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Doenças de Ampulárias - Tecidos Moles
 
Artigo abordando as principais doenças que podem acometer as partes moles das Ampulárias
Artigo publicado em 10/08/2019, última edição em 10/01/2022



Ampulária Pomacea diffusa flutuando no aquário. Um sinal de alerta, mas um achado bem comum e geralmente sem importância. Foto
de Juliana Jara.



Doenças de Ampulárias - Tecidos Moles




Há poucas informações sobre doenças de Ampulárias (Pomacea diffusa) na internet, e praticamente nenhuma em literatura científica. Este artigo é uma tentativa de compilar as diversas condições patológicas que podem acometer estes animais, como diagnosticá-las, e, se possível, tratá-las. Muitas condições são graves e letais, e a maior parte dos tratamentos são baseados em experiências empíricas limitadas de aquaristas, com elevadas taxas de insucesso. Assim, certamente este será um artigo em constante revisão e evolução, contribuições com imagens e informações serão sempre bem-vindas.


Aqui abordaremos condições de saúde relacionadas aos tecidos moles destes caramujos. Doenças das suas conchas podem vistas no artigo complementar: Erosão na concha de moluscos.



 

Inatividade – minha Ampulária morreu?


Por um motivo não muito claro, as Ampulárias podem ficar imóveis e retraídas dentro da sua concha por um período longo, boiando na superfície da água, ou paradas no fundo do aquário. Pode ser uma reação a um estresse ambiental, ou a alguma doença. Mas na maioria das vezes o animal volta à atividade sem uma aparente explicação para o motivo deste período de latência. Sempre vale a pena realizar o teste de retirar o caramujo da água e deixa-lo alguns minutos em um local úmido, para excluir algumas condições graves (veja adiante). Muitas vezes, somente esta retirada da água (permitindo a renovação do estoque de ar) pode recuperar o animal.


Uma dúvida muito comum com estas Ampulárias imóveis é se o caramujo ainda está vivo, ou já morreu. Se o opérculo está entreaberto, ou as partes moles já se mostram irregulares e com alteração de cor, é quase certo que o animal já morreu. Se não, uma boa dica é simplesmente verificar se o caramujo está com um forte cheiro podre. Estes animais têm o tecido bastante flácido e decompõem rapidamente depois de mortos. O cheiro é realmente muito forte e desagradável, e impregna qualquer local em que o tecido apodrecido entre em contato. Sugere-se fazer isso num lugar ventilado, e usar luvas descartáveis, senão seus dedos ficarão com um cheiro ruim por muito tempo!

 

 

Ampulária Pomacea canaliculata flutuando e inativa na primeira imagem. Um achado comum e que gera preocupação, mas houve recuperação e atividade normal após alguns dias. A segunda imagem mostra uma P. flagellata flutuando morta, havia morrido há alguns dias. Fotos de Stijn Guesquiere.




Banho de ar


Recentemente, várias postagens na internet descrevem tratamentos baseados em simplesmente retirar as Ampulárias da água, e deixá-las emersas por algum tempo. O tratamento faz sentido, baseado no fato destes animais respirarem essencialmente ar, e suportarem prolongados períodos fora da água, desde que mantida a humidade. Vivendo em aquários, Ampulárias doentes e enfraquecidas podem ter dificuldade em se mover para a superfície, para renovar seu estoque de ar. O tratamento consiste em simplesmente retirar o animal doente da água e manter em um recipiente com um pano ou papel toalha encharcado em água, dando oportunidade para que ele "respire" normalmente. A duração é de 10-15 minutos, e pode ser feito várias vezes ao longo do dia. Pode ser feito como tratamento auxiliar em qualquer doença, e mesmo em Ampulárias inativas ou muito idosas. 


Um lembrete também quando se usa um aquário-hospital para tratamento de qualquer doença de Ampulárias. Deve-se manter o nível de água baixo, para minimizar o esforço do caramujo em subir até a superfície para respirar.




