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Diferenciando Pitus e Camarões-Fantasma
 
Walther Ishikawa - Diferenciando Pitus e Camarões-Fantasma: Mitos e Verdades.



Diferenciando Pitus e Camarões-Fantasma: Mitos e Verdades

 

            Um relato trágico, bastante comum em fóruns de aquarismo, é de colegas que compram pequenos camarões transparentes, supostamente vendidos como “camarões-fantasma”, que crescem e viram monstrinhos de garras grandes, dizimando a população do aquário.

            Já vi várias regras para fazer essa distinção entre os famigerados “pitus” e os dóceis “camarões-fantasma”, muitas delas sem fundamento. Este artigo tenta colocar alguma luz nessa discussão, sobre esse assunto tão obscuro e ao mesmo tempo tão importante.



Pitu (Camarão-canela) Macrobrachium acanthurus, devorando um Neon Chocolate. Foto de Walther Ishikawa.




Taxonomia:

 

            Então vamos por partes: Aqui iremos abordar os camarões dulcícolas da subfamília Palaemoninae, que no Brasil inclui os gêneros Cryphiops (com uma única espécie), Macrobrachium (dezoito espécies, incluindo a espécie invasora “camarão gigante da Malásia”), Palaemon (cinco espécies) e Pseudopalaemon (cinco espécies). Existem outros camarões dulcícolas no Brasil (Atya, Potimirim, Euryrhynchus, etc), mas pela sua morfologia são facilmente distinguíveis deste grupo.

            Vamos dividir estes camarões em três grandes grupos:

            Pitu: camarões grandes e agressivos, de poderosas garras, depois de crescidos irão certamente atacar seus peixes. Na realidade, o nome “pitu” se refere somente à espécie M. carcinus, mas na prática é um nome popular usado em aquarismo para denominar todos aqueles grandes camarões agressivos de garras bem desenvolvidas. Neste artigo, o termo “pitu” será usado desta forma, mesmo cientes desta imprecisão.

            Camarão-fantasma: assim como “pitu”, também é um nome bastante genérico, não é específico de uma única espécie, mas engloba vários camarões que têm em comum seu aspecto transparente e pequenas dimensões. Podem ser criados com segurança com peixes. Alguns maiores podem atacar invertebrados muito pequenos, como caramujos e camarões-anões.

            Intermediário: como o nome diz, um padrão intermediário entre os dois grupos anteriores. Tamanho pequeno a médio, mas com garras desenvolvidas. Podem ser criados com peixes maiores. 

            Note que esta classificação é totalmente arbitrária, especialmente quanto ao grupo “intermediário”. Um grupo bastante interessante, de camarões de médio porte que podem ser mantidos com peixes maiores, talvez no futuro ganhe um artigo específico. Temos como alguns exemplos o Cryphiops brasiliensis, Macrobrachium potiuna e Macrobrachium iheringi. Fêmeas de algumas espécies tipicamente “pitus” também se encaixam neste perfil, como a fêmea do Macrobrachium olfersii.



Macrobrachium potiuna, criado em um aquário comunitário plantado, foto de Ricardo Hellmann.


Macrobrachium olfersii, fêmea ovada em um aquário comunitário. Foto de Walther Ishikawa.


 

            O gênero Macrobrachium é o mais numeroso deste grupo, seu nome significa “braços grandes”, o que de cara remete à imagem típica de um “Pitu”. Porém, existem três Macrobrachium que têm menores dimensões e garras pouco desenvolvidas, mais pacíficos, e que podem ser mantidos em aquários comunitários. São os chamados “camarões-fantasma”, tradução do nome em inglês “ghost shrimp”, devido ao seu aspecto transparente. São o M. jelskii, a forma continental do M. amazonicum, além do M. depressimanus (bem raro). Todos os Palaemon e Pseudopalaemon também podem ser incluídas neste grupo.

            Na internet (e mesmo em literatura científica) ainda se encontra bastante referência ao gênero Palaemonetes. Porém, análises moleculares recentes (2013) invalidaram este gênero, considerando-o um sinônimo menor de Palaemon.

            O Macrobrachium depressimanus foi somente descrito recentemente no Brasil, é uma espécie típica peruana, no Brasil é encontrado somente na região amazônica. Da mesma forma, diversos Palaemon e Pseudopalaemon têm sua distribuição somente na região continental da floresta amazônica, sendo desta forma bem improvável sua comercialização no Brasil como “camarão-fantasma”.

