laboratórios: IV - Helisoma duryi (Wetherby, 1879). (Pulmonata, Planorbidae). Rev. Saúde Pública. 1978 Mar; 12(1): 90-98.
  • Lewis FA, Liang YS, Raghavan N, Knight M. The NIH-NIAID Schistosomiasis Resource Center. PLoS Neglected Tropical Diseases 2(7): e267.
  • Studier EH, Edwards KE, Thompson MD. (1975). Bioenergetics in two pulmonate snails, Helisoma and Physa. Comparative Biochemistry and Physiology Part A: Physiology 51(4): 859-861.
  • Dillon RT Jr, Wethington AR. The inheritance of albinism in a freshwater snail, Physa heterostropha. J Hered. 1992 May-Jun; 83(3):208-10.
  • Richards CS. A new pigmentation mutant in Biomphalaria glabrata. Malacologia 1985; 26:145-151.
  • Richards CS. Genetic studies on Biomphalaria straminea: occurrence of a fourth allele of a gene determining pigmentation patterns. Malacologia 1978; 17:111-115.
  • Dillon RT Jr, Wethington AR. Inheritance at five loci in the freshwater snail, Physa heterostropha. Biochemical Genetics. 1994 32(3/4):75-82.







Agradecimentos especiais aos colegas aquaristas Felipe Leite, Juan Felipe Zulian Santos, Tibério Graco, João Vítor Serrano Linhares, Lazaro Santos, Daniel B. (EUA), Valeria Castagnino (Argentina), ao Dr. Pedro Luiz Silva Pinto (Núcleo de Enteroparasitas - Instituto Adolfo Lutz), além de Bill Frank ( Jacksonville Shell Club ) e aos colegas da Associação Francesa de Conquiliologia (AFC) , pela cessão das fotos para o artigo.



As fotografias de Walther Ishikawa, Chantal Wagner e da NIH-NIAID estão licenciadas sob uma Licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.
VEJA TAMBÉM
   
A reprodução do camarão de água doce no aquário
Uma breve explicação sobre o processo de r...
Saiba mais
   
Erosão na Concha de Moluscos
Edson Paveloski Jr. e Walther Ishikawa - E...
Saiba mais
   
- Lista de "Pomacea" que ocorrem no Brasil
Lista de "Pomacea" brasileiros
Saiba mais
   
"Se não está quebrado, não conserte!"
Dianne De Leo - Experiência sobre a troca ...
Saiba mais
   
Reprodução das Medusas de Água Doce 2
Gen-yu Sasaki - Reprodução sexuada do "C. ...
Saiba mais
   
Meus camarões vão se hibridizar?
Ryan Wood - Tabela de compatibilidade de c...
Saiba mais
   
Reprodução das Medusas de Água Doce 3
Gen-yu Sasaki - Nascimento das Hidromedusa...
Saiba mais
   
Ampularídeos
Stijn Ghesquiere - Guia básico para manter...
Saiba mais
   
Ampulárias - pêlos na concha, tentáculos no manto
Um curioso achado em filhotes de algumas A...
Saiba mais
   
Meu Lagostim ficou Azul!!
Cores e Mudanças de Cores nos Lagostins
Saiba mais
   
Reprodução de Pomacea diffusa
Cinthia Emerich - Reprodução de "Pomacea d...
Saiba mais
   
Invertebrados Aquáticos: Uma Visão Global
Andrew Pollock - Uma visão geral sobre inv...
Saiba mais
 
« Voltar  
 

Planeta Invertebrados Brasil - © 2017 Todos os direitos reservados

Desenvolvimento de sites: GV8 SITES & SISTEMAS