INÍCIO ARTIGOS ESPÉCIES GALERIA SOBRE EQUIPE PARCEIROS CONTATO
 
 
    Espécies
 
"Heleobia"  
Artigo publicado em 06/01/2014, última edição em 15/09/2015  



Heleobia Stimpson, 1865

 

 

Introdução e Taxonomia

 

São caramujos bastante comuns na natureza, mas raramente vistos em aquários, porque não possui atrativos ornamentais. Não tem nome popular, mas este grupo é conhecido genericamente como caramujo-de-lama (“mud snail”). Sua taxonomia também é confusa, a classificação formalmente aceita é do gênero Heleobia Stimpson 1865, mas algumas fontes ainda mencionam este gênero como Littoridina Souleyet, 1852. Em nível supragenérico, a situação é similar, estes caramujos foram incluídos por muito tempo na família Hydrobiidae, mas a maioria dos autores recentemente inclui estes gastrópodes na família Cochliopidae. Mas, mesmo estes autores chamam informalmente estes caramujos de "hidrobióides", um termo consagrado pelo uso.

Heleobia compreende 101 espécies distribuídas na América do Sul, Europa, nas regiões mediterrâneas da África, e no mar Cáspio da Ásia, dentro os quais 90 são sul-americanos. E dentre os sete gêneros de “hidrobióides” representados no continente sul-americano, Heleobia é o que apresenta maior diversidade e distribuição. Destes, o mais comum é o Heleobia australis.

 





Heleobia australis em um aquário de água doce, note seus olhos escuros. Fotos de Walther Ishikawa.


Morfologia

 

É um gastrópode bem pequeno, raramente ultrapassando 5 mm de comprimento. Sua concha possui forma cônica-ovalada e espira alongada, com quase 6 voltas, suturas rasas e área umbilical deprimida, abertura oval. Superfície da concha lisa com marcas de crescimento, cuja coloração varia de marrom ao castanho amarelado, à custa de pigmentação do periostraco. Retirado o periostraco, a concha mineral é branca. Pequeno opérculo de cor âmbar.

Sua concha lembra vagamente um caramujo Physa, mas seu corpo guarda bastante semelhança com o Melanoides, com uma “tromba” (probóscide) na cabeça, achatada e protrusa anteriormente, parecendo uma língua. Pé achatado e relativamente curto, com borda posterior arredondada, e borda anterior com expansões laterais. Tentáculos cefálicos longos e delgados, com extremidade distal arredondada, olhos escuros junto à sua base. Probóscide e nuca com pigmento negro, corpo claro, tênue pigmentação cinza.


Outro gastrópode bastante parecido é a espécie exótica neozelandesa Potamopyrgus antipodarum, recentemente (2014) detectada no Chile como invasor. Alguns autores mencionam espécies brasileiras de Potamopyrgus, mas é controverso. 


 




Heleobia australis caminhando sobre uma folha submersa. Fotos de Walther Ishikawa.



Heleobia australis (d´Orbigny, 1835)


Esta é uma espécie de caramujo bastante comum na natureza, encontrado nas regiões litorâneas. Alguns autores consideram esta espécie sinônimo de outras de água doce, como Heleobia piscium, mas há controvérsias, dado que os habitats ocupados e padrão reprodutivo (dependência de água salobra) são distintos.

            Sua concha mostra grande variação morfológica, provavelmente por influência da salinidade: conchas médias e globosas em ambientes oligohalinos, conchas grandes em ambientes salobros mesohalinos (faixa ideal), e conchas pequenas e alongadas em ambientes polihalinos.


Distribuição e Habitat

 

A área de ocorrência da espécie é a região litorânea atlântica tropical, subtropical e temperada da América do Sul, sendo encontrado desde Truma (PE), por todo o restante da costa brasileira, até a Patagônia argentina. H. australis é uma espécie típica de ambientes estuarinos, ocorre somente em ambientes conectados ao mar, devido à sua dependência reprodutiva por água salobra.

Vive fixo em pedras submersas e raízes de aguapés, em águas doces, eurihalinas e salobras, geralmente de substrato lodoso. Heleobia australis domina a foz do estuário, e sua população decresce caminhando para o interior do rio, o limite de penetração no estuário coincide com o limite da influência da maré. A salinidade ideal é estimada em 8~18%o. Forma densas populações que pode ultrapassar 40.000 ind./m², ou 11 ind./cm3. É um importante componente da cadeia trófica destes ambientes, servindo de fonte de alimento para diversas espécies.

Trata-se de uma espécie oportunista, robusta e adaptada a ambientes inóspitos, eutrofizados e com baixa taxa de oxigênio dissolvido. São numerosos também em áreas poluídas e com intensa ação antrópica. Existe um interessante trabalho de laboratório onde houve 100% de mortalidade na manutenção desta espécie em aquários aerados, e boa sobrevivência em tanques sem aeração. É uma espécie bacteriófaga e detritófaga, alimenta-se indiscriminadamente de matéria orgânica depositada de diversas origens, pode consumir inclusive suas próprias fezes (autocoprofagia), especialmente se submetidos à intensa competição intra-específica.




