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Mixomicetos  
Artigo publicado em 30/01/2012, última edição em 28/03/2018  


Mixomicetos

 

Pode causar estranheza a alguns a inclusão de mixomicetos nesta seção de “outros invertebrados”, já que são seres comumente identificados como fungos ou algas. No entanto, na realidade estes seres não são animais, nem plantas, nem fungos, pertencendo a outro reino.

É um dos organismos mais bizarros que podem aparecer nos nossos aquários. Surgem como estruturas planas em forma de uma fina rede ou teia, recobrindo vidros do aquário ou objetos submersos, caminhando muito lentamente sobre estas superfícies.

 


Plasmódio de mixomiceto no vidro do aquário. Imagem cedida por Leandro Souza Araújo.


Taxonomia

 

Nem animais, nem plantas, nem fungos, mas possuindo algumas características semelhantes a estes organismos. Pertencem a um quarto reino totalmente distinto, Amebozoa, o mesmo das amebas. Dentro deste reino, estão classificados no filo Mycetozoa, classe Myxogastria. Reproduzem-se através de esporos como os fungos, mas se movem e ingerem alimentos como animais.

Antigamente eram classificados como fungos, e mesmo hoje, geralmente são estudados por micologistas, sua nomenclatura taxonômica segue aquela utilizada para fungos. São conhecidas cerca de 500 espécies.

Seu nome popular em inglês é “slime mould” (algo como “bolor de gosma”), em português são denominados simplesmente de mixomicetos. Alguns se referem a eles como micetozoários (“animais-fungos”), o que é uma ótima denominação. Uma perfeita definição destes seres bizarros que li uma vez na net (infelizmente não lembro a fonte) é a de “uma ameba gigante que vira um cogumelo para se reproduzir”.

 



Plasmódios de mixomicetos no vidro do aquário. Imagens cedidas por Leandro Souza Araújo.





Um grande plasmódio no vidro de um aquaterrário. Imagens de Walther Ishikawa.


Ciclo de vida

 

São seres cosmopolitas, se alimentando de micro-organismos que vivem em matéria orgânica vegetal em decomposição. Preferem ambientes mais úmidos, sendo comuns em bosques e florestas, sobretudo no solo e sobre troncos. Geralmente são pequenos, mas algumas espécies podem atingir vários metros quadrados. Sua coloração é variável, alguns têm cores vivas, como amarelo e laranja, e existem espécies bioluminescentes.

Nascem de esporos, e iniciam sua existência como organismos unicelulares haplóides, possuindo duas formas intercambiáveis, ameboide e flagelada (célula de enxame). Se o esporo eclodir em um ambiente aquático, será uma célula flagelada. Se for em um local seco, será ameboide. Em condições adversas, as formas ameboides podem secretar uma fina parede e formar um microcisto dormente. As duas formas alimentam-se de bactérias, e se multiplicam por divisão, como fazem as amebas. Se as condições forem favoráveis, estas células haplóides irão se comportar como gametas, fundindo-se e formando células diploides, numa forma bem primitiva de reprodução sexuada. O interessante é que as formas ameboides se fundem somente com células ameboides, e as flageladas, somente com células flageladas.

Os zigotos produzidos por esta via se fundem uns aos outros (singamia), formam um grande massa colonial, os plasmódios, que são organismos multinucleados mas sem membranas celulares dividindo-as, chamada de sincício. Alguns se referem a estas estruturas como “super-célula”, basicamente um grande saco de citoplasma com uma única membrana celular envolvente, contendo milhares de núcleos. Podem atingir metros de extensão, apesar de continuar sendo somente uma única célula. Quando cresce, todos os seus núcleos se dividem simultaneamente.







Dois plasmódios de mixomicetos caminhando pelo vidro do aquário. O horário das fotos está abaixo da terceira foto. Imagens cedidas por Leandro Souza Araújo.

 

É nesta fase de plasmódio que eles podem ser encontrados em aquários. Como uma extensa rede interconectada de ramificações protoplásmicas. Observando estas ramificações em um microscópio, é possível a visualização de um rápido fluxo de protoplasma em vários sentidos, e mudanças rápidas no seu padrão de fluxo, com acelerações, desacelerações e inversões de fluxo. A movimentação do mixomiceto sobre as superfícies (como o vidro do aquário) é conseguida através de um fluxo de citoplasma através das ramificações em um determinado sentido, avançando em formato de leque, com retração no fluxo em sentido oposto. Ou seja, como uma grande ameba, estes seres realmente “caminham” sobre a superfície, ao contrário de uma alga ou fungo crescendo sobre a estrutura, através de divisão celular. Por incrível que pareça, é a mesma célula ramificada que está se "esticando" em alguma direção pelo vidro do aquário.

