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Esponja de Água Doce  
Artigo publicado em 13/02/2012, última edição em 17/01/2014  



Esponjas de Água Doce


Ulisses dos Santos Pinheiro - Departamento de Zoologia – CCB/UFPE

Walther Ishikawa


Características gerais


As esponjas (Filo Porifera) são animais bentônicos sésseis, são os animais multicelulares mais simples existentes, não possuem tecidos típicos ou órgãos, são massas organizadas de células, e estas ainda retêm um alto grau de totipotência (capacidade de diferenciação celular) e independência. Apesar de serem animais capazes de alcançar grande porte, com mais de 1 metro de altura ou recobrir largas áreas de substrato, alguns dos seus processos orgânicos são por vezes mais semelhantes aos encontrados nos Protozoa (animais unicelulares) que nos Metazoa (animais multicelulares). De modo geral as esponjas parecem ser animais bastante estáveis e de vida longa, estimativas baseadas em taxas de crescimento conferem idades acima de 1500 anos a indivíduos de algumas espécies marinhas. Se confirmadas estas estimativas, as esponjas seriam os animais com tempo de vida mais longo do planeta.


Utilizam células flageladas chamadas coanócitos para promover a circulação da água através de um sistema de canais exclusivo do filo, o sistema aquífero, ao redor do qual seu corpo é construído. Esta corrente de água traz partículas orgânicas que são filtradas e digeridas. São sustentadas por um esqueleto mineral formado por espículas ligadas por espongina. Quase todas as esponjas têm espículas silicosas (exceto 3% das espécies marinhas, que têm espículas calcáreas), que não se deterioram depois da morte do animal, por serem vítreas. Quando uma esponja morre, desintegra-se a espongina, ficando as espículas depositadas no sedimento, particularmente em ambientes lênticos. Estas espículas têm alto valor na diagnose das espécies, estudos de sedimentos lacustres, tanto atuais, sub-fósseis ou fósseis permitem avaliar a fauna de esponjas que vivem ou viveram no local.


Conhecidas e utilizadas desde a antiguidade pelos povos primitivos, as esponjas foram incluídas já no primeiro tratado sobre classificação de organismos, escrito em 350 a.C. na Grécia clássica por Aristóteles. Consideradas inicialmente como plantas, sua natureza animal só foi reconhecida no final do século XVIII, quando se observaram as correntes de água no seu corpo.




Esponja de água doce, de um dos aquários de Rony Suzuki. Foto de Cinthia Emerich. A primeira imagem do artigo também é dos seus tanques, veja relato detalhado adiante.


Biodiversidade


Embora freqüentemente encontradas em várias regiões, as esponjas de águas continentais (Espongilíneos - Subordem Spongillina, Ordem Haplosclerida, Classe Demospongiae) constituem uma das faunas menos conhecidas em todo o mundo. Atualmente, de um universo de 8600 espécies de esponjas descritas, apenas 220 são dulciaqüícolas. O Brasil possui cerca de um quarto deste total, com 53 espécies. São relativamente frequentes nos igapós da região amazônica (onde são conhecidas como “Cauixi”), e em pequenas lagoas no Cerrado.


Seu ciclo de vida compreende uma fase sexuada, com larva livre-natante, e outra assexuada, com a formação de gêmulas. As gêmulas são corpos de resistência da esponja, constituídas de uma massa de arqueócitos totipotentes em seu interior, revestida por uma capa de gemoscleras. São encontradas normalmente em esponjas que vivem em ambientes instáveis. No caso das esponjas marinhas, são encontradas em pouquíssimas espécies que vivem em águas sujeitas ao congelamento ou em cavernas marinhas onde ocorre infiltração de água doce. Nas esponjas de águas continentais as gêmulas são encontradas nas espécies que vivem em ambientes suscetíveis a estresses ambientais, tais como dessecação, congelamento, aumento de salinidade entre outros fatores. Quando a esponja é exposta a tais condições, ela rapidamente começa uma produção maciça de gêmulas. As gêmulas podem desempenhar dupla função, sendo utilizadas como estruturas de resistência ou dispersão.