 

Todas as demais espécies de Macrobrachium pertencem ao grupo dos “pitus” ou ao padrão “intermediário”, inclusive a forma costeira do M. amazonicum. O Cryphiops brasiliensis também pode ser incluído no grupo “intermediário”, também é uma espécie bem incomum no comércio, por ter distribuição bem restrita, sendo encontrada somente em Brasília.





Cryphiops brasiliensis, foto de Cleidson Silva.



            Um pequeno parênteses em relação à questão do Macrobrachium amazonicum “continental” e “costal”. Muitos Macrobrachium apresentam morfotipos diferentes, com variações dentro de uma mesma espécie na sua dimensão, coloração, tamanho das quelas, etc. Este fato é bem conhecido no “camarão da Malásia” M. rosenbergii. Das espécies brasileiras, isto é bem documentado no M. amazonicum , onde são descritas quatro morfotipos, desde uma forma pequena com quelípodos translúcidos e pouco desenvolvidos (denominada TC) até uma forma maior, com quelas escuras, mais robustas e bem desenvolvidas (GC2). É uma espécie bastante usada em carcinicultura na região nordeste, onde é conhecido como “camarão-da-amazônia”. Populações costais (usadas em carcinicultura) apresentam todos os quatro morfotipos, mas populações continentais são compostas somente dos morfotipos menores. Existem várias outras diferenças entre as duas populações, como comportamento, dependência de água salobra para reprodução, tamanho de ovos, etc, e por este motivo, na galeria de espécies do nosso website estão em dois artigos separados. Mas trata-se da mesma espécie, já estudada por análises moleculares, e capazes de se entrecruzarem. Recentemente foi proposta uma nova espécie para uma sub-população continental (Macrobrachium pantanalense), mas ainda carece de confirmação.



Macrobrachium amazonicum, exemplo da forma costal da espécie. No detalhe, os quatro morfotipos. Imagem cedida pelo Prof. Dr. Wagner Cotroni Valenti (CAUNESP).

Macrobrachium amazonicum, forma continetal, fêmea ovada. Foto de Felipe Aoki.


 

            Assim, na prática, terminamos com seis espécies que poderiam ser classificadas como “camarão-fantasma”:

 

  • Macrobrachium amazonicum (forma continental)
  • Macrobrachium jelskii
  • Palaemon argentinus
  • Palaemon ivonicus
  • Palaemon pandaliformis
  • Pseudopalaemon bouvieri



 


Os "fantasmas" amazônicos que não foram incluídos neste artigo (por serem bastante improváveis de serem encontrados nas lojas) são os seguintes:

 

  • Macrobrachium depressimanum
  • Palaemon carteri
  • Palaemon mercedae
  • Pseudopalaemon amazonenses
  • Pseudopalaemon chryseus
  • Pseudopalaemon gouldingi
  • Pseudopalaemon nigramnis




            Vejamos agora algumas regras práticas que freqüentemente são comentados em fóruns eletrônicos, e numa análise crítica, vamos checar sua validade:

 

 

O mito mais importante a ser derrubado: “Camarões pequenos e transparentes com garras pequenas são Fantasmas”:

 

            Parece ser verdade, não? O grande problema desta regra é que todos os camarões palaemonídeos têm este aspecto quando filhotes. Inclusive os grandes “Pitus”. O simples fato de o camarão ser pequeno, transparente e sem garras naquele momento não garante que não seja um “Pitu”.

            Pode parecer óbvio, mas a única regra que sempre funciona é o inverso desta: Se o camarão tem garras grandes, é um “pitu”, e não pode ser colocado no aquário com outros animais.




Macrobrachium acanthurus, na primeira foto, um juvenil vendido como "fantasma". Na segunda foto, o camarão adulto. Fotos de Walther Ishikawa e Melo Salazar.


Macrobrachium olfersii, juvenil e adulto. Fotos de Fernando Barletta e Walther Ishikawa.






 

O mito do “A forma de saber se são filhotes ou adultos é procurar fêmeas ovadas”:

 

Esta é uma dica que se fala frequentemente, de pessoas que sabem da regra anterior: A de que a identificação é difícil quando se trata de filhotes. Assim, uma forma de saber se são “fantasmas” ou “pitus” juvenis seria simplesmente saber se aqueles camarões já são adultos ou não. Se forem adultos, daria pra confiar na sua análise morfológica. Se forem juvenis, podem ser “pitus” que ainda não cresceram e desta forma ainda não desenvolveram suas poderosas garras. Geralmente esta regra funciona, se não houver nenhuma fêmea com ovos, realmente é arriscado colocá-los no aquário. “Fantasmas” são espécies bem prolíficas, inexistindo fêmeas ovadas, mais provavelmente são “pitus” jovens.

