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antigas "Pomella"  
Artigo publicado em 09/04/2012, última edição em 04/01/2017  

Pomacea (Pomella) megastoma (Sowerby, 1825)
Pomacea (Pomella) americanista (Ihering, 1919)





Estas duas espécies de Pomacea foram muito recentemente reclassificadas para este gênero, baseados em novos dados moleculares. Até pouco tempo atrás, eram classificadas no gênero Pomella, a maior parte da literatura científica e leiga destas espécies ainda está desta forma.

Inicialmente classificadas no gênero Pomella (Gray, 1847), desde o início algumas autoridades os consideram como sendo um sub-gênero de Asolene (d'Orbigni, 1837). Em comum, estes caramujos possuem um sifão respiratório médio a curto, e similaridades na sua anatomia interna. Por outro lado, o tamanho e forma das conchas diferem bastante entre estes animais. E os ovos dos Pomellas são depositados fora d´água, de forma similar aos Pomaceas, mas diferente dos Asolenes, que têm ovos submersos. O gênero Pomella ainda tem uma terceira espécie,   Pomella sinamarina  , que mostra características bem peculiares, provavelmente um gênero específico.

Estudos genéticos e moleculares realizados em 2009 por Hayes et al. baseado na análise de cinco genes (três nucleares e dois mitocondriais) mostrou que esta espécie está inserido no gênero Pomacea, dentro do clado canaliculata.

A Pomacea megastoma é a espécie mais comum do gênero no Brasil, relativamente grande (altura da concha de 65 mm, podendo atingir 115 mm), enquanto a Pomacea americanista é muito menor, tem uma espira um pouco mais pronunciada, medindo cerca de 52 mm. São espécies adaptadas a rios de leito rochoso e rápida correnteza, o que explica muitas de suas peculiaridades anatômicas.


Existe uma curiosidade muito interessante, sobre a origem do nome do país "Uruguai". É uma palavra com origem Guarani, a tese mais aceita é que seja composta de Uruguá (= caracol, caramujo) e i (= água, rio), uma alusão aos numerosos Pomacea megastoma que eram encontrados no país, inclusive grande quantidade de conchas nos locais de sepultamento das populações indígenas nativas, que usavam estes moluscos como alimentos e em rituais.







Quatro conchas de Pomacea megastoma, mostrando variações na sua forma e cor. Fotos de José Liétor Gallego.


Concha: P. megastoma possui uma concha muito grande, tão largo quanto alto, com uma grande abertura, maior ainda do que o último giro. O ápice é achatado, quase inexistente. Em conchas maiores, o ápice costuma ser bastante erodido. Tem aspecto nitidamente neritóide (o último giro corresponde à maior parte do volume da concha ocupada pelo animal).

A concha é relativamente espessa e pesada, apesar de parecer frágil à primeira vista. Sua superfície é áspera e o umbilicus é bastante estreito, muitas vezes fechado.


P. americanista tem dimensões menores, e, embora neritóide, mostra um aspecto mais próximo das demais Pomacea, com ápice menos achatado e abertura menor. 

A cor varia do verde ao marrom claro, sem ou somente com um tênue padrão de faixas. P. americanista pode ter listas mais evidentes. A concha é branca por dentro, com um tênue tom violeta.







Pomacea megastoma, Sede Capela, Itapiranga, SC (01/2012). Concha com cerca de 7,3 cm. Imagens cedidas pelo "Projeto Avulsos Malacológicos", fotos de Paulo Lenhard.







Comparação de dois exemplares da Argentina: Pomacea megastoma, Rio de la Plata, Isla Martin Garcia, concha com cerca de 8,0 cm. Pomacea americanista, Puerto Iguazú, Misiones, concha com cerca de 3,8 cm. Imagens cedidas por Susana Escobar.