Grande grupo de Heleobia australis, fotografado num pequeno córrego de água doce que cruzava uma rua não asfaltada próximo ao mangue do Rio Indaiá, Ubatuba, SP. Foto de Walther Ishikawa.



Close em conchas de Heleobia australis, note as cápsulas de ovos de cor clara aderidas à concha de alguns caramujos. Foto de Walther Ishikawa.



            Adultos de H. australis são capazes de caminhar na superfície de substratos duros ou sedimentos macios depositados, ou ainda escavar através de detritos de fundo, agindo como bioturvador. Em ambientes sem correnteza, costumam também caminhar imediatamente abaixo da superfície d´água, usando a tensão superficial. Mostra também um interessante recurso de flutuação, criando uma bolha de ar no interior da sua concha. Desta forma, os caramujos podem temporariamente se sustentar na coluna d´água, onde podem ser levados pela correnteza da maré ou correntezas criadas por ventos, uma estratégia de dispersão e fuga de ambientes inóspitos.





Heleobia australis caminhando de ponta-cabeça sobre a superfície da água, alimentando-se de detritos e biofilme bacteriano na superfície. Fotos de Walther Ishikawa.

 

Reprodução

 

            É uma espécie dióica (sexos separados), com fertilização interna, e pode haver estocagem de sêmen, com fertilização tardia. Assim como outros “hidrobióides”, depositam seus ovos fertilizados dentro de cápsulas, agrupados em uma massa de ovos, preferencialmente na concha de outros caramujos adultos vivos, mas podem ser depositados também em conchas de Heleobia mortos, conchas de outras espécies, grânulos de areia, ou algas. A massa de ovos tem aspecto amarelado, e contém cápsulas, cada uma com um único ovo branco no seu interior. O número de ovos por massa varia de 10 a 15, os ovos medem cerca de 80 μm, e a cápsula 120 μm. Nem todos os ovos se desenvolvem, e mesmo dentre os que se desenvolvem, há um padrão assincrônico, com embriões em diferentes estágios de desenvolvimento. A larva planctônica (veliger) se desenvolve no interior da cápsula, e após a eclosão do ovo, permanece no interior da cápsula consumindo seus nutrientes. Quando rompe a cápsula, a larva natante mede 120 μm, e se alimenta de detritos em suspensão. O desenvolvimento do ovo é bastante rápido, demora cerca de 3 dias até a eclosão da cápsula liberando o veliger pelágico.

            Todos os trabalhos descrevem reprodução e desenvolvimento larval em água salgada (35%o). Alguns autores sugerem que esta espécie se reproduz também em salinidades menores, mas não há dados conclusivos. Reprodução contínua ao longo do ano, ao menos em espécimes de clima quente. Longevidade variável com a temperatura, estimado em 2,5 anos para uma população argentina.





Heleobia davisi (Silva & Thomé, 1985) (inferior à esquerda), fotografado por acaso sobre uma rocha no leito do Rio Jacuí, em Ilha da Pintada, RS. Na foto podem ser vistos também dois Potamolithus, e um Mexilhão-dourado Limnoperna fortunei. Foto de Walther Ishikawa.




Outros Heleobia de Água Doce


 

Além do H. australis, cerca de outros 30 outros Heleobia límnicos são descritos no Brasil, todos com morfologia muito parecida e de difícil diferenciação entre si, e também com o H. australis.

São bastante comuns em lagoas e riachos dos estados do Sul, tendo preferência por substrato arenoso e águas límpidas. Uma espécie frequente é o H. piscium (d´Orbigny 1835). São encontradas em meio a raízes de plantas flutuantes, sobre pedras e no substrato. Todos têm sexos separados, e são ovíparos. Populações argentinas mostram um único período reprodutivo, longo, do verão ao meio do outono.







Heleobia davisi coletado no Rio Jacuí, em Ilha da Pintada, RS. Fotos de Walther Ishikawa.


 

Aspectos médico-sanitários

 

Estas espécies de caramujo têm importância médico-sanitária, em virtude de ser o primeiro hospedeiro intermediário de vários vermes trematódeos, alguns dos quais parasitam o homem. Assim como o Melanoides, é vetor do verme causador da Paragonimíase (Paragonimus westermani), embora não haja possibilidade de instalar-se entre nós, por falta do segundo hospedeiro intermediário. Outro verme importante é o Ascocotyle (Phagicola) longa, agente etiológico da heterofiíase humana, parasitose cosmopolita e adquirida através do consumo de peixes mal cozidos, que representam um reservatório da infecção para o homem, principalmente a partir da introdução da culinária oriental no país.





Heleobia australis junto a Melanoides tuberculata. Junto ao pequeno filhote na primeira foto, e junto a um adulto na segunda imagem. Na primeira foto, note a semelhança das partes moles do seu corpo com o Melanoides. A segunda foto dá uma clara idéia das pequenas dimensões deste caramujo. Fotos de Walther Ishikawa.