Vídeo demonstrando a técnica de "Banho de Ar", publicado com a permissão da autora, a criadora norte-americana de Ampulárias, Lavnyia (Lav´s Snails).




Perda de tentáculos


Se as Ampulárias são mantidas com peixes, é uma condição quase inevitável. Os finos tentáculos em movimento lembram deliciosos vermes, e são rapidamente devorados pelos peixes, especialmente se forem peixes belicosos como tetras e barbos. Felizmente a capacidade regenerativa de caramujos é muito grande, e estas perdas são curadas com o crescimento de novos tentáculos. Apesar dos caramujos terem a habilidade de fazer isso repetidamente, não é um processo inócuo, os tentáculos regenerados costumam ser mais curtos, e todo o processo leva a uma menor atividade da Ampulária. Representa um estresse e sofrimento para o caramujo, que pode comprometer a saúde global do animal a longo prazo, devendo ser evitado. Caramujos mantidos com peixes podem mudar seu comportamento, e mantêm os tentáculos parcialmente retraídos, ou ocultos embaixo da concha.

 



Ferimentos no corpo e pé


Assim como os tentáculos, a maior parte do pé do caramujo também pode ser regenerado, embora represente uma agressão maior para o animal. Causas comuns são ataques de peixes, ferimentos com aquecedores, e aspiração pelo filtro (veja o artigo Ampulárias sendo sugadas por filtros). O ideal é que o caramujo seja separado e bem alimentado, para acelerar sua recuperação.


Ao contrário do pé, o restante do corpo das Ampulárias é bastante sensível e frágil, felizmente é quase todo envolvido na concha protetora. Pode haver problemas em conchas quebradas, expondo as partes moles do animal. A gravidade do ferimento irá depender muito do local envolvido, a anatomia interna destes animais é bastante complexa, mas os órgãos mais vitais tendem a ficar localizados mais profundamente dentro da concha.

 



Ferimento no pé de uma Pomacea diffusa, provável acidente com filtro. A sequência de fotos mostra a regeneração do pé. Fotos de Kauê Braga.




Tentáculos ou sifões bifurcados, e outras anomalias congênitas


Tentáculos podem ser bifurcados, ramificados ou supranumerários, mais comumente de causa hereditária. Não costumam causar grandes consequências na vida do caramujo. Algum dano no tentáculo (como cistos) durante o seu crescimento pode levar a uma bifurcação adquirida. Nestes casos, se este tentáculo for devorado por algum peixe, o novo tentáculo cresce normalmente.


Sifões bifurcados também são comuns, e geralmente sem grandes consequências. Em especial, se o sifão for mais dobrado, ou com dificuldade em se estender totalmente, o caramujo pode ter maior dificuldade em respirar o ar, e talvez precise de um maior espaço acima da linha d´água para respirar.


Outras condições genéticas e congênitas podem acontecer, mas são bem mais raras. Destacamos algumas em um artigo específico, veja Ampulárias Xifópagas e Quimeras Genéticas.

 





Ampulária com algumas anomalias congênitas, note que há quatro olhos (ao invés de dois) e quatro tentáculos cefálicos (ao invés de dois), um deles bifurcado. Apesar das anomalias, o caramujo vive normalmente. Imagens cedidas por Natália Aratanha.




Pomacea diffusa com anomalias congênitas. Sifão deformado na primeira foto, dificultando a respiração aérea. Tentáculo bifurcado na segunda imagem. Fotos de Terri Bryant.




Micoses


Infecções fúngicas profundas têm um aspecto bem típico, inicia-se com uma perda da coloração no pé, que progride para manchas mais claras ou escuras. Pode haver micoses superficiais também, com um aspecto de “algodão”, como acontece com peixes. Infelizmente não há tratamento, já que todas as medicações antifúngicas para peixes de aquário contêm substâncias químicas tóxicas para caramujos. O animal doente deve ser separado, para evitar contágio dos outros caramujos. Reduzir a temperatura da água para 17 a 20C parece facilitar a recuperação do animal, mas a taxa de sobrevivência é muito baixa.

