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Identificando o “Mosquito da Dengue”
 
Culex x Aedes aegypti x Aedes albopictus


Aedes aegypti e Aedes albopictus. Foto de Amaro Alves.


Identificando o "Mosquito da Dengue" - Culex x Aedes aegypti x Aedes albopictus




Com a atual epidemia de Dengue, Chikungunya e Zika, muita atenção tem sido dada ao mosquito Aedes aegypti, vetor destas três doenças, com muitos artigos informativos na internet mostrando como identificá-lo corretamente. O objetivo deste texto não é repetir as informações já bastante divulgadas sobro assunto, mas tentar contribuir um pouco mais em detalhes mais sutis e avançados, como a diferenciação das duas espécies de Aedes que são encontradas em território brasileiro.




Culex x Aedes


Já existem muitos excelentes artigos abordando a diferenciação destes dois mosquitos urbanos e cosmopolitas, listando várias diferenças comportamentais, como o período do dia da hematofagia, e o tipo de ambiente onde se reproduzem. Como o foco do nosso portal é nos invertebrados aquáticos, talvez possamos detalhar um pouco melhor a distinção das suas formas imaturas, aquáticas. Assim como nos adultos, a diferenciação é fácil:




Comparação entre os ovos dos Culex e Aedes. Fotos de Walther Ishikawa.



Os ovos dos Aedes são tipicamente depositados em ambientes de água límpida, embora recentemente pequisadores tenham identificado uma maior adaptabilidade deste mosquito, suas larvas sendo encontradas em locais de água suja e até mesmo salobra. Os ovos são depositados de forma isolada, uma única fêmea os dissemina por diversos criadouros em uma única postura. São colocados às margens da água, em local emerso, mas úmido próximo à lâmina d´água. São brancos quando depositados, mas rapidamente adquirem uma coloração escura, sendo por vezes comparados a diminutas sementes. São muito resistentes à dessecação, permanecendo viáveis por até um ano em locais secos.


Os Culex (como o C. quinquefasciatus) têm preferência por locais de água suja e rica em matéria orgânica, seus ovos são depositados todos agrupados na superfície da água, são dezenas de ovos aderidos, todos de pé, formando uma “jangada” flutuante. Diferente dos Aedes, todos os ovos da postura são depositados em um mesmo local. São sensíveis à dessecação, murchando e morrendo rapidamente quando retirados da água.




Comparação entre as larvas dos Culex (direita) e Aedes (esquerda). Fotos de Walther Ishikawa.



As larvas aquáticas de ambos os gêneros permanecem submersas em uma posição vertical, discretamente oblíqua, respirando ar através do seu sifão respiratório na extremidade do abdômen. Neste sentido, diferem das larvas dos Anopheles (vetor da Malária), que repousam junto à superfície da água em posição horizontal, por não terem sifões respiratórios bem desenvolvidos. As larvas de Culex têm a cabeça e tórax mais largos, os Aedes têm sifões mais escuros, curtos e grossos, quase cônicos, além de terem uma coloração geral mais escura. 





Mosquito
Culex sp. Foto de Sonia Furtado.



Os adultos são facilmente distinguíveis. Os Culex são maiores, têm uma coloração marrom-palha. Suas pernas podem ter algumas manchas claras, mas não possuem o aspecto tigrado dos Aedes. Os Aedes são menores e mais escuros, e possuem marcações brancas bem definidas no corpo e anéis brancos nas pernas. A extremidade do seu abdômen é afilada e pontuda. Uma única observação importante é que estes sinais permitem distinguir o Culex do Aedes. Mas vale lembrar que existem outros mosquitos mais incomuns que também são escuros e tigrados, como o Aedes (Ochlerotatus) taenorrynchus e o Anopheles cruzii. Ou seja, cuidado para não identificar todo mosquito escuro e com faixas brancas como sendo Aedes (Stegomyia).





Aedes (Ochlerotatus) taeniorhynchus
, uma espécie litorânea que depende de água salobra, seu aspecto lembra bastante os Aedes (Stegomyia). Exemplar norte-americano, foto gentilmente cedida por Bryan E. Reynolds.




Aedes aegypti x Aedes albopictus


Dois Aedes do subgênero Stegomyia ocorrem no Brasil, ambos invasores: A. aegypti (africano) e A. albopictus (asiático). Ambos sugam o sangue de seres humanos, têm ampla distribuição no país, e são espécies urbanas.

