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Nova espécie de esponja de água doce!
 
Nova espécie de esponja continental descoberta por colaborador do Planeta Invertebrados!






Nova espécie de esponja descoberta por colaborador do Planeta Invertebrados!


Por Fernando Barletta



Creio que todo hobbysta Pet um dia foi uma criança que queria virar bióloga quando adulta. Particularmente fui uma delas, e sempre fui curioso com tudo que acontecia dentro do micro-ecossistema chamado aquário.


O Aquarismo é um hobby mais complicado do que ter um cachorro ou gato, mas ao mesmo tempo, não há afetuosas interações como temos com esses mamíferos. É um hobby puramente contemplativo e, portanto, há uma surpreendente parcela íntima. E é maravilhoso notar que pode haver uma infinidade de outros seres vivos nesta pequena porção de água, se prestarmos bastante atenção. Quando houver qualquer desequilíbrio no ambiente do aquário, antes de inserir qualquer composto químico milagroso que resolveria o problema, sempre quis saber o porque ele ocorreu e se isto é realmente um problema.




Outras esponjas do mesmo aquário, na foto no início do artigo, aderidas a folhas de Microsorum, e nesta  imagem, envolvendo também raízes de uma alface d´água. Fotos de Fernando Barletta.



E foi assim que no começo de 2014, um belo dia achei no meu aquário comunitário de 200 litros, grudado num tronco de madeira uma "coisa". Era uma estrutura plana, translúcida e esbranquiçada medindo aproximadamente 25 mm em sua maior extensão, algo minúsculo e curioso. Na época o tanque era um low-tech, com Acará-bandeira, Neons e outros tetras, cuja flora tratava-se de Microssorium, Musgo de Java, Anubia e outras plantas rústicas, estava montado há 3 anos e havia recém adquirido um filtro canister. Antes de pensar em erradicar fiquei entretido, sabia que não se tratava de fungo ou alga. Fiz algumas observações e fotos e vi que aquilo era realmente algo novo para mim, e que estava vivo!






GIF animado mostrando a sutil movimentação da região do ósculo. Fotos de Fernando Barletta.



Heteromeyenia barlettai no aquário, note o discreto fluxo de água sendo exalado pelo ósculo (a estrutura em forma de sifão). Vídeo de Fernando Barletta.



Foi por meio de um fórum online que conheci Walther Ishikawa, do Planeta Invertebrados, que confirmou minhas suspeitas de que se tratava de uma esponja de água doce, um organismo bem raro em aquários. Fiquei imaginando o caminho percorrido pela gêmula até o meu tanque e eclodir. Foi através da água de um peixe novo? Estava em uma planta? Alguns meses atrás havia adquirido uma muda de Najas indica trazida do Japão, será que a gêmula percorreu metade do planeta até meu tanque? E assim, a pergunta final: qual é a probabilidade de descobrir algo novo dentro de um ambiente artificial dentro de um apartamento situado no centro da capital de São Paulo?



Interessado pelo mistério, Walther Ishikawa fez a ponte para um biólogo especialista no assunto, o prof. Ulisses Pinheiro, da Universidade Federal de Pernambuco. Trocamos e-mails, com muito entusiasmo da minha parte, fazendo perguntas básicas para uma unanimidade em poríferas no Brasil, Ulisses sempre se mostrou informal, espontâneo e disponível a responder tudo. Ele até me convidou para visitar seu departamento na UFPE, em Recife. Aceitei e fui 3 meses depois!

Lá conheci todas as dependências do laboratório, a sua equipe que faz milagre, diante da difícil realidade que é trabalhar com pesquisa científica no Brasil. Contribui minimamente através de umas aulas de Fotografia, além de registrar algumas amostras de seu acervo. Participei de uma coleta de poríferas marinhas como também assisti à defesa de mestrado da sua aluna, Ludimila Calheira – para entender melhor como é a vida de um biólogo.



Mas antes dessa viagem, foram meses de envio de amostras e e-mails com o prof. Ulisses, até que um dia veio a resposta de que se tratava de uma nova espécie de esponja de água doce! Heteromeyenia barlettai! “Nome proposto em honra a Fernando Barletta, o dono do aquário cuja curiosidade permitiu a descoberta da nova espécie” – segundo Ulisses Pinheiro em seu artigo, citado na bibliografia. É a oitava espécie descrita deste gênero no mundo.


Minhas pernas cambalearam! Eu como amante da natureza, aspirante a biólogo, autodidata e observador ansioso, fui eternizado com meu nome na Ciência. Tenho 36 anos mas ainda pulo como uma criança quando lembro disto.






Heteromeyenia barlettai no aquário, aderidas a uma folha de Vallisneria. Fotos de Fernando Barletta.



