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"Cyanocyclas"  
Artigo publicado em 31/01/2016, última edição em 15/07/2018  


Cyanocyclas brasiliana, fotografado no delta do Rio Paraíba, PI. Extraído da referência 12 (Brito CSF, et al. 2015), licença Creative Commons. Foto de Carla Suzy Freire de Brito.



Cyanocyclas (Neocorbicula)

 

Juntamente com o Mexilhão-dourado, as Corbículas representam um importante grupo de moluscos bivalves invasores, presentes na maioria das bacias hidrográficas brasileiras, e com expressivos impactos ecológicos e econômicos. Porém, uma informação essencial e pouco difundida é que existem espécies de bivalves límnicos nativos da mesma família das Corbículas, que podem ser facilmente confundidas com as espécies invasoras, correndo o risco de serem inadvertidamente destruídas. Este é o tema deste artigo.

 

 



Cyanocyclas cf. paranacensis, coletados no Rio da Lança, em Mafra, SC. O maior exemplar mede cerca de 10 mm. Fotos gentilmente cedidas por Ana Marta Schafaschek.



Identificação e taxonomia

 

Corbículas (Corbicula spp.) pertencem à família Cyrenidae (anteriormente Corbiculidae), e estão presentes no Brasil como importates espécies invasoras. Maiores informações podem ser vistas no artigo específico  aqui .

 

A família Cyrenidae também é representada na América do Sul por dois gêneros nativos, o endêmico Cyanocyclas Blainville, 1818 (previamente Neocorbicula Fischer, 1887), e Polymesoda Rafinesque, 1828. Os Polymesoda ocorrem em águas salobras no Norte do continente, com pouquíssimos registros no Brasil, e não serão abordados aqui. Ambos os gêneros apresentam sifões longos e separados, cuja musculatura basal deixa demarcado na superfície interna das valvas uma pequena reentrância na forma de um sinus palial, o que os distingue das Corbicula.






Dois exemplares de Cyanocyclas limosa, fotos gentilmente cedidas por Jose Liétor Gallego.

 

Mais de 30 espécies de Cyanocyclas são descritas, porém, muitos pesquisadores acreditam que há necessidade de revisão, com prováveis sinonímias. A literatura mais aceita divide as espécies em três grupos, aquelas habitando as bacias do sul do Brasil e dos rios Paraná-Paraguai e Uruguai (C. limosa e C. paranensis), Amazonas (C. amazonica e C. brasiliana, esta última identificada recentemente também no delta do Parnaíba, PI), além de espécies do Norte da América do Sul (fora do território brasileiro). O primeiro grupo inicialmente incluía várias outras espécies que foram consideradas não-válidas. Porém, um trabalho recente do Uruguai usando marcadores genéticos mostrou que são válidas também as espécies C. exquisita, C. fortis e C. guahybensis.

 

            Geralmente medem até 24 mm, mas existem relatos de exemplares maiores de até 35 mm. Lembram bastante as Corbicula, as chaves de identificação baseiam-se nos seguintes achados das conchas para a sua diferenciação:

  • Polymesoda com sinus palial, dentes laterais lisos.
  • Cyanocyclas com sinus palial, dentes laterais serreados, superfície externa não ondulada.
  • Corbicula sem sinus palial, dentes laterais serreados, superfície externa ondulada.



Cyanocyclas limosa, coletado no Rio Uruguay, Gualeguaychú, Entre Rios, Argentina. Fotos gentilmente cedidas por Susana Escobar.


Cyanocyclas paranensis, coletado no Rio de la Plata, Berazategui, Buenos Aires, Argentina. Fotos gentilmente cedidas por Susana Escobar.


 

 

Ciclo de vida

 

Vivem semi-enterrados no substrato, semelhante aos Corbicula, filtrando alimentos da coluna d´água. C. limosa ocorre em locais com profundidades entre um e dois metros. Há registros antigos de até 2500 indivíduos/m2 no RS, mas em declínio devido à competição com os Corbicula. Preferem substratos arenolimosos, mas podem ocorrer também em outros substratos. Quando coexistem com Corbiculas, são mais comuns em fundo lodoso, já que a espécie invasora tem preferência por substratos arenosos.

            Quanto à reprodução, só existem estudos realizados para a espécie Cyanocyclas limosa. A espécie é hermafrodita e incuba os embriões por longos períodos de tempo, liberando-os grandes, e com forma semelhante ao adulto. Considerados euvivíparos (incubação prolongada), no marsúpio são encontradas de 20 a 25 jovens (excepcionalmente até 45) que medem entre 1 e 4,5 mm, sendo que os menores localizam-se na sua porção ventral, junto à borda das demibrânquias, enquanto os maiores são encontradas na sua parte dorsal. O comprimento dos embriões pode chegar a ¼ do comprimento da concha-mãe. Podem coexistir até duas gerações na cavidade palial (talvez até quatro), sendo eliminados aos poucos durante o ano, de forma não-sincronizada. O grande tamanho atingido pelos embriões impossibilita a expulsão dos mesmos através do sifão exalante, via câmara suprabranquial, sendo que sua liberação ocorreria por ruptura das demibrânquias. Uma vez liberados, irão se instalar nas proximidades da concha-mãe.

Esta característica peculiar determina que não ocorra a fase larval livre e, desta forma, os juvenis adotam de imediato a fase bentônica. Tal fator limita a capacidade de dispersão da espécie e restringe sua distribuição espacial. Alguns trabalhos mencionam também uma maior fragilidade destes juvenis, mais lentos e menos ativos do que os Corbicula de igual dimensão, morrendo com facilidade durante o seu transporte entre a coleta e a chegada aos laboratórios, ou quando permanece em recipientes sem circulação, o que não ocorre com os Corbicula.

Há dois picos anuais de reprodução para C. limosa na região do rio la Plata, e também Guaíba, com maior liberação de jovens no verão e inverno. Indivíduos a partir dos 8~9 mm de comprimento podem ser considerados sexualmente maduros.

 

 

 

 

Bibliografia

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Agradecimentos a Carla Suzy Freire de Brito, Ana Marta Schafaschek, Jose Liétor Gallego (Espanha,  El Rincón del Malacólogo ) e Susana Escobar (Argentina, responsável pelo blog Moluscos Dulceacuicolas de Argentina ) por permitir o uso do seu material fotográfico.


As fotografias de Carla Suzy Freire de Brito (extraída da referência 12) e Susana Escobar estão licenciadas sob uma  Licença Creative Commons . As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.
 
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