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"Potamolithus"  
Artigo publicado em 18/05/2014, última edição em 15/01/2017  


Potamolithus Pilsbry & Rush, 1896

 

 

 

Introdução e Taxonomia

 

Os Potamolithus são pequeninos caramujos de água doce, de concha globosa, daí a origem do seu nome: do grego antigo potamos (ποταμός) significando “rio”, e lithos (λίθος) que significa “pedra”. São como pequenas pedrinhas de cascalho arredondadas. Tradicionalmente eles eram classificados dentro da família Hydrobiidae, mas após análises estruturais recentes, eles foram re-classificados como fazendo parte da família Lithoglyphidae.

Existe aproximadamente 50 espécies reconhecidas, das quais cerca de uma dúzia ocorrem no Brasil (MG, SP, SC e RS). Um fato interessante deste gênero é o de apresentar populações mistas, compostas de diferentes espécies simpátricas. Segue a lista das principais espécies brasileiras, com os estados onde ocorrem, e dimensões:

 

  • Potamolithus catharinae Pilsbry, 1911 (SP, SC, RS)            5,7 mm
  • Potamolithus chloris Pilsbry, 1911 (SP)                                3,0 mm
  • Potamolithus fodinarum Pilsbry, 1924 (MG)                        5,0 mm
  • Potamolithus intracallosus Pilsbry, 1911 (SP)                      3,7 mm
  • Potamolithus jacuhyensis Pilsbry, 1899 (RS)                        6,5 mm
  • Potamolithus karsticus Simone & Moracchioli, 1994 (SP)    2,1 mm
  • Potamolithus kusteri (Strobel, 1874) (SC, RS)                     5,2 mm
  • Potamolithus lapidum (d´Orbigny, 1835) (SC, RS)               5,3 mm
  • Potamolithus paranaensis Pilsbry, 1911 (RS)                        3,3 mm
  • Potamolithus philippianus Pilsbry, 1911 (SC, RS)                 5,7 mm
  • Potamolithus ribeirensis Pilsbry, 1911 (SP, RS)                     4,5 mm
  • Potamolithus tietensis Pilsbry, 1925 (SP)                               3,7 mm
  • Potamolithus troglobius Simone & Moracchioli, 1994 (SP)    2,5 mm

 







Potamolithus jacuhyensis fotografado em baixo de uma rocha no leito do Rio Jacuí, em Ilha da Pintada, RS. Na primeira foto pode ser visto também um Heleobia davisi. Fotos de Walther Ishikawa.



Distribuição e Habitat

 

Sua distribuição está restrita à América do Sul, endêmica dos lagos costeiros e rios da vertente atlântica do sul do Brasil (Rios Ribeira, Itajaí-Açú e Jacuí) e da Bacia Platina, nos sistemas dos Rios Uruguai, Alto Paraná e La Plata. Fora destes sistemas, existe somente a espécie P. australis, do Lago Llanquihue, do sul do Chile.

Habitam águas doces, encontrados principalmente em rios e corredeiras, de substrato rochoso, geralmente sobre ou abaixo de pedras. Mais raramente podem ser coletados em lagoas. Preferem águas ricamente oxigenadas, de temperaturas amenas (< 20ºC), pH alcalino. São mais comuns em locais rasos, muitas espécies vivem em costões rochosos próximos à superfície da água. Em algumas localidades (como no extremo sul do RS) são bastante numerosos, e representam a espécie gastrópode dominante do habitat.

Duas espécies são cavernícolas, encontradas nas cavernas do complexo PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira) que se localiza no sul do estado de São Paulo: P. troglobius e P. karsticus. A primeira consta no “Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção” (2008) da IUCN/MMA como espécie vulnerável.












Potamolithus jacuhyensis fotografados no Rio Jacuí, em Ilha da Pintada, RS. A segunda foto demonstra em detalhes o opérculo do animal. Note também o que parecem ser cápsulas de ovos nas conchas (veja o texto). Fotos de Walther Ishikawa.








Potamolithus fodinarum
, holotipo coletado por B. Walker no Rio das Velhas próximo de Lassana, MG. Exemplar da Coleção Malacológica da Academia de Ciências naturais, Filadélfia, EUA. Veja o link ao final do artigo.





Potamolithus tietensis,
lectotipo coletado por H. V. Ihering no Rio Tietê, em Itapura, SP. Exemplar da Coleção Malacológica da Academia de Ciências naturais, Filadélfia, EUA. Veja o link ao final do artigo.





