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"Drepanotrema"  
Artigo publicado em 01/10/2012, última atualização em 03/09/2017  


Drepanotrema

 

            O Drepanotrema é outro gênero de caramujo de água doce bastante comum no Brasil, embora seja pouco identificado, por ser frequentemente confundido com os caramujos planorbídeos comuns (Biomphalaria). Na realidade são animais bem próximos, os dois gêneros fazem parte da mesma família e subfamília (Planorbidae e Planorbinae), mas estão classificadas em diferentes tribos (Segmentinini para Biomphalaria, e Drepanotremini para os Drepanotrema).

            Excluindo-se os Biomphalaria, sem dúvida são os planorbídeos brasileiros mais numerosos e importantes. A maioria das espécies é encontrada somente na América do Sul. São também chamados popularmente de “Ramshorn”.







Drepanotrema pfeifferi (antigo Antillorbis nordestensis), a espécie mais comumente encontrada em aquários. Fotos de Walther Ishikawa.


Como frequentemente ocorre com os demais gastrópodes límnicos, há alguma controvérsia no número de espécies válidas. A maioria dos autores aceita cerca de nove espécies, listadas abaixo:

  • Drepanotrema anatinum (Orbigny, 1835)                4 mm Log  concha alta
  • Drepanotrema cimex (Moricand, 1839)                    8 mm Arq C
  • Drepanotrema depressissimum (Moricand, 1839)    11 mm Arq C
  • Drepanotrema heloicum (Orbigny, 1835)                 8 mm Log
  • Drepanotrema kermatoides (Orbigny, 1835)            13 mm Arq C sem pigmentação cefalopodal
  • Drepanotrema lucidum (Pfeiffer, 1839)                    8 mm Log
  • Drepanotrema pfeifferi (Strobel, 1874)                   5 mm Log  pé curto com extremidade estreita
  • Drepanotrema pileatum Paraense, 1971                  13 mm Log/Arq  concha alta, lado esquerdo côncavo
  • Drepanotrema schubarti (Haas, 1938)                     6 mm Log/Arq C
            Log = espiral tendendo à forma logarítmica. Arq = espiral tendendo à forma arquimediana. C = concha carenada.




Drepanotrema depressissimum, fotografado na ilha de Grande-Terre, Guadalupe. Foto de Jean-Pierre Pointier.







Drepanotrema pfeifferi em aquário, note as antenas pigmentadas. Na primeira imagem, podem ser vistas também as faixas pigmentadas na região dorsal e lateral da cabeça. Fotos cedidas por Aquiles Sarmento.



            Assim como os Biomphalaria e Planorbis, possuem conchas planispirais achatadas, em forma de disco. Muitas espécies possuem conchas ainda mais achatadas, com bordas laterais agudas e abertura falciforme. Somente como curiosidade, a palavra Drepanotrema tem origem grega, e significa “orifício em forma de cimitarra”.


            São caramujos muito pequenos, medindo entre 3 e 8 mm. À primeira vista podem parecer filhotes de Biomphalaria. Porém, Biomphalarias filhotes não têm conchas com um aspecto tão planispiral quanto os adultos, possuindo uma concha mais globosa e inflada. Ou seja, a presença de diminutos caramujos com a concha bem achatada é uma boa dica para que sejam Drepanotremas.


            Outra dica é a forma como estes caramujos carregam sua concha: eles caminham com a concha na posição horizontal, deitada, paralela à superfície por onde andam. Os Biomphalarias caminham com a concha em posição vertical.






Provável
Drepanotrema heloicum medindo cerca de 5,5 mm, de Marília, SP. As imagens abaixo mostram bem o padrão típico de pigmentação na cabeça, pé e antenas. Note também o longo pé, com extremidade afilada. Fotos de Max Wagner.






Provável Drepanotrema heloicum, coletado em Marília, SP. Fotos de Fernando Barletta.


            A coloração do seu corpo também é diferente: os Drepanotremas não têm hemoglobina na sua hemolinfa, desta forma não possuem a coloração avermelhada dos Biomphalarias. Possuem também antenas bastante pigmentadas, e grandes olhos escuros, que se destacam bastante no corpo claro (exceto D. kermatoides). Muitas espécies têm também faixas pigmentadas na face dorsal e lateral da cabeça, e também no pé, como o D. lucidum. Tipicamente possui um pé longo, estreito e lanceolar (exceto em D. pfeifferi, a espécie mais comum em aquários).









Minúsculos Drepanotrema pfeifferi encontrados em um aquário em São Paulo, SP. Estes exemplars não apresetavam pigmentos no manto. Animais gentilmente cedidos por Fernando Barletta, fotos de Walther Ishikawa.




Comparação entre um Drepanotrema e um Biomphalaria juvenil, vide texto. Fotos de Walther Ishikawa.


Comparação entre um Drepanotrema e um Biomphalaria. Alguns Biomphalaria são tão pequenos quanto os Drepanotrema, e só podem ser diferenciados pela coloração. Fotos de Denise Caillean.



Concha de um minúsculo Drepanotrema, medindo cerca de 1 mm. Veja a abertura falciforme da concha. Foto de Max Wagner.



