INÍCIO ARTIGOS ESPÉCIES GALERIA SOBRE EQUIPE PARCEIROS CONTATO
 
 
    Artigos
 
Alimentação Pedal de Nêuston pelas Ampulárias
 
Uma forma curiosa das Ampulárias se alimentarem de materiais flutuando no filme d´água.



Alimentação Pedal de Nêuston pelas Ampulárias



Vejam a foto acima. Muitos de vocês que criam Ampulárias em aquários já devem ter presenciado esta cena, a Ampulária se dirige até a superfície da água, forma um funil com a região anterior do seu pé, e capta alimentos e outras partículas que estejam flutuando no filme d´água. Um time de biólogos argentinos resolveu estudar este comportamento mais a fundo, e conseguiu alguns resultados bem interessantes.


 

Nêuston

Há alguma controvérsia na definição de “Nêuston”, alguns autores usam uma definição mais ampla, para o grupo de organismos habitando a camada mais superficial de corpos d’água. Porém, a maioria dos pesquisadores se refere a “Nêuston” como o grupo de organismos habitando a interface água-ar em habitats aquáticos, acima (Epinêuston) ou abaixo (Hiponêuston) do filme d’água. Alguns exemplos são os artrópodes que caminham sobre a água usando sua tensão superficial (como os Gerrídeos e Aranhas-pescadoras), e animais marinhos flutuadores, como as Caravelas. Geralmente se inclui também plantas flutuantes, como as Lemna, Wolffia e Azolla, e também estágios inativos de organismos (pólen, sementes e esporos). É um termo que se confunde e se sobrepõe com “Plêuston”. Todos são nomes usados em Ecologia e Limnologia, do mesmo grupo de “Plâncton”, “Nécton” e “Bentos”, estes três talvez mais familiares para nós, aquaristas.


Alguns aquaristas já conhecem o termo Nêuston, porque é como alguns se referem ao biofilme bacteriano que se forma na superfície de aquários plantados, com um aspecto iridescente parecido com uma camada oleosa.




Ampulária Pomacea lineata se alimentando na superfície, fotografado em um pequeno córrego em Ubatuba, SP. Fotos de Walther Ishikawa.


 

Bioinvasão e Ampulárias

Ampulárias são espécies invasoras agressivas em muitos países, causando grandes prejuízos em plantações e determinando importantes impactos ambientais, dizimando macrófitas submersas e flutuantes em muitos locais ocupados. Após a erradicação do seu principal alimento, espera-se que a população invasora entre em colapso, ou que pelo menos haja uma redução drástica na sua população. Mas, já há algum tempo têm-se notado que as Ampulárias persistem nestes locais altamente impactados, até mesmo permanecendo em altas densidades populacionais, mesmo depois das alterações catastróficas provocadas erradicando recursos. Como isto é possível?


 

Coleta Pedal Superficial

Ampulárias tem uma grande plasticidade na sua alimentação, um típico generalista, um dos motivos do seu grande sucesso como invasor. Neste contexto, a Coleta Pedal Superficial (“pedal surface collecting”) de alimentos é uma ferramenta bastante útil quando não há macrófitas disponíveis, representando uma opção importante de fonte de alimentos. Porém, já se sabia que Ampulárias consomem regularmente Nêuston, mesmo quando há outros alimentos disponíveis.


É uma estratégia praticamente exclusiva das Ampulárias, o animal se dirige à superfície, mantém a região posterior do pé fixa a algum substrato, e forma um funil com a parte anterior do pé, coletando o material presente na superfície da água por ação ciliar, que depois de compactado com muco, é ingerido. Permite a captura de uma grande variedade de alimentos, como restos orgânicos (pétalas, folhas, exúvias e corpos de insetos) e nêuston (como pequenas plantas flutuantes). A interface ar-água também contém uma quantidade significativamente mais alta de particulado e matéria orgânica dissolvida, além da Monocamada Protéica, que também são ingeridas pela Ampulária.


É um comportamento mais visto após o entardecer, para evitar detecção por predadores emersos. Porém, é raro á noite, talvez pela redução na temperatura da água. Ocorre em Ampulárias de diversos tamanhos, embora seja rara nos indivíduos muito pequenos.





Ampulária se alimentando na superfície do aquário. Vídeo gentilmente cedido por Juliana Jara.


 

Qual o papel da CPS?

Uma equipe argentina liderada pela Dra. Lucía Saveanu (Universidad Nacional del Sur) e Dr. Pablo R. Martín (CONICET) decidiram estudar em laboratório a CPS, se ela era empregada mesmo quando macrófitas são disponíveis, e se uma alimentação exclusiva de Nêuston permitiria um crescimento adequado das Ampulárias. Seus resultados foram publicados em 2015, na conceituada revista Limnologica.     


Foi visto que a CPS é uma alternativa importante como fonte trófica quando macrófitas são ausentes ou não-palatáveis. Mas seu trabalho confirmou que os animais consomem nêuston mesmo quando o alimento preferencial (macrófitas) está disponível. Parece haver alguma preferência por macrófitas, se todos os demais parâmetros forem iguais: valor nutricional, palatabilidade e disponibilidade.




Ampulárias Pomacea scalaris e Pomacea diffusa alimentando-se na superfície, em um aquário. Foto de Denise Caillean.