 

Pomacea flagellata com infecção fúngica, note as manchas claras no pé e corpo. Havia uma tendência à expansão nas margens das manchas, e cura na porção central. Muitos caramujos acometidos morreram. Foto de Stijn Guesquiere.



Pomacea diffusa com infecção fúngica, note as estruturas parecidas com algodão na cabeça do animal, e a destruição do tentáculo cefálico. Fotos de Amanda Donegá.




Verrugas, cistos e tumores


Mais comum em indivíduos velhos de Pomacea canaliculata, são caroços e verrugas que podem aparecer no pé, face e tentáculos. Seu tamanho varia do quase imperceptível ao de uma cabeça de alfinete, e os maiores nos tentáculos podem causar dobras e deformidades. Apesar do aspecto desagradável, não parece ser transmissível, nem causar grandes consequências à saúde do animal.


Cistos lembram verrugas, mas neste caso há um objeto central na região elevada. São visíveis como esferas escuras no meio do tecido acometido, de natureza desconhecida. Costumam desaparecer sem tratamento. Podem surgir após infecções fúngicas, sugerindo que possam se tratar de granulomas. Não parecem ser contagiosos, e não há aparente repercussão na saúde do animal. Em Ampulárias selvagens coletadas, vermes digênicos podem também formar pequenos cistos preenchidos por material purulento, especialmente no pé do caramujo, representando as cercárias que serão eliminadas.


Os tumores vêm em diferentes formas, desde pequenas nodulações a grandes massas internas calcificadas. Sua causa é desconhecida, alguns atribuem a uma degeneração genética por excesso de cruzamentos consanguíneos. Talvez por isso, são mais frequentes em algumas variedades selecionadas de cor, como os Púrpuras e Vermelhos, muitas vezes associadas a outras desordens genéticas, como a Síndrome da Concha Fina. Não são perceptíveis, exceto se muito grandes, desta forma nem são diagnosticados ou tratados. Eventualmente um tumor calcificado pode ser identificado no processo de limpeza da concha para guardá-la como lembrança, quando um pedaço grande de material ósseo sai da concha depois das partes moles estarem decompostas.


Assim como em seres humanos, estes tumores têm gravidade e agressividade variáveis, o mais comum é que sejam tumores benignos de crescimento lento, onde o caramujo convive com a tumoração sem causar grandes consequências. Mas há relatos também de tumores mais agressivos e de crescimento rápido, levando o animal a morte num período curto de tempo.



Pomacea diffusa idosa com verrugas nos tentáculos, causando deformidades. Cerca de um ano de idade, faleceu duas semanas após estas fotos. Fotos de Cathy Flanagan.




Pomacea diffusa com cistos nos tentáculos. Foto de Amy Lynn.



Pomacea canaliculata com nódulos na pele (1) e sifão (2), afetando o funcionamento deste último. Foto de Stijn Guesquiere.



Ampulária Pomacea diffusa doente, com nódulos no seu pé. O animal morreu alguns dias depois destas fotos. Imagens de Aline Bernal Stefani.



Pomacea diffusa com pequenas nodulações ou cistos no seu pé. Fotos de Terri Bryant.



Dois exemplares de Pomacea canaliculata encontrados em St. Marys, Camden County, Georgia, EUA. Em meio ao tecido dos pés dos animais, foram encontradas estas estruturas calcificadas. Curiosamente, ambas não apresentavam opérculo. Fotos de Bill Frank.




Pomacea diffusa com cerca de um ano de idade e um tumor no seu pé. Este tumor mostrou crescimento rápido, e a ampulária morreu cerca de duas semanas após a detecção. Fotos de Mariana Milhomem.