As gêmulas, particularmente de duas famílias (Spongillidae e Metaniidae), têm grande potencial para dispersão, pelo fato de possuírem uma camada interna pneumática e uma capa de gemoscleras completamente revestida por espículas espinadas. A camada pneumática proporciona à gêmula uma maior proteção aos estresses ambientais e uma maior flutuabilidade. Já as gemoscleras espinadas podem fazer com que a gêmula funcione como se fosse um “carrapicho”, ou seja, se um animal estiver no mesmo ambiente que a esponja, ao entrar em contato com esta gêmula, existe a possibilidade dela aderir ao corpo deste animal e só se desprender quando este estiver em outro ambiente aquático. Acredita-se que estas gêmulas possam ser carreadas por ação eólica, ingeridas por peixes, manadas de ungulados ou até mesmo aves limnícolas. Já foi demonstrado que a distribuição de Sanidastra yokotonensis Volkmer-Ribeiro & Watanabe, 1983, restrita a Itália e Japão, coincide com a rota migratória de algumas aves.






Esponja dulcícola, fotografado no Rio Chapecozinho, em São Domingos (SC). Fotos cedidas por Luís Adriano Funez.


Distribuição e Diversidade


Existem seis famílias de esponjas recentes de águas continentais, três gemulíferas e três desprovidas de gêmulas. Estas famílias possuem distribuições bem peculiares.


Começando pelas gemulíferas, a família Spongillidae é a maior de todas, com 117 espécies classificadas em 21 gêneros. É também a mais amplamente distribuída, com padrão cosmopolita, só não sendo encontrada na Antártida. Metaniidae possui 27 espécies e cinco gêneros, também com ampla distribuição, não sendo encontrada apenas na Antártida e na Região Paleártica. Potamolepidae também possui 27 espécies que estão alocadas em seis gêneros, contudo sua distribuição é mais restrita do que a das demais esponjas gemulíferas, ocorrendo apenas nas Regiões Neotropical, Etiópica e Australiana.


As três famílias não gemulíferas possuem uma distribuição bastante restrita de seus gêneros, sendo endêmicos das localidades onde foram descobertos. Não são encontradas no Brasil.


Alguns autores relacionam a distribuição e diversidade destas esponjas com a presença e complexidade da gêmula. Nas famílias Spongillidae e Metaniidae as gêmulas possuem três camadas, sendo a camada externa composta por espículas espinadas e uma camada pneumática intermediária, o que confere as estas esponjas uma maior capacidade de dispersão. Potamolepidae não apresenta espículas espinadas na camada externa de sua gêmula, o que poderia ser a causa de sua distribuição mais restrita que as outras famílias gemulíferas. Já as outras famílias, como não possuem gêmulas, não possuem a capacidade de se dispersar e colonizar ambientes instáveis, ficando restritas aos grandes lagos.



Spongilla sp. na Lagoa de Carapebus, Carapebus, RJ. Foto de Ulisses S. Pinheiro.



Saturnospongilla carvalhoi. A) Espécime sobre pequeno graveto; B, C, D) Gêmulas discóides em detalhe. Fotos de Ulisses S. Pinheiro.



Origem


Um dos assuntos mais interessantes e controversos no estudo das esponjas é a origem das esponjas de águas continentais. Um fato que é consenso é que elas surgiram a partir de esponjas marinhas, entretanto, alguns autores defendem a idéia que esta invasão das águas continentais teria ocorrido várias vezes (origem polifilética), enquanto outros acham que a ela ocorreu uma única vez (origem monofilética).