 


Representa uma forma complementar e alternativa de alimentação, com vantagens e desvantagens. Muitas vezes o nêuston representa um alimento mais nutritivo (por exemplo, maior conteúdo protéico de carcaças de insetos), com maior recompensa. Oferece também uma vantagem energética em curto prazo, já que a oferta de alimentos é continuamente reposta, o animal não necessitando sair do lugar para procurar mais alimento. Porém, esta vantagem é parcialmente contrabalanceada porque há maior gasto energético à custa de intensa atividade ciliar necessária para esta captura. Importante lembrar também que há maior imprevisibilidade na oferta de nêuston, uma variação relativamente grande de abundância e composição, já que ele é dependente de variadas fontes, como vegetação ripária e macrófitas emersas.


Foi visto também que houve crescimento adequado dos animais alimentados somente com nêuston, mas um crescimento menor do que aqueles alimentados com macrofitas. Desta forma, Ampulárias podem sobreviver em locais sem macrófitas, em corpos altamente impactados, alimentando-se somente de nêuston, além de outras fontes como resíduos orgânicos e perifíton.





Ampulária Pomacea scalaris se alimentando na superfície, em um aquário. Foto e vídeo cortesia de Natalia Albano de Aratanha.



Parece se tratar de uma adaptação bastante especializada para as mudanças ambientais previstas nestes contextos de invasão: o consumo em massa de macrófitas altera o padrão do corpo de água, de águas límpidas dominadas por macrófitas para águas turvas dominadas por fitoplâncton. Isto aumenta a disponibilidade de nêuston, por aumento de plâncton e aumento de pequenas plantas flutuantes.


A adaptação a ambientes imprevisíveis levou à evolução da CPS, que é uma característica bem peculiar das Ampulárias. Um quadro muito semelhante ocorreu em outro grupo de gastrópodes límnicos parentes dos Ampularídeos, que são os Viviparídeos asiáticos. Só perdem em tamanho para os Ampularídeos, mostrando o quão bem adaptados são a estes ambientes dinâmicos. Os Viviparídeos (como o Bellamya) consomem essencialmente macrófitas, mas também evoluíram uma estratégia alimentar complementar, seu ctenidío, um órgão respiratório, desenvolveu um mecanismo associado de filtração e captura de pequenas partículas orgânicas e plâncton (séston), além da sua função respiratória. Há também um canal ciliado para transportar este material filtrado à boca do animal. 






Coleta Pedal Superficial de Ampulária, formando o funil com seu pé. Imagens cedidas por Antonio Tetares.





Bibliografia:

  • Saveanu L, Martín PR. (2015) Neuston: A relevant trophic resource for apple snails?. Limnologica - Ecology and Management of Inland Waters 52, 75-82.
  • Marshall HG, Burchardt L. (2005) Neuston: its definition with a historical review regarding its concept and community structure. Arch. Hydrobiol. 164 (4),429–448.
  • Saveanu L, Martín PR. (2013) Pedal surface collecting as an alternative feeding mechanism of the invasive apple snail Pomacea canaliculata (Caenogastropoda: Ampullariidae). Journal of Molluscan Studies, 79(1): 11–18.



Agradecimentos aos amigos aquaristas Juliana Jara, Denise Caillean, Natalia Albano Aratanha e Antonio Tetares (Espanha) por permitir o uso das suas fotos e vídeo.



As fotografias de Walther Ishikawa estão licenciadas sob uma  Licença Creative Commons . As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

Artigo publicado em 16/05/2015, última edição em 28/02/2016
VEJA TAMBÉM
   
Experimentos de Dissolução de Conchas
Algumas experiências para avaliar a compos...
Saiba mais
   
Armadilha para camarões Faça-você-mesmo
Joel MacClellan - Deixe eles mesmo se capt...
Saiba mais
   
"Neocaridina cf. zhangjiajiensis" variações de cor
Andy - Forma selvagem e as inúmeras variaç...
Saiba mais
   
Erosão na Concha de Moluscos
Edson Paveloski Jr. e Walther Ishikawa - E...
Saiba mais
   
Variedades de cor na "Pomacea diffusa" 2: Genética
Walther Ishikawa - Genética das Variedades...
Saiba mais
   
"Se não está quebrado, não conserte!"
Dianne De Leo - Experiência sobre a troca ...
Saiba mais
   
Cruzamentos seletivos de Ampulárias
Walther Ishikawa - Cruzamentos seletivos d...
Saiba mais
   
“CrabWatching” em Manguezais
Observando caranguejos em manguezais e est...
Saiba mais
   
Hibridização de Ampulárias "Asolene" x "Marisa"
Hibridização de Ampulárias "Asolene spixi"...
Saiba mais
   
Cultivando Branchonetas
Marcio Luiz de Araujo - Cultivando Brancho...
Saiba mais
   
- Lista de "Pomacea" que ocorrem no Brasil
Lista de "Pomacea" brasileiros
Saiba mais
   
Trocando a água durante o inverno
Kensin - Você pode trocar a água do seu aq...
Saiba mais
 
« Voltar  
 

Planeta Invertebrados Brasil - © 2017 Todos os direitos reservados

Desenvolvimento de sites: GV8 SITES & SISTEMAS