Edema


Ampulárias possuem um tecido bastante frouxo e friável no seu corpo, qualquer distúrbio no equilíbrio de fluidos corporais vai levar a uma retenção líquida e inchaço. Isso é mais comum em caramujos mais velhos ou debilitados, com uma capacidade mais limitada de osmo-regulação. Este excesso de volume no corpo da Ampulária faz com que ele não caiba mais na concha, “transbordando” para fora, e não permitindo o fechamento pelo opérculo. Um local mais fácil desse inchaço ser visto é no seu pé, que fica com um aspecto deformado e com a margem ondulada. Pode levar a dificuldades na sua locomoção. Nos casos mais graves, o inchaço se estende para a cavidade do manto, comprometendo a função respiratória. Frequentemente há um aumento na secreção de muco, que pode ser uma tentativa de eliminar o excesso de água.


Possui várias causas, talvez possa ser considerado um sintoma inespecífico de várias condições diferentes, ao invés de uma doença. A primeira causa que deve ser excluída é uma intoxicação, ou condições químicas inadequadas de água (nitrogenados, por exemplo), em especial se há mais de um caramujo acometido. Testes devem ser realizados, e TPAs.  


Enquanto muitos caramujos morrem, outros permanecem em condições relativamente estáveis, melhorando depois de algum tempo sem uma clara explicação. Recomenda-se isolar o animal enquanto isso, para evitar um eventual contágio dos outros habitantes, mas também para proteger o caramujo vulnerável do ataque dos outros habitantes do tanque. Não há tratamento específico, lembrando que estes animais são bastante sensíveis a sais, qualquer tentativa de tratamento baseado em alterações osmolares da água deve ser feito com muito cuidado. Algumas descrições em fóruns de caracóis mencionam o uso de anti-inflamatórios, como óleo de castor, mas a experiência é bem limitada.

 


Edema em Ampulária. O animal foi separado para tratamento, mas infelizmente morreu alguns dias após. Fotos de Paula Antonino.


Ampulária doente, com acentuado edema. Note como ela não consegue retrair-se totalmente para o interior da concha, devido ao aumento volumétrico. Vídeo cortesia de Meg Lo.



Edema em Ampulária. Nas primeiras fotos, após uma fertilização líquida em um aquário plantado, o animal tornou-se letárgico, boiando e eliminando muco. Note o inchaço, não conseguindo fechar a concha com o opérculo. As últimas fotos mostram a mesma ampulária, depois de recuperada. O caramujo foi separado em um outro aquário para tratamento, com troca d´água e separado dos outros habitantes, com recuperação completa. Fotos de Telma Perrotta de Campos.




Intoxicações


Ampulárias são bastante sensíveis a produtos químicos, muitos deles usados rotineiramente em aquarismo para tratamento de doenças ou ajustes de parâmetros químicos da água. O princípio básico de qualquer tratamento medicamentoso em peixes é matar o germe, e não ter efeitos adversos no peixe. Ou seja, é baseada na diferença de metabolismo entre o peixe e o agente que causa a doença. O problema é que o metabolismo de moluscos é muito mais próximo de vários destes germes (por exemplo, vermes) do que dos peixes hospedeiros. Via de regra, tratamentos para verminoses de peixes irão matar os moluscos também. Assim, sugere-se separar moluscos ornamentais do aquário sempre que for feito qualquer tratamento de doenças no aquário.


Alguns exemplos de substâncias sabidamente tóxicas para caramujos são:

  • Verde malaquita (usado no tratamento de íctio, fungos e veludo / oodinose).
  • Vários pesticidas organofosforados como formaldeído, metrifonato, triclorfon, diclorvos, usados para tratamento de verminoses e crustáceos parasitas.
  • Metaldeído, um moluscida.
  • Medicamentos contendo cobre, para tratamento de infecções fúngicas e protozoários.
  • Óxido de Di N Butil estanho, um vermífugo.