A regra está 99% correta. Mas existe uma pequena falha, que é o fato de algumas espécies atingirem maturidade sexual precocemente, ainda com pequenas dimensões, produzindo ovos. São bem conhecidas três espécies onde ocorre este fenômeno, e são justamente as três espécies mais problemáticas: o M. acanthurus (“camarão-canela”, o “pitu” mais comumente encontrado à venda), o M. amazonicum costal (bastante usado em carcinicultura), e o M. rosenbergii (“gigante da Malásia”). Só como exemplos, as fêmeas do M. acanthurus atingem 11 cm, mas produzem ovos a partir de 3,6 cm. O M. amazonicum atinge 11 cm, mas produz ovos a partir de 5,0 cm. Desta forma, não é raro de se encontrar pequenas fêmeas M. acanthurus em lojas, já ovadas, confundindo a cabeça de aquaristas desavisados.

Uma observação interessante é a de que estas três espécies têm reprodução primitiva, produzindo numerosos ovos pequenos. Assim, a regra só não funciona para camarões de reprodução primitiva: Se você encontrar fêmeas ovadas com padrão abreviado (ovos grandes e pouco numerosos), certamente se trata de um adulto (camarão-fantasma!).  





Dois "fantasmas" com padrão reprodutivo distinto: acima, um Palaemon pandaliformis, reprodução primitiva (ovos pequenos e numerosos); abaixo, um Macrobrachium jelskii, reprodução abreviada (ovos grandes e pouco numerosos). Fotos de Chantal Wagner e Cleidson Silva.


 

O mito do “Camarões coletados longe do mar são Fantasmas”:

 

            Essa regra geralmente funciona. A grande maioria dos “pitus” que são comercializados (aquarismo, isca de pesca ou carcinicultura) é das espécies M. amazonicum (costal), M. acanthurus, M. carcinus e M. olfersii, além da espécie exótica “camarão gigante da Malásia”, e todas elas necessitam de água salobra para se desenvolverem nos estágios larvais. Assim, não são coletados em águas continentais. Em distâncias superiores a 50 quilômetros do litoral, é bem improvável a ocorrências destes camarões que dependem de água salobra para completar seu ciclo de vida.

            Porém, não é uma regra 100%. Várias espécies com aparência de “pitu” têm todo seu ciclo de vida em água doce, destes o mais importantes é o M. brasiliense, de ampla distribuição no país. Muitas espécies amazônicas grandes e agressivas também têm este padrão.




Macrobrachium brasiliense, um "pitu" que habita riachos continetais, longe do litoral. Foto de Rony Suzuki.





 

O mito do “Rostro longo e curvado para cima é o Macrobrachium jelskii, um Fantasma”:

 

            O rostro é aquele grande espinho na sua região cefálica, entre os olhos. Se seu camarão tem um rostro longo, fino e curvado para cima, há grande chance de se tratar de um fantasma, já que as três espécies mais comumente encontradas nas lojas têm este aspecto: O M. jelskii, o M. amazonicum continental e o P. pandaliformis.

            Entretanto, existem dois outros camarões “pitu” com o rostro deste aspecto: o M. rosenbergii e a forma costal do M. amazonicum. Embora não tão longo quanto estas espécies, o M. acanthurus tem um rostro relativamente alongado, podendo levar a confusões.


 

Palaemonídeos encontrados no Brasil com o rostro longo. os três primeiros são "fantasmas", e os três últimos "pitus". O Macrobrachium acanthurus não tem o rostro tão longo, mas em alguns espécimes pode haver confusão, como este da foto. Fotos de Minoru Nagayama, Solange Nalenvajko, Walther Ishikawa e CAUNESP.




Concluindo: E então, como faço??

 

            Tenho um camarão pequeno, transparente e com garras pequenas e delicadas. Ou seja, com aspecto de um Camarão-fantasma. Como faço para saber se é um “fantasma” ou um “pitu” juvenil? Abaixo, uma proposta de chave de identificação, baseada inicialmente no padrão reprodutivo, e então no aspecto do rostro e espinhos da carapaça. Como já mencionado, esta chave não inclui todos os palaemonídeos brasileiros, por uma questão prática, foram excluídas espécies com distribuição geográfica restrita à região amazônica central.   