Pela hipótese monofilética, a invasão de um estoque de esponjas marinhas ocorreu aproximadamente durante o Jurássico (210-140 milhões de anos). Este processo provavelmente ocorreu durante a formação do Atlântico Sul, com o início da separação dos continentes africano e sul-americano. Nesta primeira etapa da separação dos continentes, foi criado um estreito fiorde inundado por águas salobras sujeita a grande variação térmica. Um estoque de esponjas marinhas, possivelmente pertencentes à Ordem Haplosclerida, teria se adaptado a esta salinidade declinante, e em estágios subsequentes, alcançado as águas completamente doces da região austral da América do Sul. A partir daí, as esponjas de água-doce teriam se dispersado pelo resto do mundo, especiando-se em resposta a fenômenos vicariantes diversos, ocorridos nos diferentes continentes e regiões insulares do planeta ao longo dos últimos 100-150 milhões de anos. A descrição de Palaeospongilla chubutensis Ott & Volkheimer, 1972, o mais antigo fóssil das esponjas de águas continentais (aproximadamente 100 milhões de anos) descrito para Patagônia (Argentina), fornece um bom indício para esta hipótese. Todas as esponjas de águas continentais deveriam produzir gêmulas, sendo esta uma condição sinapomórfica do grupo. As três famílias não gemulíferas (Lubomirskiidae, Metschnikowiidae e Malawispongiidae), provavelmente devem ter se adaptado aos ambientes perenes de onde elas foram descritas. Estes lagos relíctos de transgressões marinhas são antigos e extremamente estáveis, o que pode ter resultado na perda da capacidade de produzir gêmulas por parte destas esponjas. Um exemplo é o lago Baikal, que armazena mais de 1/5 de toda água doce do mundo, o que propicia a este ambiente uma grande estabilidade. Esta hipótese monofilética é aceita por vários autores, sendo inclusive adotada por Manconi & Pronzato (2002), quando no Systema Porifera criaram a subordem Spongillina, reunindo todas as famílias de esponjas de águas continentais.


A hipótese polifilética concorda que o Atlântico Sul possa ter sido um ponto de entrada para esta invasão de esponjas marinhas. No entanto ela não acredita na possibilidade que deste único estoque tenham surgido todas as famílias de esponjas de águas continentais. A presença de três famílias não gemulíferas, restritas aos grandes lagos relíctos de transgressões marinhas pode ser explicada por invasão passiva. Com a regressão do nível do mar, uma quantidade enorme de água ficou isolada do resto do mar. Com o passar do tempo ocorreu um gradativo processo de dessalinização destas águas, o que proporcionou que as esponjas fossem se adaptando gradativamente à nova condição. Quanto às famílias gemulíferas, as gêmulas encontradas em diferentes famílias podem ser interpretadas como homoplasias. Quase todos os organismos que vivem em águas continentais produzem corpos de resistência, sendo assim, as gêmulas podem ter evoluído independentemente para cada um dos grupos como uma convergência adaptativa. A morfologia espicular encontrada nas espécies destas famílias de esponjas de águas continentais parece ser mais semelhante àquela observada em algumas famílias marinhas do que entre as a observada quando as famílias de esponjas de águas continentais são comparadas entre si. Volkmer-Ribeiro (1990) acredita que estas famílias têm relações filogenéticas com ordens diferentes, sendo Spongillidae mais relacionadas com Haploclerida, e Metaniidae com Poescilosclerida.




Corvospogilla seckti coletada no Rio de Contas, Manuel Vitorino (BA). A) Esponjas sobre tronco (cinza mais escuro); B) Gêmulas em maior aumento. Fotos de Ulisses S. Pinheiro.



Espongiose


Espongiose se refere a acidentes com esponjas que normalmente causam inflamações no tegumento atingido. Um dos indícios da espongiose é a coceira, além de forte reação alérgica, a qual pode requerer cuidados médicos urgentes. Isto normalmente ocorre por que as esponjas, ao morrerem, têm seu colágeno completamente decomposto, liberando para o ambiente todo seu esqueleto silicoso que é composto por espículas. Estas espículas penetram no tegumento causando as inflamações. Segundo Machado (1947), os Carajás (uma das tribos indígenas amazônicas) usavam espículas de esponjas de água doce para fabricar cerâmica. Esse autor descreve que “os indígenas pulverizam espongiários, calcinados previamente ou não, e adicionam à argila com que fabricam peças de sua cerâmica”. As mãos das oleiras indígenas que trabalhavam com cauxí (argila mista com espículas de esponjas) possuíam dermatite purulenta. Hilbert (1955) chama a atenção para a preferência dos caboclos pelo caripé (argila mista com cinzas de tecidos vegetais pertencentes a licania, uma rosácea) ao invés do cauxí. Os motivos por essa escolha estavam relacionados com os inchamentos das mãos causadas pelo cauxí e, ainda, porque os utensílios de cozinha fabricados com esse material causavam desarranjos estomacais.