Lembrando também que moluscos são bastante sensíveis a substâncias químicas como cloro, cloraminas, fluorinas, metais pesados, etc. O cobre presente em encanamentos também pode ser bastante tóxico para estes seres. Por outro lado, comparado a peixes ornamentais, são mais resistentes à intoxicação com amônia, nitrito e nitrato.

 



Atrofia do pé


Em condições de doença, é comum moluscos gastrópodes catabolizarem proteínas do seu pé muscular, levando a atrofia. É uma condição bastante conhecida em criações de Abalones, onde é chamada de "foot withering syndrome".


Pé retraído e encolhido é um sinal de alerta, mais frequente em condições de estresse grave, por exemplo por inanição. É comum em Ampulárias mantidas em aquários sem alimentação adequada por um período prolongado. Se a inanição persistir, os danos nos órgãos internos serão irreversíveis, levando à morte. Se detectado a tempo, a maioria dos caramujos terá recuperação completa, após uma a duas semanas de alimentação abundante e adequada. Se o animal continua a exibir uma retração no pé, sem melhora, é um dos sinais indicando uma lesão permanente, com morte iminente. 

Mais raramente, um pé retraído pode ser um sinal de alguma malformação, ou tumores internos com um caráter retrátil, mas via de regra este diagnóstico não pode ser feito com o caramujo vivo.

 



Provável atrofia do pé em uma Pomacea diffusa. O caramujo constantemente retraía o pé, com dificuldade de locomoção. A causa foi desconhecida, talvez uma doença antes da aquisição pelo aquarista. Fotos de Gabriel Saes.




Colapso da cavidade do manto


O manto é uma estrutura com aspecto de saco que envolve o corpo do caramujo, e sua cavidade contém órgãos vitais como o pulmão e brânquias. Em condições normais, o manto é firmemente aderido à superfície interna da concha, inclusive, sendo responsável pelo crescimento da concha em espessura. Só há uma mínima lâmina líquida no espaço entre o manto e a concha. Se por algum motivo o manto se destacar da concha, haverá colapso da sua cavidade. Com o colapso da cavidade do manto, ocorre colapso também do pulmão. Sem um suporte estrutural que garanta seu funcionamento, não somente a função respiratória aérea pulmonar é gravemente afetada, mas também a troca gasosa aquática pelas brânquias, devido ao comprometimento da circulação de água através dela. A extensão do destacamento é variável, somente à direita, à esquerda, ou bilateral. O pulmão se localiza à esquerda, assim, se o colapso for deste lado, o pulmão colaba rapidamente, sufocando o caramujo. Só sobrevive no máximo algumas horas, e em geral não é diagnosticado antes da morte do animal. Se o colapso for à direita, a Ampulária pode sobreviver por algumas semanas, mas com muita dificuldade na respiração e locomoção, e é sempre uma condição fatal.


Infelizmente não é claro o que causa esta soltura do manto da concha, mas parece ser prevalente em Ampulárias ornamentais. Rotura do músculo columelar é uma causa frequente. Muitas vezes associa-se, ou é precedido por edema importante do corpo do caramujo, o próprio inchaço talvez podendo causar o destacamento do manto da concha. Desta forma, uma forma de verificar esta condição seria testar se o caramujo consegue se retrair para dentro da concha. Se conseguir, isto exclui muitas condições graves, inclusive o colapso. Se não conseguir se retrair, pode corresponder a diversas condições, o próprio colapso, rotura columelar, edema acentuado, etc. Há também algumas descrições em caracóis de vermes parasitas nematóides que habitam o espaço entre a concha e o manto (como Angiostoma aspersae), podendo enfraquecer esta conexão e levar ao destacamento, mas não se conhecem espécies aquáticas com comportamento semelhante.  