 

Chave de identificação de camarões com aspecto de “fantasma”:

 

1          Ovos grandes (1,0~1,5 mm) e pouco numerosos ......... Camarão- fantasma! .......................... 2

        Ovos pequenos (0,5~1,0 mm) e numerosos .................................................................... 3



2         Rostro bem longo e delgado, com ápice curvado para cima .........  Macrobrachium jelskii (rostro típico)

        Rostro pouco mais longo do que o escafocerito, leve curvatura para cima .............................. 4



Macrobrachium jelskii, com seu típico rostro, longo e com ápice curvado para cima. Foto de Felipe Aoki.



Nota: Sempre analisar com cuidado o rostro, checando a possibilidade de rostro longo danificado em regeneração.




3         Rostro bem longo e delgado, com ápice curvado para cima ............................................... 5

         Rostro longo, do comprimento próximo ao escafocerito ............................................... 6





Espinhos na carapaça de palaemonídeos. Na primera foto, Palaemon pandaliformis, mostrando o espinho antenal e branquioestegal. Na segunda foto, Macrobrachium acanthurus, mostrando o espinho antenal e hepático. Fotos de Chantal Wagner e Walther Ishikawa.



4         Espinho hepático presente, espinho branquiostegal ausente; primeiro dente do rostro atrás da órbita

                                ...........................................................  Macrobrachium jelskii (rostro curto)

        Espinho hepático presente, espinho branquiostegal ausente; primeiro dente do rostro sobre

                                a margem posterior da órbita .....................................  Pseudopalaemon bouvieri

4´´       Espinho hepático ausente, espinho branquiostegal presente; primeiro dente do rostro atrás da órbita

                                .................................................................................  Palaemon ivonicus




Macrobrachium jelskii, variedade de rostro curto. Note a posição do primeiro dente rostral, atrás da orbita. Note também os ovos, com padrão abreviado. Foto de Cleidson Silva.



Pseudopalaemon bouvieri, note a posição do primeiro dente rostral, junto à margem posterior da orbita. Ovos grandes e pouco numerosos. Foto de Mario Gervasi.



Palaemon ivonicus, note a posição do primeiro dente rostral, atrás da orbita. Veja também os ovos, grandes e pouco numerosos. Foto de Mustafa Ucozler.



Nota: Embora pouco descritas na literatura científica, existe uma variação do M. jelskii de rostro mais curto, relativamente comum no comércio aquarista. É quase certo que se trata realmente de um M. jelskii, inclusive com alguns relatos de cruzamento com a forma de rostro longo. Existe a possibilidade mais remota de se tratar de uma variante menor e mais pacífica do M. borellii, dado que a morfologia (inclusive do rostro) é compatível com esta espécie. Outro dado que fala contra esta segunda espécie é a de que a distribuição geográfica do M. borellii é bastante restrita, sendo encontrada somente no Rio Grande do Sul.

 



5          Espinho hepático ausente, espinho branquiostegal presente ................  Palaemon pandaliformis 

         Espinho hepático presente, espinho branquiostegal ausente .............................................. 7



Palaemon pandaliformis, foto de Chantal Wagner.


Nota: nem sempre a análise dos espinhos da carapaça é fácil, ainda mais com camarões pequenos e transparentes. A dica é separar o camarão em um aquário menor e analisar com uma lupa, ou uma câmera com recurso macro. Particularmente o espinho branquiostegal é bem difícil de ser caracterizado, a dica é se atentar à margem anterior lateral da carapaça. O espinho hepático é mais fácil de ser visto, especialmente numa visão diretamente de cima, contra um fundo escuro. Na prática, é mais simples checar a presença ou ausência do espinho hepático, e aplicar a chave.



Visão dorsal de palaemonídeos, mostrando a presença do espinho hepático. Na primera foto, Macrobrachium jelskii mostrando a presença do espinho hepático neste gênero, e na segunda foto, Palaemon pandaliformis, mostrando a ausência deste espinho. Fotos de Rafael Senfft e Solange Nalenvajko.

 


 

6          Espinho hepático ausente, espinho branquiostegal presente ..........................  Palaemon argentinus 

         Espinho hepático presente, espinho branquiostegal ausente .................... Macrobrachium acanthurus




Palaemon argentinus, foto de Romina Arakaki. Note seu rostro reto e alto, típico desta espécie.


Macrobrachium acanthurus juvenil, a espécie de "pitu" mais comumente vendido como "fantasma" nas lojas brasileiras. Foto de Walther Ishikawa.



