INÍCIO ARTIGOS ESPÉCIES GALERIA SOBRE EQUIPE PARCEIROS CONTATO
 
 
    Espécies
 
"Pomacea sordida"  
Artigo publicado em 12/04/2012, última edição em 27/12/2015  


Pomacea (Pomacea) sordida

(Swainson, 1823)



A Pomacea sordida é uma espécie sul-americana de Ampulária que ocorre nos estados do Sul e Sudeste do Brasil. Foi incluída na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas do MMA, na sua atualização de 2014, onde é considerada endêmica do Rio de Janeiro. Porém, em 2015 foi identificada uma grande população aparentemente autóctone desta espécie em Santa Catarina, o que provavelmente irá modificar a avaliação do estado de ameaça desta espécie em um futuro próximo. Há alguma confusão na identificação desta espécie de Ampularídeo, como veremos adiante. Análises genéticas situam esta espécie no Clado Flagellata, embora tenha uma morfologia bastante distinta das demais espécies deste clado.


 

 

Importante!!

 

A Pomacea sordida é uma espécie ameaçada, listadas como EN (“em perigo”) pelo Livro Vermelho do Ministério do Meio Ambiente e pelo IBAMA (2014), critério B2 ab(ii,iii,iv), por destruição do seu habitat. Desta forma, sua coleta e manutenção em cativeiro são proibidas por lei.


Como mencionado, após a descoberta da população catarinense (2015) é possível que este critério se modifique em breve. Porém, do ponto de vista legal sua coleta e manutenção permanecem ilegais.


 





Pomacea sordida, animal coletado no Rio de Janeiro, RJ. Foto de Kenneth Hayes.



Concha: Algumas identificações errôneas desta espécie são decorrentes da descrição da sua concha em Thiengo 1989, onde é mencionado um aspecto globoso e suturas profundas, dando a entender que o aspecto geral da concha lembre os Ampularídeos do “complexo canaliculata”. Entretanto, a ilustração deste artigo (e imagens de outras publicações e coleções) mostra uma Ampulária com suturas relativamente rasas e em 90o, ombros quadrados, semelhante ao P. diffusa. Como curiosidade, a população catarinense havia sido identificada inicialmente como P. bridgesii. Seu umbilicus é grande e amplo. O tamanho destes caramujos varia de 30 a 40 mm de altura. Mostra faixas longitudinais, semelhante a diversas outras Pomacea. Mas parece haver uma tendência a menos faixas, coloração mais clara e brilhante na face apical dos giros, muitas vezes com um belo tom alaranjado.







Pomacea sordida, exemplares mortos coletados em SC. Fotos de Walther Ishikawa.








Pomacea sordida, os mesmos exemplares acima fotografados submersos em um pequeno aquário, para melhor demosntrar suas cores. Fotos de Walther Ishikawa.



Opérculo: O opérculo tem uma espessura média e um aspecto córneo. Sua estrutura é concêntrica com o núcleo próximo do centro da concha. O opérculo pode ser retraído na abertura da concha.


Corpo: Cor cinza-acastanhada, com manchas escuras pigmentadas.











Pomacea sordida, comparação com Pomacea diffusa, mostrando a grande semelhança das suas conchas. Fotos de Jefferson Souza da Luz.



Reprodução:


Ovos: Os ovos são descritos como tendo uma coloração laranja-amarelada, ou rosa-clara (RJ). Porém, a população catarinense mostra ovos brancos. São depositados acima da linha d´água, e são firmemente aderidos um ao outro, com um aspecto compacto e prismático, semelhante às demais Pomacea do Clado Flagellata, e semelhante também à Pomacea diffusa, porém, um pouco maiores. Um trabalho menciona uma maior variabilidade na fecundidade desta espécie, com posturas de dois padrões: ovos maiores e de cor rosa clara (maior taxa de eclosão) e ovos menores e avermelhados (menor taxa).


Parece se tratar de uma espécie menos prolífica, com menor taxa global de eclosão de ovos, e maior dificuldade na criação em cativeiro. Aceitam alimentos variados, mas preferem folhas tenras, como alface e rami. Descreve-se também uma maior taxa de anomalias morfológicas na concha dos filhotes.   



Cacho de ovos de Pomacea sordida fotografado em Palhoça, Grande Florianópolis, SC. Note a sua coloração. Foto de Aisur Ignacio Agudo-Padrón.




Cacho de ovos de Pomacea sordida da população catarinense, próximo à eclosão. Esta imagem mostra bem seu aspecto compacto e prismático. Foto de Walther Ishikawa.




Cacho de ovos de Pomacea sordida (centro), em comparação com cachos de P. diffusa. Fotos de Jefferson Souza da Luz.






Filhotes de Pomacea sordida com 1 dia de vida. Fotos de Walther Ishikawa.


Filhotes com 24 dias de vida, note os pequenos tentáculos na borda do manto, o que produz as cerdas triangulares do periostraco de algumas populações (imagens abaixo). Foto de Walther Ishikawa.






36 dias de vida. Fotos de Walther Ishikawa.




Filhotes de Pomacea sordida, com 2~3 meses de vida, em comparação com P. diffusa. Note como algumas populações mostram faixas de pelos longitudinais no periostraco. Fotos de Jefferson Souza da Luz.