            Um detalhe interessante sobre estes caramujos: dentre os Planorbídeos, é relativamente comum a presença de espécies “equivalentes” no hemisfério norte e sul, como os Planorbis (norte) e Biomphalaria (sul). Da mesma forma, os caramujos do gênero Gyraulus (restritos ao hemisfério norte) são quase idênticos aos Drepanotrema, apesar de pertencerem a tribos distintas. São chamados popularmente de "Mini-Ramshorn".




Ovos de Drepanotrema. Fotos de Aquiles Sarmento.


            São hermafroditas, e seus ovos são muito parecidos com os dos Biomphalaria, também envoltos por uma massa gelatinosa. Mas são bem difíceis de serem vistos, por serem muito pequenos, e com menos ovos por grupamento. Podem se reproduzir por auto-fecundação, especialmente se as condições ambientais forem desfavoráveis.










Drepanotrema pfeifferi
no aquário. Fotos de Walther Ishikawa.



Um pequeno Drepanotrema junto a um Biomphalaria adulto. Note a diferença na sua coloração. Fotos de Walther Ishikawa.



            Diferente dos Biomphalaria, os Drepanotrema não são vetores de doenças humanas, mas algumas espécies estão relacionadas a parasitas de importância veterinária. São resistentes, suportando ambientes com algum grau de poluição. Em relação à sua presença em aquários, não são prejudiciais às plantas ou peixes, sendo mais uma opção interessante de invertebrados, podendo ser mantidos também em nanos.

             Na natureza, são mais comuns em ambientes com pH neutro para levemente ácido. Porém, em cativeiro, sugere-se um pH discretamente alcalino, e água dura, para evitar problemas relacionados à corrosão das suas conchas.





Drepanotrema em uma folha de alface, e caminhando no vidro do aquário, sob duas iluminações diferentes. Note as antenas bem pigmentadas. Na primeira foto também são evidentes focos de erosão na sua concha. Fotos de Walther Ishikawa.





Drepanotrema
junto a Biomphalaria e Pseudosuccinea. Foto de Walther Ishikawa.




Drepanotrema
junto a Pseudosuccinea. Foto de Júlio Aragão.






Drepanotrema
junto a Pseudosuccinea na primeira foto, e junto a um pequeno besouro hidrofilídeo, na segunda foto. Na primeira imagem pode ser vista claramente a forma horizontal como carregam suas conchas, quando caminham. Fotos de Walther Ishikawa.








Drepanotrema pfeifferi
no aquário. Fotos de Walther Ishikawa.






Referências:

  • Gregoric DEG, Nuñez V, Rumi A, Roche MA. 2006. Freshwater gastropods from Del Plata Basin, Argentina. Checklist and new locality records.  Comunicaciones de la Sociedad Malacológica del Uruguay, Montevideo, 9(89): 51-60.
  • Paraense WL. 1975. Estado atual da sistemática dos Planorbídeos brasileiros. Arquivos do Museu Nacional, Rio de Janeiro 55: 105-128.
  • Paraense WL. 1975. Planorbidae, Lymnaeidae and Physidae of Argentina (Mollusca: Basommatophora). Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 100(5): 491-493.
  • Scarabino F. 2004. Lista sistemática de los gastropoda dulceacuícolas vivientes de Uruguay. Comunicaciones de la Sociedad Malacológica Del Uruguay, Montevideo, 8(84-85/ 86-87): 347-356.
  • Simone LRL. 2006. Land and freshwater molluscs of Brazil. São Paulo, SP: FAPESP, 390 p.
  • Amaral RS (Org.), Thiengo SARC (Org.), Pieri OS (Org.). Vigilância e Controle de Moluscos de Importância médica: Diretrizes técnicas. 2. ed. Brasília: Editora MS, 2008. 178 p.
  • PAHO-Pan American Health Organization 1968. A guide for the identification of the snail intermediate hosts of schistosomiasis in the Americas. Scientific Publication no. 168, Washington, 122 pp.
  • Lamy T, Lévy L, Pointier JP, Jarne P, David P. Does life in unstable environments favour facultative selfing? A case study in the freshwater snail Drepanotrema depressissimum (Basommatophora: Planorbidae). Evolutionary Ecology, May 2012, Volume 26, Issue 3, pp 639-655.
  • Martín-Stella M, Díaz-Ana C, Rumi A. Individual growth of Drepanotrema cimex (Pulmonata: Planorbidae) from Arenalcito pond, natural reserve multiple uses Martin García Island, Buenos Aires, Argentina. Braz. J. Biol. 2013 Nov; 73(4): 835-833.

 




Agradecimentos especiais ao colega malacologista A. Ignacio Agudo-Padrón pela consultoria técnica e valiosas informações. Agradecemos também aos aquaristas Max Wagner, Júlio Aragão, Aquiles Sarmento e Denise Caillean, e também aos zoólogos Dr. Thomas Lamy e Dr. Jean-Pierre Pointier pela cessão das fotos para o artigo. Agradecimentos também a Thiago Petrellio, Denise Caillean e Fernando Barletta pela doação de alguns animais.


As fotografias de Walther Ishikawa estão licencidas sob uma  Licença Creative Commons . As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

 
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