Não há tratamento conhecido, sendo uma condição sempre letal e com grande sofrimento do animal, sugere-se sacrificá-lo, se não houver melhora após alguns dias. Uma forma adequada de eutanásia é colocar o caramujo na geladeira. O frio reduz o metabolismo do animal, e a morte ocorre em um dia, sem sofrimento. Para assegurar, alguns preferem colocar a Ampulária no congelador após um dia na geladeira, ou esmagar rapidamente o corpo do animal. Óleo-de-cravo e o Óleo-de-manjericão-doce (Linalol) são boas opções anestésicas também. Esperamos que você nunca tenha que fazer isso.


Colapso da cavidade do manto em Pomacea diffusa, um exemplo de colapso mais discreto. Note o pequeno afastamento da margem do manto da margem da concha. Há também edema do corpo do caramujo, podendo estar relacionado à causa do colapso. Foto gentilmente cedida por Katryna Bredin.


Colapso da cavidade do manto em Pomacea diffusa. As primeiras fotos mostram o afastamento da margem do manto da margem da concha, com saída de parte do corpo do caramujo para fora da concha. Neste caso, a causa foi uma rotura do músculo columelar, no dia seguinte, a concha se destacou do corpo do animal (segunda série de imagens). Fotos gentilmente cedidas por Alison Sherman.


Colapso da cavidade do manto em Pomacea diffusa. Quando o destacamento do manto da concha predomina no lado esquerdo, o quadro é bem mais grave. A cavidade pulmonar se localiza nesta região, se estiver ainda repleta de ar, pode formar uma bolha neste local, como nestas fotos. Imagens gentilmente cedidas por Fahad Anwar e Sophie Louise.




Colapso pulmonar / Pulmões inundados


Problemas no pulmão são bem mais comuns em fêmeas que precisam frequentemente sair e entrar na água para depositar seus ovos. Quando o caramujo está fora da água, o pulmão permanece aberto para que possa respirar o ar. Se ela cair inesperadamente na água, e não conseguir fechar rapidamente a abertura do pulmão, pode haver entrada de água. É um problema bastante raro, já que o animal consegue fechar o orifício muito rapidamente. Mas quando acontece, é uma condição que pode ser grave. Em geral, a única dica de que pode haver algo errado é a inatividade do caramujo. Ampulárias saudáveis e ativas que repentinamente fecham-se na concha e permanecem imóveis por vários dias. Inatividade é algo bastante comum em Ampulárias, com inúmeras causas. Mas sempre vale a pena verificar inundação pulmonar, já que é uma condição grave e tratável.


O tratamento é simples, basta retirar o animal da água, e deixa-lo em algum lugar seco por alguns minutos. Sugere-se deixa-lo sobre um tecido molhado, para manter a umidade e evitar acidentes. Se o problema for esse, ele deve-se abrir e começar a caminhar. Com a abertura do opérculo e posicionamento do caramujo, geralmente a água do pulmão será eliminada naturalmente. Se não houver saída visível de água, vale a pena realizar uma manobra para facilitar o escoamento de água dos pulmões. Inicialmente segure a concha com o ápice para cima, e gire a concha em sentido anti-horário (visto por cima) algumas voltas. Então, segure a concha deitada, com o ápice contra você, e gire a concha em sentido horário por algumas voltas completas (veja a figura abaixo). Estas rotações vão direcionar a água dos pulmões para fora através da sua abertura.


Outro problema que pode ocorrer é um colapso pulmonar, mesmo sem o grave colapso do manto. Também é uma condição extremamente rara, mas aqui também os caramujos vão precisar de ajuda para melhorar. O sintoma mais comum deste problema é o animal permanecer no fundo do aquário com a concha virada de ponta-cabeça, esticando o corpo ao máximo tentando se desvirar. A razão desta postura é que a cavidade do manto está repleta de água, deixando o topo da concha mais pesado, dificultando a Ampulária de se desvirar. Caramujos com colapso pulmonar devem ser tratados da mesma forma que aqueles com o pulmão inundado, deixando-os em um lugar seco sobre tecido úmido por alguns minutos, e então realizando as manobras de rotação da concha, descritas acima. Depois disso, devem ser deixadas em algum lugar com água rasa, para que consigam re-inflar seu pulmão com o sifão. Se você colocar o caramujo de volta em um aquário fundo antes dele re-insuflar completamente seus pulmões, ele terá novamente o mesmo problema.


