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"P. guyanensis" e "urceus"  
Artigo publicado em 26/07/2013, última edição em 17/10/2015  

Pomacea (Pomacea) urceus
(Müller, 1774)


Pomacea (Pomacea) guyanensis
(Lamarck, 1819)



Pomacea urceus, coletado em um riacho de Tobago por Charlotte Lloyd. Mede 107 mm, a nota de um dólar como referência do seu grande tamanho. Foto de Bill Frank.



Pomacea guyanensis, fotografado em Iquitos, Peru. Foto de Don Howard Lawler.



São duas espécies de Ampulárias sul-americanas de grandes dimensões, duas espécies aparentadas e bastante próximas filogeneticamente, a maioria dos autores considerava P. guyanensis como sendo sinônima da P. urceus, mas análises moleculares recentes (2009) confirmaram se tratar de duas espécies distintas. Pertencem ao Clado “Effusa”, parentes do Pomacea glauca, outra espécie que passa por estivação.

 

Estas grandes Ampulárias adotam uma estratégia reprodutiva única dentre todas as Pomacea, com uma espécie de cuidado parental que não é encontrada em nenhum outro Ampularídeo. Por este motivo, alguns chamam estas espécies de “Ampulárias Vivíparas”.


Pomacea urceus, coletado em uma margem lodosa de um riacho de Tobago por Charlotte Lloyd. Mede 82 mm. Fotos de Bill Frank.


Pomacea urceus, coletado em uma margem lodosa de um riacho de Tobago por Charlotte Lloyd. Mede 78 mm. Fotos de Bill Frank.








Criação comercial de Pomacea urceus na Venezuela. Fotos de Richard Asten.

 

Concha: São Ampulárias de grandes dimensões, com concha bastante globosa, umbilicus largo e profundo, espira baixa. Giros arredondados, suturas rasas, conchas com 4,5 a 6 voltas. Último giro corporal bastante amplo, abertura ovóide. Umbilicus estreito e profundo. Possuem conchas espessas e pesadas, com linhas de crescimento transversais bem pronunciados. Pelo seu caráter escavador, frequentemente mostram sinais de erosão na região apical da concha, com periostraco descascado, mas sem muita dissolução mineral. Coloração amarela, verde-oliva, marrom a negra, quase sempre sem faixas. Columella (lábio interno) branco a vermelho.

O tamanho destes caramujos varia de 125 a 145 mm de altura e 115 a 125 mm de largura. Juntamente com a Pomacea maculata, são as maiores espécies de Ampulárias, e as maiores espécies de gastrópodes de água doce.



Pomacea urceus e Pomacea guyanensis, fotos de Kenneth Hayes.


Opérculo: O opérculo tem uma espessura média e um aspecto córneo. Sua estrutura é excêntrica com o núcleo mesomarginal. Cor marrom escuro. O opérculo pode ser retraído na abertura da concha, mas cobre somente 3/4 da área de abertura.

Corpo: A cor do corpo é chumbo escuro, quase preto. Quando em repouso, os tentáculos ficam enrolados sobre a concha.


Reprodução e estivação: Pomacea urceus e guyanensis vivem em corpos d´água temporários no Norte da América do Sul, e adotam uma estratégia reprodutiva única dentre as Pomacea. Acasalam-se ao final da estação chuvosa, e então as fêmeas se enterram no substrato lodoso, e passam por um período de estivação durante a estação seca, quando os locais onde vivem secam completamente. Mesmo os animais que vivem em rios estivam, se enterrando nas suas margens acima do nível d´água.

A desova ocorre no início da estação de seca (Dezembro-Janeiro), no começo do período de estivação, já com as fêmeas enterradas. Ovos são depositados inicialmente na cavidade do manto, e então junto à face externa do opérculo, no interior da concha (opérculo retraído), numa espécie de câmara incubadora entre o opérculo, a abertura da concha e a lama seca.