Comportamento: animal moderadamente anfíbio, e é mais ativo durante a noite. Alguns criadores relatam que é uma espécie mais sensível, mais difícil de ser criada e reproduzida em cativeiro do que outras espécies de Ampulárias. Em especial há dificuldade na aceitação de diferentes alimentos, e a taxa de eclosão dos ovos em cativeiro é baixa.


São onívoros, com preferências herbívoras. Vorazes devoradoras de macrófitas, não podem ser mantidos em tanques com plantas ornamentais.






Pomacea sordida coletados durante um levantamento malacológico em Palhoça, Grande Florianópolis, SC. Fotos de Aisur Ignacio Agudo-Padrón.





Distribuição geográfica de Pomacea sordida no Brasil. Imagem original Google Maps; dados de Simone LRL 2004 e 2006, e Agudo-Padrón AI 2008.



Habitat e distribuição: Segundo diversas fontes bibliográficas, a Pomacea sordida é encontrada na Bolívia, Brasil, Paraguai e Argentina. No Brasil, esta espécie é vista nos estados do RJ, SP, PR e SC.


Porém, no Livro Vermelho do ICMBio/MMA menciona-se esta espécie como endêmica do RJ, o que justificaria a inclusão dela na lista.


Em SC, populações desta Ampulária são registradas desde 1987, em múltiplas localidades descontínuas, algumas distando 80~90km entre si, tornando bastante improvável que seja uma espécie introduzida. Habita a região da Grande Florianópolis, no bioma da Restinga (veja mapa abaixo).



 

 









Distribuição geográfica da nova população de Pomacea sordida identificada em Santa Catarina. Imagem gentilmente cedida por Aisur Ignacio Agudo-Padrón (Avulsos Malacológicos 2015).




Bibliografia adicional:

  • Thiengo SC. On Pomacea sordida (Swainson, 1823) (Prosobranchia, Ampullariidae). Mem. Inst. Oswaldo Cruz. 1989 Sep; 84(3): 351-355.
  • Simone LRL. 2006. Land and Freshwater Molluscs of Brazil. EGB, Fapesp. São Paulo, Brazil. 390 pp.
  • Simone LRL. Comparative morphology and phylogeny of representatives of the superfamilies of architaenioglossans and the Annulariidae (Mollusca, Caenogastropoda). Arquivos do Museu Nacional, 2004,62(4):387-504.
  • Agudo-Padrón AI. 2008. Listagem sistemática dos moluscos continentais ocorrentes no Estado de Santa Catarina, Brasil. Comunicaciones de la Sociedad Malacológica del Uruguay, Montevideo, 9(91): 147-179.
  • Cowie RH, Thiengo SC. (2003): The apple snails of the Americas (Mollusca: Gastropoda: Ampullariidae: Asolene, Felipponea, Marisa, Pomacea, Pomella): a nomenclatural and type catalog. Malacologia, 45: 41-100.
  • Alderson EG. Studies in Ampullaria. W. Heffer & Sons, Cambridge 1925
  • Cazzaniga NJ. 2002. Old species and new concepts in the taxonomy of Pomacea (Gastropoda: Ampullariidae). Biocell, 26(1): 71-81.
  • Hayes K. A., Cowie R. H. & Thiengo S. C. (2009). A global phylogeny of apple snails: Gondwanan origin, generic relationships, and the influence of outgroup choice (Caenogastropoda: Ampullariidae). Biological Journal of the Linnean Society 98(1): 61-76.
  • http://www.conchasbrasil.org.br/
  • Santos NN, Miguel MCV, Mesquita EFM. Cultivo de Pomacea sordida (Swainson, 1823) em Cativeiro. Rev. bras. ciênc. vet. 2(3):81-86, set./dez. 1995.
  • http://www.icmbio.gov.br/portal/biodiversidade/fauna-brasileira/lista-de-especies/5789-especie-5789.html



Esta ficha tem como base o artigo do portal  applesnail.net , possivelmente o melhor banco de dados de Ampulárias que existe na internet. Agradecimentos a Stijn Ghesquiere, responsável pelo portal, por permitir o uso do material. Agradecemos também aos amigos Jefferson Souza da Luz e Aisur Ignacio Agudo-Padrón (malacologista responsável pelo portal  Notícias Malacológicas ) por todo o apoio e parceria na investigação e identificação da população catarinense, pela cessão de fotos e consultoria técnica. Obrigado também aos especialistas do MZUSP (Prof. Luiz Ricardo Simone) e Fiocruz (Profa. Silvana Thiengo, Dra. Suzete Rodrigues Gomes e Dra. Aline Gondat Schilithz) pelo auxílio na identificação dos animais catarinenses. Agradecemos também ao Dr. Kenneth Hayes pela cessão da sua foto para o artigo.


As fotografias de Walther Ishikawa e Kenneth Hayes estão licenciadas sob uma  Licença Creative Commons . As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

 
« Voltar  
 

Planeta Invertebrados Brasil - © 2018 Todos os direitos reservados

Desenvolvimento de sites: GV8 SITES & SISTEMAS