O plasmódio pode se dividir, formando dois ou mais organismos-filhos. Da mesma forma, quando dois plasmódios geneticamente compatíveis se encontram, eles podem se fundir, formando um organismo maior. À medida que caminha, o mixomiceto se alimenta, fagocitando bactérias, fungos e matéria orgânica que encontra no caminho.

Em condições secas e adversas, o plasmódio pode formar um esclerócio, um estado encistado seco e dormente. Quando o ambiente volta e ficar úmido, o esclerócio absorve umidade, e se torna novamente um plasmódio ativo. Quando o alimento se esgota, o plasmódio migra para fora do substrato (por exemplo, saindo do interior do tronco e se dirigindo para sua superfície) sofrendo uma transformação para o próximo estágio do seu ciclo de vida, se transformando num corpo de frutificação estático. Estes têm um aspecto muito semelhante a um pequeno cogumelo, ou outro fungo. Nos corpos de frutificação (também chamado de esporângio) ocorre a meiose. Liberam os esporos, de onde nascem as amebas, reiniciando o ciclo. Os esporos são muito resistentes, podendo sobreviver décadas até que as condições se tornem novamente adequadas.

 


Um plasmódio de Stemonitis fusca emergindo de um tronco, formando um corpo de frutificação. Imagem de Walther Ishikawa.



Sequência de fotos mostrando um Stemonitis fusca formando um corpo de frutificação. O horário das fotos está indicado. Imagens de Walther Ishikawa.



Esporângio de Stemonitis fusca em um paludário. É o mesmo organismo das fotos anteriores, no dia seguinte das fotos acima. Imagem de Walther Ishikawa.



GIF animado mostrando o crescimento e movimentação de um mixomiceto no solo, fotografado em Ubatuba, SP. Imagens de Walther Ishikawa.



Curiosidades

 

            Os mixomicetos mostram vários comportamentos bem interessantes. Experimentos sugerem que estes organismos possuem uma espécie de “proto-inteligência”, mesmo sem possuírem sistema nervoso, não passando de uma simples massa celular multinucleada:

  • Quando uma massa de plasmódio é dividida em dois, os dois organismos tentam achar algum caminho para se fundirem novamente.
  • Possuem habilidade de aprendizado e de predizerem condições periódicas desfavoráveis em experimentos de laboratório.
  • Conseguem sair de labirintos, procurando comida.
  • Seu padrão de crescimento mostra um "padrão inteligente" de formação de ramos. Alguns trabalhos fizeram mixomicetos crescerem sobre mapas com obstáculos, miniaturas das cidades de Londres e Tóquio. E os organismos cresceram com um padrão idêntico à rede ferroviária destas cidades, “descobrindo” caminhos mais eficazes para conectar pontos-chave destes mapas.
  • Existe até um robô japonês/britânico "comandado" por um mixomiceto!
  • Algumas espécies são comestíveis, a Fuligo é considerada uma iguaria no México.






Mixomicetos sobre uma bromélia, fotografados em Ubatuba, SP. A penúltima imagem mostra corpos de frutificação, e a última cápsulas de esporângios, já sem os esporos. Fotos de Walther Ishikawa.





Dois mixomicetos encontrandos na superfície da água, em um local sem correnteza próximo à cachoeira Cascatinha, em Águas da Prata, SP. Fotos de Walther Ishikawa.



Mixomicetos em aquários

 

Quando surgem em aquários, os mixomicetos não são prejudiciais às plantas ou animais. Não são parasitas, não causam doenças e não produzem toxinas. Entretanto, sua presença é um forte indicador de algum desequilíbrio no aquário, com excesso de matéria orgânica. Algo similar a casos de explosão de populações de vermes, ácaros, ou algas.

Suas aparições em aquários não são muito comuns, desta forma, as informações são escassas. Mas (até onde sei) em todos os casos registrados não houve qualquer tipo de risco para os seres do aquário, e os mixomicetos desapareceram espontaneamente.

 







Mixomicetos que surgiram em um aquário, sobre um tronco. Imagens cedidas por Eduardo Schasko.



Fontes:

  • Wikipedia
  • http://www.newscientist.com/article/dn8718-robot-moved-by-a-slime-moulds-fears.html
  • http://discovermagazine.com/2009/jan/071
  • http://www.abc.net.au/science/news/stories/s189608.htm
  • http://seedmagazine.com/content/article/sentient_slime/


Agradecimentos aos amigos aquaristas Leandro Souza Araújo e Eduardo Schasko pela cessão de fotos para o artigo.


As fotografias de Walther Ishikawa estão licenciadas sob uma  Licença Creative Commons . As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

 
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