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"Pyrgophorus"  
Artigo publicado em 06/12/2015  

Pyrgophorus Ancey, 1888



Pyrgophorus sp., coletados no Rio São Mateus, em São Mateus ES. Note a escala em milímetros na primeira imagem. Fotos de Acauan Cordeiro.

 

 

Introdução

 

            Em Novembro de 2015, foram coletados diminutos caramujos límnicos de uma espécie desconhecida, no Rio São Mateus (Rio Cricaré), no município de mesmo nome, Espírito Santo, a cerca de 40km da foz. Medindo até 3mm, possuíam uma morfologia curiosa, com uma coroa de espinhos na face apical da concha. Foram identificados como sendo gastrópodes exóticos do gênero Pyrgophorus Ancey, 1888. Este gênero já tinha sua ocorrência documentada no Brasil em duas ocasiões, no Pará (1950) e no Pantanal (1994).

            Nos EUA, são chamadas popularmente de “Serrated Crownsnail”. Como curiosidade, a etimologia do nome é grega, de πύργος ‎(púrgos, “torre”) e φέρω ‎(phérō, “trazer, carregar”), possivelmente uma alusão às projeções da concha.




Pyrgophorus coronatus, medindo 3,3 mm. Concha coletada na praia de Billy´s Bay, St. Elizabeth Parish, Jamaica. Trata-se de uma concha encontrada na praia, sem boa parte do periostraco, mostrando o aspecto rombo dos espinhos, e a cor branca da porção mineral da concha. Foto de Bill Smith, imagem digital original de David Kirsh.


 

Morfologia

 

Uma característica bastante interessante na concha dos Pyrgophorus é seu polimorfismo, este gênero mostra grande variação nas características da concha, o que já causou grandes confusões no passado, a mesma espécie sendo identificada como mais de uma. Existem dois tipos principais de concha, sendo por isso chamado por alguns de espécie dimórfica: o morfotipo de concha lisa e o morfotipo de concha espinhosa. Na forma lisa, a espécie pode ser idêntica a outros Hydrobiidae, como os Heleobia ou Potamopyrgus. Na forma coroada ou espinhosa, apresenta projeções espinhosas triangulares calcárias que crescem a partir de uma carina na borda superior (ombro) de alguns giros médios da concha, sem incluir a concha embrionária. Os espinhos são ocos e rombos, mas o periostraco escuro se estende no local formando uma extremidade achatada e pontuda. Entre estes dois extremos, há conchas estriadas com esculturas espirais paralelas, desde finas linhas até fortes cordões.

Existe um interessante trabalho com Pyrgophorus platyrachis do sistema de Maracaibo, Venezuela, demostrando que estas variações na concha são influenciadas pela força da correnteza no rio (mais indivíduos espinhosos, e mais alongados, sugerindo que a função dos espinhos não é defesa, mas auxiliar na sustentação do animal na correnteza da água) e quantidade de matéria orgânica (animais maiores, e com maior abertura da concha).

Mede cerca de 2~5 mm, a concha é cônica ou cônica-cilíndrica, com cerca de seis voltas, cor-de-chifre clara. A carena é escura, assim como os espinhos. Suturas rasas mas bem demarcadas, abertura oval-arredondada, perístoma descontínua. O opérculo é córneo, ovalado, pauciespiral e de cor castanho-avermelhada escura. Corpo amarelado com manchas negras, cabeça opaca e negra, tentáculos longos e avermelhados. Olhos também negros, na base dos tentáculos. Probóscide longa, pé truncado anteriormente, estreito e arredondado posteriormente.

            Tradicionalmente é situada na família Hydrobiidae, mas alguns autores defendem que pertencem à família Cochliopidae, baseados em dados anatômicos e moleculares. O número de espécies é desconhecido, existem cerca de 45 espécies descritas, mas provavelmente há extensa sinonímia e somente uma minoria é válida. Para a identificação em nível de espécie, é fundamental a análise da rádula e dos órgãos reprodutores, tanto masculino quanto feminino. A concha é uma característica secundária na taxonomia desta família, já que é bastante variável e polimórfica.

 




Pyrgophorus sp., espécie exótica coletada no Rio Tanninim, Israel. Exemplares vivos na primeira imagem, e conchas das duas morfologias na segunda. Fotos de Oz Rittner.



Distribuição e Habitat

 

A área de ocorrência deste gênero se estende desde o sul dos EUA (Texas e Flórida), Golfo do México, Mar do Caribe, as duas faces da América Central, e norte da América do Sul (Colômbia e Venezuela). É encontrado como espécie exótica no Havaí, Jordânia e Israel.

Ocorre em habitats de água doce e estuarinos, é mais comum em cursos baixos de rios costais, muitas vezes associadas à vegetação aquática, como Chara ou raízes de Pistia stratiotes. Prefere locais com sedimento fino (arenoso fino ou semi-lodoso). Bastante robustos, são encontrados em uma ampla faixa de pH (6,9 a 9,5) e GH (21 a 118º dH). São espécies tropicais, geralmente habitando locais com temperatura entre 29 e 33º C. Podem ser encontrados em ambientes bastante degradados e poluídos.




Pyrgophorus sp., coletados no Rio São Mateus, em São Mateus ES. Fotos de Acauan Cordeiro.


 

Reprodução

 

            São espécies dióicas (sexos separados), ovovivíparas, de desenvolvimento direto. Fêmeas são maiores que machos, com cerca do dobro das suas dimensões. Geram cerca de 50 embriões por ciclo, visíveis à dissecação no seu útero através dos ovos transparentes. Há poucas informações sobre a reprodução propriamente dita.

 

 

 

Bibliografia:

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  • http://www.discoverlife.org/mp/20l?id=FMNH_MOL38215


Agradecimentos especiais ao amigo biólogo Acauan Cordeiro, que descobriu os caramujos exóticos no Espírito Santo, por nos permitir publicar aqui o seu achado, e também mostrar suas fotos. Agradecemos também a colaboração do biólogo israelense Oz Rittner (Tel Aviv Iniversity,  Israel Nature´s Site ) e Bill Frank ( Jacksonville Shell Club ), pelo uso do material fotográfico.  
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