Não há um único caso incriminando a transmissão de Dengue ou qualquer outra arbovirose pelo A. albopictus no Brasil. Porém há controvérsias, já que esta espécie é o principal vetor da Dengue em diversos países asiáticos. No Brasil é considerado um vetor potencial, capaz de abrigar os vírus da Dengue e Febre Amarela em condições laboratoriais. Também já foi encontrado na natureza (em outros países) portando estes dois vírus, e também o Chikungunya. Por tudo isso, alguns pesquisadores sugerem que são necessários mais estudos detalhados desta espécie no país, para elucidar seu real papel como vetor de arboviroses.

O A aegypti, ao contrário, é comprovadamente um dos mosquitos vetores mais importantes de arboviroses no país, como a Febre Amarela, a Dengue, o Zika, o Chikungunya, dentre outros. Desta forma, a correta diferenciação entre as duas espécies é muito importante.


Os dois são muito parecidos, todos os sinais descritos nos parágrafos anteriores para a distinção entre o Culex e Aedes se aplicam a ambas espécies de Aedes. Existem algumas diferenças comportamentais mais sutis, embora o A. albopictus seja também um mosquito urbano, prefere locais arborizados e com matas, picando as pessoas geralmente fora de casa. Costuma ser menos sorrateiro e mais agressivo na hematofagia, e é menos seletivo, alimentando-se de sangue de vários outros vertebrados (o que reduz sua capacidade como vetor). Seus criadouros preferenciais não são de fabricação humana, como buracos de árvores e internódios de bambu.




Aedes aegypti e Aedes albopictus, duas fêmeas. Note a diferença no desenho do escudo. Fotos gentilmente cedidas por Daniel Ramos e Sonia Furtado.



Quanto à aparência, o A. albopictus é um pouco mais escuro, enegrecido, com as faixas brancas mais bem demarcadas, mas a diferenciação só é possível com uma análise mais minuciosa da sua anatomia. O principal sinal usado na diferenciação das duas espécies é o desenho formado pelas escamas branco-prateadas e negras no seu escudo (a região dorsal convexa no tórax). O A. albopictus possui uma faixa longitudinal branca, sobre um fundo negro. O A. aegypti possui duas faixas longitudinais submedianas mais finas e paralelas, e linhas curvas laterais formando um desenho em forma de lira.




Aedes aegypti e Aedes albopictus. A ilustração mostra particularmente a diferença no desenho do escudo. Porém, note também a diferença na pigmentação do clípeo.



Sem dúvida, o desenho do escudo é o principal sinal usado na identificação. Porém, existem outros sinais auxiliares, que podem ser úteis quando o desenho do escudo não pode ser analisado. Pequenas escamas brancas e pretas formam os desenhos do escudo, desta forma, o desenho pode estar apagado em indivíduos mais velhos, ou se forem mecanicamente abatidos, por abrasão. Nestes casos, estes achados auxiliares são bastante usados. São eles:

  • Clípeo (região abaulada da cabeça entre os olhos e abaixo das antenas), com a presença de duas manchas brancas no A. aegypti (manchas ausentes no A. albopictus).
  • Mesoepímero (região látero-posterior do tórax) com duas manchas brancas separadas no A. aegypti (duas manchas juntas e em forma de “V” no A. albopictus).
  • Fêmur da perna média, face anterior, com uma faixa branca longitudinal no A. aegypti (ausente no A. albopictus).




Aedes aegypti e Aedes albopictus, sinais secundários usados na identificação: Mesoepímero com duas manchas separadas no A. aegypti (A) e fundidas no A. albopictus (B), e face anterior do fêmur da perna média com faixa clara no A. aegypti (C) e ausente no A. albopictus (D). A foto central é de um macho. Fotos de Marcos Teixeira de Freitas e César Favacho.



Em relação aos ovos, larvas e pupas, a diferenciação não é possível sem um microscópio. Existem várias diferenças (como o aspecto dos espinhos da escama do VIII segmento, e do pente no sifão das larvas, e as palhetas natatórias nas pupas), mas todos os sinais são muito sutis, e infelizmente não podem ser vistos sem uma magnificação adequada.






Para as Referências Bibliográficas, visite nosso artigo principal sobre os Mosquitos Culicídeos aqui.


Pela cessão das imagens para o artigo, somos muito gratos aos colegas Amaro Alves, Sonia Furtado
Daniel Ramos, César Favacho, Marcos Teixeira de Freitas e Bryan E. Reynolds (EUA).


As fotografias de Walther Ishikawa e Daniel Ramos estão licenciadas sob uma Licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

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