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"Planorbella duryi"  
Artigo publicado em 30/06/2014, última edição em 19/06/2016  


"Pink / Red Ramshorn" Planorbella duryi albina, comercializado na Argentina. Note a cor vermelha menos intensa, tendendo ao róseo, sua concha mais espessa e opaca, com linhas de crescimento mais demarcadas.  Foto de Valeria Castagnino.



"Blue Ramshorn" Planorbella duryi, comercializado na Argentina. Foto de Valeria Castagnino.


Planorbella duryi (Wetherby, 1879)

 

 

Quase todos dos caramujos Planorbídeos (“Ramshorn”) encontrados em aquários pertencem ao gênero Biomphalaria, sejam os ornamentais (Red Ramshorn) ou os caramujos comuns invasores de cor marrom escura. Veja o artigo sobre estes caramujos  aqui .

Caramujos “Red Ramshorn” são disponíveis em lojas brasileiras há muitos anos, e são Biomphalaria albinas, descendentes de animais criados de forma seletiva em laboratórios de parasitologia, para pesquisas envolvendo a esquistossomose. Porém, mais recentemente, outras variedades ornamentais de Caramujos Ramshorn também têm sido importadas, como a Azul e Rosa, estas sim pertencendo à espécie Planorbella duryi.



Planorbídeo "Azul Celeste" (Planorbella duryi), exemplar argentino. Foto cedida por Valeria Castagnino.

 

 

“Ramshorn” Seminola

 

O Planorbella duryi é uma espécie norte-americana de planorbídeo, originária da região da Flórida, sendo por este motivo conhecido como Seminole Ram´s Horn. Seminola é o nome de uma tribo de índios norte-americanos nativa da região da Flórida. É particularmente numeroso na região dos Everglades, no extremo sul do estado.






Planorbella duryi selvagens, fotografados na Flórida, EUA. Na primeira foto, exemplar coletado em um alagado próximo à estrada, perto de Treaty Park, St. |Johns County. Na segunda foto, em um lago em Florida State College Jacksonville south campus, Duval Co.. Fotos de Bill Frank.



Ou seja, é uma espécie tropical de caramujo, criada inicialmente por acidente através de invasores introduzidos juntamente com plantas ornamentais em aquários tropicais. Com o passar do tempo, variedades de cores diferentes foram criadas seletivamente, principalmente na Alemanha, hoje disponíveis em vários países. É o motivo pelo qual nos EUA, a variedade Azul é chamada de "German Blue Ram", ou simplesmente GBR.


Planorbella duryi albino, "Red Ramshorn". Foto de Leonard (Planet Inverts).


Planorbella duryi albino, "Pink Ramshorn". Foto de Leonard (Planet Inverts).



Planorbella duryi "Blue Ramshorn". Foto de Bill Southern (Planet Inverts).


Planorbella duryi albino, "Pink Ramshorn". Foto de Leonard (Planet Inverts).



Através do comércio de plantas aquáticas ornamentais, também foi introduzido em diversos países, sendo encontrada como espécie exótica, inclusive no Brasil, com relatos de ocorrência em São Paulo e Goiás (município de Formosa). Também foi muito utilizada como agente de controle biológico de vetores de esquistossomose, principalmente na África. Há registros desta espécie em vários países Europeus, Israel, e recentemente foi detectada na Sibéria.      

 


"Blue Ramshorn" Planorbella duryi. Fotos de Walther Ishikawa.




"Pink Ramshorn" Planorbella duryi, animais nascidos de pais "Blue". Fotos de Walther Ishikawa.



Filhotes de Planorbella duryi, "Blue" e um "Pink" no centro, animais nascidos de pais "Blue". Note o aspecto manchado e cor mais intensa dos filhotes "Blue", comparado aos adultos. Foto de Walther Ishikawa.



Planorbella duryi, "Blue" de concha amarela. Fotos de Walther Ishikawa.


 

Taxonomia

 

Há muita confusão envolvendo a classificação de diversos caramujos de água doce, e o Planorbella duryi não é exceção. Frente às novas informações genéticas e moleculares, antigas taxonomias tem sido revistas. Filogeneticamente, é um gênero bem próximo do Biomphalaria, uma proposta de classificação cladística recente baseada no gene 28S rRNA e exon 2 de um gene de actina citoplasmática o coloca dentro do Clado-H, como gênero-irmão do Biomphalaria.

 

Até a pouco tempo esta espécie era classificada no gênero Helisoma (H. duryi), boa parte das informações na internet e artigos científicos ainda o tratam com esta denominação. Alguns ainda consideram subgêneros, no caso, esta espécie pertencendo ao subgênero Seminolina, sendo denominada de Planorbella (Seminolina) duryi, ou Helisoma (Seminolina) duryi.

 

Outra peculiaridade desta espécie é o fato de apresentar variações populacionais bem exacerbadas na morfologia das conchas, chamados por muitos de raças, formas polimórficas, ou subespécies. A forma mais habitual, e encontrada nas variações de cor usadas em aquários ornamentais é a P. duryi duryi (Forma Típica). Uma variação de concha mais fina e achatada é chamada de Forma Deprimida (P. duryi eudiscus), e também existe a forma com a espira alta, chamada de Forma Escalariforme (P. duryi seminole). Há também P. duryi normale, P. duryi intercalare e P. duryi preglabratum.