Opérculo: O opérculo tem uma espessura média e um aspecto córneo. Sua estrutura é concêntrica com o núcleo próximo do centro da concha. A cor varia de marrom escuro a negro. O opérculo pode ser retraído na abertura da concha.


Corpo: Marrom até quase preto, com manchas amarelas no dorso do pé e em torno da cabeça.

A cabeça é grande e relativamente larga (os olhos e tentáculos ficam afastados), os tentáculos têm um comprimento médio e são relativamente grossos. Os olhos são pequenos se comparados com outros Ampularídeos, na forma de dois pequenos pontos enegrecidos. Sifão respiratório rudimentar e quase ausente, motivo pelo qual foram inicialmente classificadas em outro gênero (Pomella / Asolene).



Pomacea megastoma. Fotos de Stijn Ghesquiere.





Pomacea americanista
, conchas e cacho de ovos fotografados no Rio do Mel, Derrubadas, RS (Bacia do Alto Uruguai). Fotos de Aisur Ignacio Agudo-Padrón.


Reprodução:
Ovos: Os ovos são depositados fora d´água na forma de uma massa calcárea rósea, geralmente fixa em superfícies rochosas lisas e planas.



Pomacea megastoma. Fotos de Stijn Ghesquiere.


Comportamento: Estas duas espécies de Pomacea são encontradas tipicamente em rios de rápida correnteza e leito rochoso, são curiosas exceções aos típicos habitats ocupados pelas Pomacea, que preferem locais de água estagnada e sem correnteza. São ambientes de água fria e elevada taxa de oxigenação, o que explica a atrofia do seu sifão respiratório, possivelmente estas ampulárias têm uma proporção de respiração branquial muito maior do que as demais Pomacea (que essencialmente usam respiração pulmonar). Porém, observações em laboratório mostraram que são sifões funcionais, estas espécies ainda mantêm a capacidade de retirar oxigênio do ar.





Detalhes da anatomia de
Pomacea megastoma. Na primeira foto, o pneumostoma (abertura pulmonar) em (1) e a cavidade pulmonar em (2). A segunda foto mostra um close da cavidade pulmonar, com riqueza de vasos sanguíneos. A terceira imagem mostra o ctenídeo (guelra ou brânquia), com finos filamentos que aumentam a área de troca gasosa. Fotos de Stijn Ghesquiere.


Pomacea megastoma
habita principalmente o fundo e locais sombreados no seu habitat. A concha é mantida próxima ao solo, e devido à sua concha com formato achatado e grande pé, é difícil remover o caramujo de uma superfície sólida. Compreensível para um caramujo que vive em rios com forte correnteza.

Caminha lentamente sobre estas superfícies rochosas, mantendo a porção anterior da concha praticamente enconstada no substrato, para otimizar sua hidrodinâmica em meio à correnteza. A cabeça achatada, com olhos e tentáculos nas bordas externas, permite ao caramujo manter os olhos fora da concha, mesmo enquanto a borda da concha toca a superfície na região anterior.



Pomacea megastoma, coletado no norte do Rio Uruguai, departamento de Salto, Uruguai. Mede 78 mm. Fotos de Bill Frank.





Distribuição geográfica de Pomacea megastoma e Pomacea americanista. Imagem original Google Maps; dados de Simone LRL 2006.



Distribuição: As duas espécies têm ocorrência registrada no Brasil, Argentina e Uruguai, no Brasil, são encontrados nos estados do RS, SC e PR.

P. megastoma habita somente a bacia do Rio Uruguai, enquanto P. americanista é encontrada tanto na bacia do Rio Uruguai quanto na do Rio Paraná. Mais ainda, levantamentos faunísticos recentes mostraram que a P. megastoma é praticamente restrita à margem esquerda dos Rios Uruguai e La Plata devido às suas requisições ambientais.


 








 








Manutenção em aquários: Não são espécies com interesse ornamental, desta forma, praticamnete não são encontradas à venda em lojas de aquarismo.