Potamolithus lapidum var. supersulcatus,
lectotipo coletado por W. H. Rush no Rio La Plata, em Ilha San Gabriels, off Colonia, Uruguai. Outras sub-espécies do P. lapidum ocorrem no Brasil,. Exemplar da Coleção Malacológica da Academia de Ciências naturais, Filadélfia, EUA. Veja o link ao final do artigo.

 

 


Morfologia

 

São todos muito pequenos, não ultrapassando cerca de 6 mm. Embora haja alguma variação na morfologia dentre todas as espécies existentes de Potamolithus (como forma, carenação e faixas nas conchas), quase todas as espécies brasileiras possuem conchas com um aspecto mais ou menos similar, de forma globosa, lisa e sem esculturações, com sutura bem marcada e espira proeminente. Na primeira vez que os vi, confundi com pequenos filhotes de Pomacea. Quanto à forma da concha, a única exceção nativa importante é o P. kusteri, com concha um pouco mais cônica e alongada, inclusive, até pouco tempo atrás esta espécie era classificada como um Heleobia. A coloração de todas as espécies brasileiras é homogênea, sem listras ou marcas, em tons pardos, geralmente esverdeados, podendo ser castanho em algumas espécies.

Cabeça com pequenos olhos enegrecidos (exceto as duas espécies cavernícolas). Algumas espécies possuem tentáculos cefálicos longos e filiformes (como o P. lapidum, P. catharinae e P. jacuhyensis), em outros são mais curtos e rombos (P. ribeirensis, P. troglobius). Probóscide proeminente, lembrando um Heleobia ou um Melanoides, cor negra exceto no lábio. Algumas espécies de tentáculos longos (P. catharinae, P. jacuhyensis) possuem uma listra longitudinal dorsal nos tentáculos. Pigmentação esparsa também na face anterodorsal do pé. Pé largo, com comprimento duas vezes a sua largura, borda anterior reta e borda posterior afilada. Opérculo fino, de cor clara.
















Potamolithus jacuhyensis coletados no Rio Jacuí, em Ilha da Pintada, RS. Veja a anatomia das suas partes moles, lembrando bastante os demais Hidrobióides. Fotos de Walther Ishikawa.



 


Potamolithus catharinae, coletados no Rio Itajaí-Açú, Blumenau, SC. Foto gentilmente cedida por Aisur Ignacio Agudo-Padrón.










Potamolithus sp. (philipianus? peristomatus?) fotografados no Rio Tamanduá, Foz do Iguaçu, PR. Fotos de Walther Ishikawa.


 

Reprodução

 

            É uma espécie dióica (sexos separados), mas sem dimorfismo sexual evidente nas suas características externas. Poucos dados existem sobre a sua reprodução, sabe-se que a fertilização é interna, e depositam ovos fertilizados dentro de cápsulas, sobre substratos rígidos. Desenvolvimento direto, sem fase de larva planctônica.

             Um fato curioso, quando coletei espécimes no Rio Jacuí (RS), vi que suas conchas estavam repletas de pequenas cápsulas de ovos, muito parecidas àquelas vistas na concha de Heleobia australis. Embora não exista descrição em literatura científica, talvez estes caramujos depositem suas cápsulas de ovos nas conchas de outros caramujos, à semelhança do H. australis.



Potamolithus jacuhyensis no aquário. Note as cápsulas de ovos das suas conchas. Fotos de Walther Ishikawa.


 




Potamolithus jacuhyensis no aquário. Fotos de Walther Ishikawa.


 

 

Bibliografia:
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  • Silva MCP, Veitenheimer-Mendes IL. Redescrição de Potamolithus catharinae com base em topótipos (Gastropoda, Hydrobiidae), rio Hercílio, Santa Catarina, Brasil. Iheringia, Sér. Zool. 2004  Mar; 94(1): 82-88.
  • Bichuette ME, Trajano E. A population study of epigean and subterranean Potamolithus snails from southeast Brazil (Mollusca: Gastropoda: Hydrobiidae). Hydrobiologia 505: 107–117, 2003.
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Agradecimentos ao colega malacologista brasileiro Aisur Ignacio Agudo-Padrón pela cessão da foto. Vejam também a Coleção Malacológica da Academia de Ciências Naturais, Filadélfia,   aqui .



As fotografias de Walther Ishikawa e da Coleção Malacológica da Academia de Ciências Naturais, Filadélfia estão licenciadas sob uma Licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.
 
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