Nota: Acima, foi proposta a chave que julgamos mais confiável. Porém, na prática, é pouco provável que haja confusão entre o P. argentinus e M. acanthurus. A primeira espécie é bem incomum nas lojas do Brasil (ocorre somente em SC e RS), embora comum nas lojas da Argentina, Paraguai e Uruguai. São bem pequenos e transparentes. O Macrobrachium acanthurus é a espécie que mais frequentemente é vendida por engano como "fantasma" no Brasil. São mais robustos, e apresentam padronagens miméticas mais escuras no corpo, o que não ocorre de forma tão marcada com o P. argentinus. Na prática, a confusão que pode haver é mais com o M. jelskii e M. amazonicum, e pode ser facilmente diferenciado usando-se esta chave.


 

7          Rostro com dois dentes dorsais atrás da órbita ....................... Macrobrachium rosenbergii

         Rostro com um dente dorsal atrás da órbita ..........................  Macrobrachium amazonicum 
 


Nota: A dentição do rostro seria a forma mais correta de diferenciar estas duas espécies. Mas na prática a distinção é bem simples, porque juvenis do M. rosenbergii só são totalmente transparentes quando bem pequenos. Eles rapidamente desenvolvem padronagens típicas que permite esta distinção facilmente. No momento que estiverem ovadas (mesmo em fêmeas com amadurecimento precoce), já irão apresentar sua padronagem típica, com rostro vermelho e faixas escuras longitudinais na carapaça.


Macrobrachium rosenbergii juvenil, na primeira foto ainda bem pequeno, transparente, facilmente confundido com um "fantasma". Na segunda foto, um juvenil um pouco mais desenvolvido, já com coloração e padronagem típica. Note também nas duas fotos, os dois dentes rostrais atrás da órbita. Fotos de Walther Ishikawa.



Nota: Diferenciar espécimes das populações “costal” e “continental” do M. amazonicum não é possível baseado em características externas. E, infelizmente, uma delas se encaixa no perfil “fantasma”, e a outra no “pitu”. A quase totalidade dos M. amazonicum comercializados são “fantasmas”. Para espécimes coletados, a distribuição ajuda, já que formas costais habitam somente riachos próximos do litoral, e são encontradas somente na região Norte e Nordeste do país.

 



 

Macrobrachium lar?

 

            Em muitas fontes da internet em língua portuguesa se encontra a informação de que os “camarões fantasma” são da espécie Macrobrachium lar. Certamente é uma informação equivocada, já que esta espécie é asiática, e não existem registros de introdução ou coleta desta espécie exótica no território nacional, apesar de ser um camarão bastante utilizado em carcinicultura nos países de origem. Além disto, esta espécie atinge grandes dimensões, é agressiva e têm pinças grandes, encaixando-se muito mais no perfil de um “pitu” do que de um “fantasma”.

            A origem deste erro é obscura, aparentemente foi uma informação errada postada numa página alemã (parece ter sido uma confusão com o M. lanchesteri, uma espécie bem comum de “fantasma” na aquariofilia européia), que foi copiada por um fórum português, e dali se disseminou na internet brasileira. Quer dizer, mais um erro que foi sucessivamente sendo copiado, sem ninguém checar a veracidade dos dados.



Macrobrachium lar, fotografado emerso próximo a um riacho em Okinawa, Japão. Foto de Shawn Miller. Veja sua galeria do Flickr aqui.


Macrobrachium lar, exemplar de carcinicultura, criado em Vanuatu. Foto cortesia de SPC (Secretariat of the Pacific Community). Visite sua página aqui.
 


Macrobrachium lanchesteri, uma espécie comum de "fantasma" na Europa. Foto de Chris Lukhaup.



Palaemonetes?

 

Muitas fontes de internet ainda se referem aos Camarões-fantasma brasileiros como “Palaemonetes”, por serem traduções de textos em inglês, já que a espécie de “Fantasma” no mercado de aquarismo norte-americano é o Palaemonetes paludosus (Gibbes, 1850) (atualmente Palaemon). Na realidade, as espécies mais frequentemente encontradas de “Fantasmas” no Brasil pertencem ao gênero Macrobrachium, como já vimos anteriormente.

            Também já foi mencionado que atualmente o gênero Palaemonetes não é mais considerado válido. Análises moleculares recentes (2013) invalidaram este gênero, considerando-o um sinônimo menor de Palaemon. Desta forma, o gênero Palaemon no Brasil passou a comportar cinco espécies, englobando as quatro previamente classificadas como Palaemonetes.