Os ovos se desenvolvem durante a estação seca, dentro da concha da mãe (mesmo se eventualmente a mãe morrer), eclodindo em Janeiro-Fevereiro. Periodicamente, a mãe secreta fluidos corporais nesta câmara, para resfriar a si mesmo e a prole. Após a eclosão, os filhotes recém-nascidos permanecem dentro da concha da mãe, protegidos do calor e desidratação, e também entram em um processo de estivação até o início da estação chuvosa (Maio a Novembro), por um período de cerca de 4 meses.



Esquema demonstrando a Pomacea urceus em estivação, com os ovos na câmara de incubação.






Pomacea urceus em estivação em um leito seco de rio na Venezuela, com filhotes em incubação. A última foto mostra as marcas dos filhotes na superfície interna da concha. Fotos de Richard Asten.

 

Pomacea urceus somente se enterra superficialmente na lama durante a estivação, o topo da concha permanecendo fora da lama seca, com a abertura virada para o solo. Seu metabolismo permanece aeróbio, em contraste com outras espécies como a Pila virens, que adquirem um metabolismo anaeróbio durante este período de dormência.

 

São animais bastante robustos, chegam a perder até 62% do seu peso durante o período de estivação. Um grande desafio que estas Ampulárias enfrentam durante a seca é o intenso aquecimento pela exposição direta ao sol. Estes caramujos usam um mecanismo de resfriamento por evaporação (comparável à transpiração em humanos) para manter suas temperaturas abaixo de 41°C. A temperatura letal destes animais varia de 40º a 45°C, animais maiores sendo mais resistentes. Em laboratório, suportam um período de até 17 meses em estivação.

 

Com o início da estação chuvosa, os filhotes abandonam a câmara incubadora, e começam a se alimentar. Mostram um rápido crescimento, atingindo cerca de 85 mm por volta de Novembro, quando estão sexualmente maduros, e aptos à estivação. Sua longevidade é estimada entre 2 e 5 anos, as fêmeas produzem somente três desovas ao longo da sua vida.

 

Sendo uma espécie comestível, e bastante procurada por colecionadores, esta espécie mostra sinais de sobre-exploração na natureza. Existem alguns trabalhos pesquisando o potencial desta espécie em aquicultura, sua reprodução pode ser induzida em cativeiro, simulando as condições naturais de seca, com redução gradativa do nível d´água. Os ovos são retirados cuidadosamente das conchas enterradas das fêmeas, e a eclosão é feita em terrários úmidos e aquecidos, após um período de incubação de 21 a 34 dias. A taxa de sobrevivência é elevada, atingindo 96%.







Criação comercial de P. urceus na Venezuela. Esta população foi criada em uma lagoa, com reprodução habitual, ovos depoistados em plantas marginais, sem estivação e sem cuidado parental. Fotos de Richard Asten.


Ao menos algumas populações se adaptam a formas mais habituais de reprodução. Alguns animais criados em cativeiro, em ambientes permanentemente alagados desovam em caules e folhas de plantas parcialmente submersas, sendo mais fácil a sua reprodução.

São bastante consumidos pelas populações locais, sendo denominados localmente de "Churos".





Pomacea urceus, exemplar da Venezuela, criado em um aquário. Fotos de Simón Dominguez.








Pomacea urceus, outras fotos do mesmo exemplar venezuelano, fotos gentilmente cedidas por Simón Dominguez.







Pomacea urceus em aquário, fotos de Richard Asten.

 

Ovos: A coloração dos ovos é variável, podem ser brancos, alaranjados, e até verde pálido. Cada postura tem de 50 a 200 ovos, de grandes dimensões, medindo de 6,7 a 15,5 mm. Assim, os filhotes recém-nascidos também são grandes, medindo 10 mm.

 




Pomacea guyanensis à venda no Mercado de Belén, Iquitos (Peru). São usadas como alimento, chamadas localmente de "Churos". Fotos gentilmente cedidas por Don Howard Lawler.