Finalmente, sabe-se que caracóis terrestres produzem uma substância surfactante que auxilia a manutenção aerada da cavidade pulmonar, com composição semelhante a dos peixes primitivos pulmonados. Não se sabe se há análogo em Pomacea. Se houver, uma doença comprometendo a produção desta substância pode levar ou facilitar o colapso. E após uma inundação da cavidade, provavelmente haverá perda do surfactante, com predisposição a um novo colapso antes da recuperação total. 


Manobra para se retirar a água da cavidade pulmonar, veja texto acima. Ilustração de Walther Ishikawa, sobre original de Donya Quick. Fotos de Arthur Belver.  




Rotura do músculo columelar


Muitas vezes associada ao colapso da cavidade do manto, esta condição é 100% fatal. O músculo columelar é responsável por manter o corpo do animal fixo ao interior da concha, e também por retrair o opérculo fechando a concha. Quando este músculo se rompe, o caramujo não consegue se fixar à concha, e com o tempo ela se destaca do corpo. Por vezes isso resulta em um caramujo vivo e caminhando “sem a concha”, mas a sobrevivência não é possível nestas condições. A morte ocorre depois de alguns dias, por edema ou problemas respiratórios decorrentes do colapso pulmonar. Por ser uma condição sempre letal, muitos aquaristas preferem realizar uma eutanásia nesta situação.

 


Ampulária sem concha, decorrente de rotura do músculo columelar. Note a concavidade na porção superior, correspondendo a um colapso do manto. Também há edema. Imagens cedidas por Terri Bryant.



Rotura do músculo columelar. Na primeira e última imagens, o caramujo sem a concha, já moribundo. A primeira foto já mostra ele boiando na superfície do aquário. Na segunda foto, a concha destacada do corpo do animal. Imagens cedidas por Carolina Colicigno.


Provável rotura parcial do músculo columelar, note o afastamento assimétrico da concha do corpo do animal. O caramujo faleceu cerca de uma semana após estas fotos. Imagens gentilmente cedidas por Madisen Nick.


Mais uma provável rotura parcial do músculo columelar, note aqui também o afastamento assimétrico da concha do corpo do animal. Imagens cedidas por Jaimee Whittington-Werry.




Separação do opérculo


Esta condição envolve a separação da porção do pé que produz o opérculo do restante do corpo do animal. A separação pode ser total, mais rara, ou parcial. 


Na separação parcial, pode haver cura com uma conexão refeita entre o pé e opérculo. Ou o pé pode começar a produzir um novo opérculo, permanecendo o caramujo com dois opérculos. Após o crescimento completo do novo opérculo, o antigo pode se destacar ou não. Mesmo com separação total, geralmente o opérculo é regenerado, devendo-se somente atentar a ataques por outros animais até a regeneração. 

 



Pomacea diffusa com opérculos pequenos e deformados. Fotos de Terri Bryant.



Ampulárias coletadas na natureza sem opérculo, nos EUA. Pomacea diffusa na primeira foto (Duval County, Florida), e Pomacea canaliculata na segunda foto (St. Marys, Camden County, Georgia). Fotos de Bill Frank.



Regeneração de opérculo, Pomacea canaliculata encontrada no Lago Hatton Chase, Duval County, Florida. Foi criada em cativeiro, o intervalo entre as duas fotos é de 29 dias. Fotos de Bill Frank.




Para a segunda parte do artigo, com créditos fotográficos e agradecimentos, clique aqui

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