 



Planorbella duryi selvagens, forma seminolis, fotografados no Lago Oneida, University of North Florida Campus, Duval Co., Flórida, EUA. Fotos de Bill Frank.


 

Diferenciação do Biomphalaria e outros planorbídeos

 

Dentre os Biomphalaria brasileiros, o P. duryi pode ser confundido principalmente com as espécies de conchas planispirais altas: B. tenagophila, B. occidentalis e B. tenagophila guaibensis. As espécies de Biomphalaria possuem concha mais frágil e espessura da borda da concha mais delicada, quando comparada às de Planorbella, embora a observação do complexo genital seja necessária para a diferenciação específica. A relação tamanho da concha e crescimento dos giros pode também ser um indicativo, uma vez que em Planorbella os giros crescem rapidamente em diâmetro. Possuem também a abertura da concha dilatada, quando comparada às espécies do gênero Biomphalaria, e geralmente as estrias de crescimento são muito visíveis nos giros. Realizamos a dissecção para identificação de um Planorbella duryi “Blue Ramshorn”, o artigo pode ser visto  aqui . Para nós, aquaristas, uma dica nesta diferenciação é a grande pseudobrânquia que esta espécie possui, uma estrutura cônica projetada para fora da concha, do lado esquerdo do animal. É facilmente visível quando caminha sobre o vidro do aquário.





Planorbella duryi "Blue" e Biomphalaria glabrata "Red", nestas fotos é evidente a diferença do padrão da espiralização da concha. Fotos de Cláudio Moreira e Denise Cailean. Nos diagramas à direita, as espirais de Arquimedes e Logarítmica. Veja como no Planorbella os giros crescem mais rapidamente, com um padrão mais logarítmico. Algumas conchas de Drepanotrema pode ter um padrão ainda mais arquimedeano. Diagramas Wikimedia Commons (licença Creative Commons, referências ao final do artigo).




Filhotes de Planorbella duryi "Blue" e "Pink" exibindo sua grande Pseudobrânquia. Na segunda foto, os animais renovando seu estoque de ar usando o órgão. Fotos de Walther Ishikawa.


 

Planorbella duryi selvagens, conchas coletadas em uma lagoa ao sudeste de Duval Co., Flórida. Foto de Bill Frank.


Ambos possuem hemolinfa vermelha, devido à presença de hemoglobina, conferindo uma bela coloração vermelha aos indivíduos albinos. No Brasil, a quase totalidade de Planorbídeos ornamentais vermelhos (“Red Ramshorn”) vendidos em lojas de aquarismo são Biomphalarias. Muito raramente, Planorbellas albinas são importadas, são mais caras, e com o vermelho não tão intenso, geralmente sendo vendidas sob a denominação de “Pink Ramshorn”.

 

Veja um artigo sobre as variações de cor em “Ramshorn”  aqui .

 

Um último detalhe interessante é que o padrão de cópula é distinto do Biomphalaria: Nos Planorbella, habitualmente a cópula é recíproca, numa posição face-a-face, sem um dos parceiros montar na concha do outro. As conchas ficam orientadas com sua porção basal viradas uma para a outra. Sabe-se também que há autofecundação em menor grau do que nos demais caramujos hermafroditas de água doce. Demais detalhes reprodutivos são muito similares às Biomphalaria.





Proporção cumulativa de indivíduos reprodutores em função da idade (dias) em diversos caramujos basomatomorfos hermafroditas encontrados no Brasil. Curvas azuis de reprodução cruzada facultativa, e curvas vermelhas de auto-fecundação. Veja como muitas espécies se reproduzem indiferentemente por auto-fecundação, mas isto não ocorre com o Planorbella duryii. Adaptado de Escobar JS, et al. Evolution, 2011 (veja referências).



Cópula de Planorbella duryi. Foto de Walther Ishikawa.




Desenvolvimento dos ovos de Planorbella duryi. Note um único ovo que não se desenvolveu, inferior à esquerda. Fotos de Walther Ishikawa.



Cacho de ovos de Planorbella duryi, mostrando a prole mista, alguns "Blue" e outros "Pink" (albina). Assim como as Ampulárias, a distinção entre variedades albinas e eumelânicas pode ser feita já no início do seu desenvolvimento, pela presença ou ausência de olhos escuros, usando um microscópio ou uma câmera com recurso macro. Imagem cedida pelo aquarista Tibério Graco.



Pequeno bebê Planorbella duryi. Muitas vezes filhotes desta espécie mostram a concha bastante carenada, com aspecto que lembra a variedade "seminole", bem diferente dos filhotes globosos do Biomphalaria. Foto de Tibério Graco.


 

 

Bibliografia:

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Agradecimentos especiais aos aquaristas Tibério Graco, Denise Cailean, Valeria Castagnino (Argentina) e Cláudio Moreira, e também a Bill Frank ( Jacksonville Shell Club ), pela cessão das fotos para o artigo.




As fotografias de Walther Ishikawa e os diagramas do Wikimedia Commons (veja os arquivos originais  aqui  e  aqui ) estão licenciadas sob uma Licença Creative Commons. As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

 
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