Existem alguns poucos relatos de tentativas de manutenção em cativeiro por aquaristas, sem sucesso a longo prazo. Também existem alguns trabalhos acadêmicos que relatam a mesma dificuldade de criação em cativeiro, tanto do P. megastoma quanto P. americanista. Ao menos em parte, isto deve ser decorrente dos requerimentos específicos que estas duas espécies têm, por viverem em habitats de água fria, corente e elevada taxa de oxigenação, dificilmente reproduzíveis em cativeiro. Alguns destes trabalhos tiveram sucesso na criação do P. americanista, inclusive descrevendo reprodução dos indivíduos nascidos em cativeiro a partir de ovos coletados.






Esta ficha foi adaptada do portal  applesnail.net , possivelmente o melhor banco de dados de Ampulárias que existe na internet. Agradecimentos a Stijn Ghesquiere, responsável pelo portal, por permitir o uso do material e fotos. Agradecemos também a Aisur Ignacio Agudo-Padrón, corrdenador do portal  Notícias Malacológicas , pela cessão de fotos, e ao fotógrafo Paulo Lenhard. Finalmente, agradecemos também a Bill Frank ( Jacksonville Shell Club ), Jose Liétor Gallego ( El Rincón del Malacólogo ) e Susana Escobar (Argentina, responsável pelo blog Moluscos Dulceacuicolas de Argentina ) por permitir o uso das suas fotos.


Bibliografia adicional:

  • Simone LRL. Comparative morphology and phylogeny of representatives of the superfamilies of architaenioglossans and the Annulariidae (Mollusca, Caenogastropoda). Arquivos do Museu Nacional, 2004,62(4):387-504.
  • http://www.conchasbrasil.org.br/
  • Hayes K. A., Cowie R. H. & Thiengo S. C. (2009). A global phylogeny of apple snails: Gondwanan origin, generic relationships, and the influence of outgroup choice (Caenogastropoda: Ampullariidae). Biological Journal of the Linnean Society 98(1): 61-76.
  • Agudo-Padrón AI. 2013. Shelling in the Upper Uruguay River Basin Region, Northwestern Rio Grande do Sul State, Southern Brazil. Ellipsaria, 15(1):16-21.
  • Agudo-Padrón AI. 2013. New Geographical Record of the Neotropical Apple Snail Asolene (Pomella) megastoma (Sowerby, 1825) in the Upper Uruguay River Basin, Southern Brazil. Ellipsaria, 15(1):21-24.
  • Rumi A Gregoric DEG, Núñez V, Darrigran GA. Malacología Latinoamericana: Moluscos de agua dulce de Argentina. Rev. biol. trop, San José, v. 56, n. 1, Mar. 2008.
  • Agudo-Padrón AI. 2009. Recent Terrestrial and Freshwater Molluscs of Rio Grande do Sul State, RS, Southern Brazil Region: A Comprehensive Synthesis and Check List. Visaya April 2009, pages 1-13.
  • Cocchi I, Gutiérrez R. En el país de los caracoles Uruguay. Livro digital. http://enelpaisdeloscarcoles.webnode.es/
  • Kyle CH, Plantz AL, Shelton T, Burks RL. Count your eggs before they invade: identifying and quantifying egg clutches of two invasive apple snail species (Pomacea). PLoS One. 2013 Oct 16;8(10):e77736.
  • Martín PR, Burela S, Tiecher MJ. 2013. Insights into the natural history of ampullariids from the lower Rio de la Plata Basin, Argentina. IUCN/ SSC Newsletter Tentacle, (21): 11-13.
  • Martín PR, Burela S, Gurovich FM. 2015. Ongoing research into the natural history and ecology of an endemic and little known apple snail from the Alto Paraná and Iguazú rivers (Argentina). IUCN/ SSC Newsletter Tentacle, (23): 3-6.



As fotografias de Stijn Ghesquiere e Susana Escobar estão licenciados sob uma Licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

 
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