Distribuição geográfica de Pomacea urceus no Brasil. Imagem original Google Maps; dados das referências bibliográficas abaixo.



Habitat e distribuição: Tem uma distribuição na região equatorial da América do Sul, sendo encontrado na Guiana e Guiana Francesa, Venezuela, Colômbia, Trinidad, Peru, Equador e Brasil. No nosso país, sua ocorrência é registrada somente nos estado do AM, PA e AP.



 

 

 








Esta ficha foi adaptada do portal  applesnail.net , possivelmente o melhor banco de dados de Ampulárias que existe na internet. Agradecimentos a Stijn Ghesquiere, responsável pelo portal, por permitir o uso do material, ao portal  Conquiologistas do Brasil , por valiosas informações. Agradecemos também ao colega aquarista venezuelano Simón Dominguez, a Bill Frank ( Jacksonville Shell Club ), a Kenneth Hayes e Don Howard Lawler (Peru) pela cessão das fotos para o artigo. Agradecimentos especiais também a Richard Asten (Acuicola Miranda, Venezuela) pela cessão das fotos e preciosas informações.

 

Bibliografia adicional:

  • Simone LRL. 2006. Land and Freshwater Molluscs of Brazil. EGB, Fapesp. São Paulo, Brazil. 390 pp.
  • Hayes K. A., Cowie R. H. & Thiengo S. C. (2009). A global phylogeny of apple snails: Gondwanan origin, generic relationships, and the influence of outgroup choice (Caenogastropoda: Ampullariidae). Biological Journal of the Linnean Society 98(1): 61-76.
  • Cowie RH, Héros V. Annotated catalogue of the types of Ampullariidae (Mollusca, Gastropoda) in the Muséum national d'Histoire naturelle, Paris, with lectotype designations. Zoosystema Dec 2012: Vol. 34, Issue 4, pg(s) 793-824.
  • Cowie RH. The Golden Apple Snail: Pomacea species including Pomacea canaliculata (Lamarck, 1822) (Gastropoda: Ampullariidae) – Diagnostic Standard. Center for Conservation Research and Training, University of Hawaii. Sem data, 38 pp.
  • Ramnarine IW. Induction of spawning and artificial incubation of eggs in the edible snail Pomacea urceus (Muller). Aquaculture. Volume 215, Issues 1–4, 10 January 2003, Pages 163–166.
  • León AAA. Diferenciación morfológica de las especies de “Churo” (Mollusca, Caeno Gastropoda: Pomacea spp.) comercializadas en Iquitos. Disertación (Título Profesional de Biólogo con mención en Zoología) – Facultad de Ciencias Biológicas E.A.P de Ciencias Biológicas, Universidad Nacional Mayor de San Marcos. Lima, Perú, 2013.
  • http://www.heimbiotop.de/apfelschnecken.html
  • http://www.conchasbrasil.org.br/
  • Hayes KA, Burks RL, Castro-Vazquez A, Darby PC, Heras H, Martín PR, Qiu JW, Thiengo SC, Vega IA, Wada T, Yusa Y, Burela S, Cadierno MP, Cueto JA, Dellagnola FA, Dreon MS, Frassa MV, Giraud-Billoud M, Godoy MS, Ituarte S, Koch E, Matsukura K, Pasquevich MY, Rodriguez C, Saveanu L, Seuffert ME, Strong EE, Sun J, Tamburi NE, Tiecher MJ, Turner RL, Valentine-Darby PL, Cowie RH. Insights from an Integrated View of the Biology of Apple Snails (Caenogastropoda: Ampullariidae). Malacologia, 2015, 58(1-2): 245-302.

  • Alderson EG. Studies in Ampullaria. W. Heffer & Sons, Cambridge 1925



As fotografias de Kenneth Hayes estão licenciadas sob uma Licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

 
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