Em seu artigo Ulisses Pinheiro discute outro aspecto interessante, a descoberta de novas espécies animais em aquários ornamentais. Em aquários marinhos há registros de descobertas de diversas espécies novas de esponjas, copépodes, e até uma espécie de cnidário no Espírito Santo. Outras duas espécies de esponjas continentais já haviam sido descritas a partir de habitats artificiais pela equipe do próprio prof. Ulisses, mas a partir de espécimes encontrados em tanques de piscicultura em Pernambuco e Bahia, possivelmente suas gêmulas tenham sido carregadas para estes tanques pelos cursos d´água que os alimentam, pelo vento ou por aves. A descoberta de esponjas em aquários ornamentais de água doce é inédita, ainda mais em um apartamento, um local bastante isolado do ambiente natural. Um comentário triste feito pelo prof. Ulisses no artigo é a de que talvez nunca saibamos a origem exata do H. barlettai, dada a intensa degradação ambiental dos habitats de água doce na região de São Paulo, talvez a espécie possa já estar extinta na natureza antes da sua atual descoberta formal.



As poucas informações disponíveis na internet falam que são animais difíceis de serem mantidos em aquários, pode ser que um indivíduo não dure mais que 6 meses em ambiente artificial, mas em ambiente natural durem bem mais. A H. barlettai se mostrou relativamente fácil de se manter em meu tanque, estão sempre gemulando e eclodindo em diferentes lugares do aquário. O indivíduo mais antigo tem aproximadamente um ano, e está justamente fora do aquário, isto é, dentro do filtro canister.




O aquário comunitário onde surgiram as esponjas. Foto de Fernando Barletta.



Faço de tudo para mantê-las vivas. Afinal tenho que cuidar bem de minha filha. Não planejo nenhuma mudança drástica para não prejudica-las.


Retirei qualquer possível predador para dar-lhes todas as chances de sobrevivência. É sabido que caramujos como Pomaceas são predadores ávidos. Também descobri que os peixes do tipo “algueiro” são bons apreciadores, como Otocinclus (Limpa-Vidro) e os Cascudos.





Heteromeyenia barlettai, observada pela primeira vez se desenvolvendo em rocha (basalto). No detalhe, seu tamanho em milímetros. Foto de Fernando Barletta.



Estou sempre adquirindo e remodelando novos substratos com a introdução de troncos esburacados e plantas rusticas, pois elas se estabelecem principalmente em locais de baixa correnteza e não se fixam em nenhuma rocha.


Outro fator importante, senão, essencial, é a qualidade da água. Como trocas parciais frequentes e não necessariamente volumosas, assim como a retirada de matéria orgânica em decomposição. A manutenção dos parâmetros da água, para que o pH não caia muito, mantendo sempre entre 6,8-7,4. Sem picos de nitratos e amônia. Um fator que ando observando atualmente é o aumento gradativo da dureza (kH) e o crescimento da porífera. Parece que desenvolvem mais volume em suas estruturas espiculares, aumentando seu relevo e projetando mais seus ósculos.


Evitar também a inserção de produtos medicamentosos industriais e também naturais. Como quando coloquei folhas de Amendoeiras (Terminalia catappa), para melhorar a saúde de alguns peixes, tratamento muito apreciado por aquaristas, mas observei o decréscimo no número de esponjas.






Vídeo em "time lapse", filmagens com duração de uma hora, mostrando a movimentação da Heteromeyenia barlettai. Vídeo cortesia de Fernando Barletta.



Como sua alimentação se dá pela filtragem de partículas medindo micrômetros (a milésima parte do milímetro) presente na água, ou seja, bactérias, é inviável jogar qualquer ração ou coisa do tipo. Então o que fiz foi aumentar a qualidade das mídias nitrificantes na filtragem. Optei pela Siporax Mini da Sera, por não ter um canister de primeira linha, preferi colocar quantas mídias fossem necessárias para ocupar o espaço das bandejas.


Para finalizar, creio que um dos objetivos deste site é também trazer ao aquarista um pouco mais curioso, o vasto universo dos invertebrados, muitas vezes negligenciado e combatido. É gratificante fazer esta contribuição e convido-lhes a olharem mais de perto o seu aquário!



 

 

Bibliografia:

  • Pinheiro U, Calheira L, Hajdu E. A new species of freshwater sponge, Heteromeyenia barlettai sp. nov. from an aquarium in São Paulo, Brazil (Spongillida: Spongillidae). Zootaxa. 2015 Oct 29; 4034(2):351-63.

 


Agradecimentos aos amigo aquarista Fernando Barletta, frequente colaborador do nosso website, e autor da descoberta, que escreveu este relato especialmente para nós. Agradecemos também a colaboração do Prof. Ulisses dos Santos Pinheiro, chefe do Departamento de Zoologia, Centro de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), autor do manuscrito e descritor formal da nova espécie, por todo o apoio, valiosas informações e colaboração.

Prof. Ulisses também compila um banco de dados sobre esponjas de água doce no Brasil, no caso de identificação destes organismos na natureza, solicitamos, por favor, que entrem em contato com ele através do e-mail  uspinheiro@hotmail.com 

 

Veja nosso artigo principal de Esponjas Continentais na seção de "Espécies",  aqui.
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