Heleobia australis junto a um filhote de Biomphalaria intermedia. Foto de Walther Ishikawa.




Heleobia davisi com um Biomphalaria intermedia. Fotos de Walther Ishikawa.



Grupo de Heleobia australis sobre um Corbicula fluminea e Limnoperna fortunei. Pode ser visto também um pequeno filhote de Melanoides. Foto de Walther Ishikawa. 

 

Bibliografia:

  • Silva MCP, Veitenheimer-Mendes IL. Nova espécie de Heleobia (Rissooidea, Hydrobiidae) da planície costeira do sul do Brasil. Iheringia, Sér. Zool. 2004 Mar; 94(1): 89-94.
  • Neves RAF, Valentin JL, Figueiredo GM. Morphological description of the gastropod Heleobia australis (Hydrobiidae) from egg to hatching. Braz J Ocean 2010. 58(3):247-250.
  • Aguirre ML, Urrutia MI. Morphological variability of Littoridina australis (d'Orbigny, 1835) (Hydrobiidae) in the Bonaerensian marine Holocene (Argentina). Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology 2002. 183:1–23.
  • Agudo-Padrón AI, Veado RV ad-V, Saalfeld K. Moluscos e Saúde Pública em Santa Catarina: subsídios para a formulação estadual de políticas preventivas sanitaristas. Duque de Caxias, RJ: Espaço Científico Livre Projetos Editoriais, 1a. ed., 2013, 134 p.
  • Miyahara IC. Moluscos de água doce da Ilha Grande, Angra dos Reis, Rio de Janeiro, Brasil: Diversidade e Distribuição. Rio de Janeiro, RJ: Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 75 p. 2009. [Monografia de Bacharelado]
  • Coimbra HS, Schuch LFD, Muller G, Gonçalves CL, Zambrano C, Oyarzabal MEB, Prestes LS, Meireles MCA. Pesquisa de trematódeos digenéticos em Heleobia spp. (Mollusca: Hydrobiidae) em área de ocorrência da Ehrlichiose monocítica equina, no Rio Grande do Sul, Brasil. Arq. Inst. Biol., São Paulo, v.80, n.3, p. 266-272, 2013.
  • Lago DV, Mattos AC, Lopes BG, Simões SBE, Fernandez MA, Thiengo SC. Taxa de Infecção por Trematódeos em Heleobia australis (Gastropoda: Rissooidea) na Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro. III CBIO / XIX ENBIO - Congresso dos Biólogos dos Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo - 2010 - Rio de Janeiro.
  • Carcedo MC, Fiori SM. Long-term study of the life cycle and growth of Heleobia australis (Caenogastropoda, Cochliopidae) in the Bahía Blanca estuary, Argentina. Ciencias Marinas (2012), 38(4): 589–597.
  • Carcedo MC, Fiori SM. Patrones de distribución y abundancia de Heleobia australis (Caenogastropoda: Cochliopidae) en el estuario de Bahía Blanca, Argentina. Amici Molluscarum, Número especial: 59-66 (2011).
  • Echeverría CA, Neves RAF, Pessoa LA, Paiva PC. Spatial and temporal distribution of the gastropod Heleobia australis in an eutrophic estuarine system suggests a metapopulation dynamics. Natural Science, Vol.2, No.8, 860-867 (2010).
  • Francesco CG, Isla FI. The life cycle and growth of Heleobia australis (d’Orbigny, 1835) and H. conexa (Gaillard, 1974) (Gastropoda: Rissooidea) in mar Chiquita coastal lagoon (Argentina). Journal of Molluscan Studies, v.70, p.173-178, 2004.
  • Martin SM. Individual growth of Heleobia piscium in natural populations (Gastropoda: Cochliopidae) from the multiple use natural Reserve Isla Martin Garcia, Buenos Aires, Argentina. Braz. J. Biol. 2008 Aug; 68(3): 617-621.
  • Pfeifer NTS, Pitoni VLL. 2003. Análise qualitativa estacional da fauna de moluscos límnicos no Delta do Jacuí, Rio Grande do Sul, Brasil. Biociências 11(2):145-158.
  • Collado GA. Out of New Zealand: molecular identification of the highly invasive freshwater mollusk Potamopyrgus antipodarum (Gray, 1843) in South America. Zoological Studies 2014, 53:70.
  • Cazzaniga NJ. (Ed). El género Heleobia (Caenogastropoda: Cochliopidae)en América del Sur.Amici Molluscarum, número especial: 11-48(2011).
  • Martin SM. Individual growth of Heleobia piscium in natural populations (Gastropoda: Cochliopidae) from the multiple use natural Reserve Isla Martin Garcia, Buenos Aires, Argentina. Braz. J. Biol., 68(3): 617-621, 2008.





As fotografias de Walther Ishikawa estão licenciadas sob uma Licença Creative Commons.

 
« Voltar  
 

Planeta Invertebrados Brasil - © 2018 Todos os direitos reservados

Desenvolvimento de sites: GV8 SITES & SISTEMAS