Palaemon paludosus (antigo Palaemonetes paludosus), a espécie mais comum de "fantasma" nos EUA. Foto de Morbid (PlanetInverts).


 

“Camarões-fantasma” são mesmo pacíficos?

 

            É importante lembrar que todos os “fantasmas” são palaemonídeos. Ou seja, são diferente dos atiídeos (Atya, Potimirim), que se alimentam de algas, ou são filtradores de detritos. Palaemonídeos são onívoros, e parte da sua dieta é carnívora, consiste em animais caçados. Ou seja, é mais correto imaginá-los como pequenos parentes dos grandes “pitus” que se especializaram em um modo de vida que não é primariamente de caça. Mas não são animais herbívoros.

            Desta forma, é importante deixar claro que é seguro a manutenção de “fantasmas” com peixes, independente da sua dimensão. Porém, não é possível garantir a segurança de pequenos invertebrados bentônicos, especialmente se forem muito menores do que os camarões.

Nesta categoria se encaixam os pequenos caramujos ornamentais (como o “Red Ramshorn”), e os camarões-anões (“Red Crystal”, “Red Cherry”, etc). Muitas vezes é possível uma convivência pacífica entre estes animais, mas filhotes são muitas vezes predados, especialmente se for um espécime mais avantajado de “fantasma”.

 

 

 

Bibliografia:

  • Melo GAS. Manual de Identificação dos Crustacea Decapoda de água doce do Brasil. São Paulo: Editora Loyola, 2003.
  • Souza JSI. Enciclopédia Agrícola brasileira: C-D. São Paulo: EdUSP, 1996.
  • D’Ávila CRG. et al. Revisão taxonômica dos camarões de água doce (CRUSTACEA: DECAPODA: PALAEMONIDAE, SERGESTIDAE) da Amazônia Peruana. 80f. Dissertação (Mestrado). MCT/INPA, Manaus, 1998.
  • Sampaio SR. et al. Camarões de águas continentais (Crustacea, Caridea) da Bacia do Atlântico oriental paranaense, com chave de identificação tabular. Acta Biol. Par., Curitiba, 38 (1-2): 11-34. 2009.
  • Melo SG. et al. Desenvolvimento larval de Macrobrachium birai Lobão, Melo & Fernandes (Crustacea, Decapoda, Caridea, Palaemonidae) em laboratório. Revista Brasileira de Zoologia 22 (1): 131–152, março 2005.
  • Maciel CR, Valenti WC. 2009. Biology, fisheries and aquaculture of the Amazon River Prawn Macrobrachium amazonicum: a review. Nauplius 17(2):61-79.
  • da Silva RR. et al. Fecundity and fertility of Macrobrachium amazonicum (Crustacea, Palaemonidae). Braz. J. Biol. vol.64 no.3a São Carlos Aug. 2004.
  • Wowor D. Ng PKL. The giant freshwater prawns of the Macrobrachium rosenbergii species group (Crustacea: Decapoda: Caridea: Palaemonidae). Raffles Bulletin of Zoology 55 (2): 321-336. 2007.
  • Moraes-Riodades PMC, Valenti WC. 2004. Morphotypes in male Amazon River Prawns, Macrobrachium amazonicum. Aquaculture, 236(1-4):297-307.
  • Magalhães C, Bueno SLS. et al. Exotic species of freshwater decapod crustaceans in the state of São Paulo, Brazil: records and possible causes of their introduction. Biodiversity and Conservation (2005) 14: 1929–1945.
  • http://www.sekaiscaping.com
  • http://www.aquahobby.com
  • http://www.fao.org
  • http://www.caunesp.unesp.br
  • http://www.dnocs.gov.br

Agradecimentos aos colegas Alexander Mee-Woong Kim (EUA), Ricardo Hellmann, Melo Salazar (México), Rony Suzuki, Solange Nalenvajko, Fernando Barletta, Mario Gervasi (Argentina), Mustafa Ucozler (EUA), Romina Arakaki (Argentina) e Shawn Miller (Japão), e também ao CAUNESP (Centro de Aquicultura da Universidade Estadual Paulista) e SPC (Secretariat of the Pacific Community) pela cessão das fotos para o artigo.




As fotografias de Walther Ishikawa, Felipe Aoki Gonçalves e Chantal Wagner estão licenciadas sob uma Licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

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