Espículas de Drulia browni sob microscopia óptica. Note seu aspecto vítreo. Foto de Paul Lenhard.




Imagem em close mostrando a macroestrutura de Drulia sp. Localmente são chamados de "cupim d´água". Foto de Isabella Capistrano.


Um dos casos de espongiose mais recente foi o surto de dermatites e cegueiras ocorrido em Araguatins (Tocantins) em 2006. Sua população, ao entrar em contato com a água do rio da região, sofria de vários casos de dermatite e cegueiras. O fato curioso é que estes acidentes só ocorriam na época de águas baixas, não ocorrendo sintomas na época da cheia. Após uma ampla investigação científica, Volkmer-Ribeiro et al. (2006) concluíram que tais lesões eram causadas por duas espécies de esponjas, Drulia uruguayensis Drulia ctenosclera, que ao morrerem liberam na coluna d’água muitas espículas, sendo a gemosclera o principal agente causador de acidentes oculares e dermatites. No caso de Araguatins tal acumulo de espículas foi consequência de alterações antrópicas que geraram o desequilíbrio no meio.



Drulia sp., fotografada no Rio Pagodão, afluente do Rio Negro (AM). Foto de Jennifer O. Reynolds.




Drulia browni sobre galhos emersos no Lago Tupé, Manaus, AM. Foto de C.W. Castelo Branco.


Esponjas de água doce são relativamente comuns em lagoas temporárias do cerrado e caatinga, que são conhecidas como “Lagoas da Coceira”, devido à dermatite que suas microespículas causam. Pelo mesmo motivo, estas esponjas são chamadas pela população local de “Pó-de-mico da água”, ou de “Coceira da água”.



Radiospongilla sp. em Visconde de Mauá, RJ. Foto de E. Hajdu.



Esponjas de água doce, vídeo de uma estação de piscicultura da UFRPE, em Recife, PE. A identificação destes espécimes levaram à descrição de uma nova espécie, Radiospongilla inesi. Vídeo cortesia de Ulisses S. Pinheiro.


 

Importância econômica


As esponjas de águas doces produziram depósitos biominerais, denominados espongilitos, constituídos pelo acúmulo de suas espículas silicosas em ambientes previamente lênticos. De forma semelhante ao diatomito, atualmente a importância econômica destas jazidas reside somente na subutilização deste material para a fabricação de tijolos e telhas. Entretanto, este material é adequado para a manufatura de cerâmicas mais nobres, cerâmicas refratárias de alto grau de resistência, por exemplo, para a fabricação de chips de computador, e talvez fibras óticas, além de diversas aplicações potenciais na ciência dos novos materiais e nanociência. Constituem recurso natural não renovável, com grande valor econômico potencial.


Desta forma, alguns autores têm proposto estudos biológicos visando a espongicultura de água doce, dirigida à produção de biosílica, com perspectivas bem interessantes no uso destes animais como fonte de recurso biomineral renovável.


Além disso, as esponjas produzem uma grande diversidade de metabólitos secundários, muitos dos quais têm estruturas originais de grande interesse para a farmacologia e a pesquisa biomédica. Esses compostos representam um importante recurso natural, pois podem levar à produção de medicamentos mais eficazes contra o câncer e outras doenças graves, como as causadas por vírus, bactérias ou fungos. As esponjas são um dos grupos de organismos com maior percentagem de espécies produtoras de compostos antibióticos, antitumorais e antivirais.


 



Metania spinata (verde) dominando o substrato rochoso em Lassance, MG. Na segunda foto, em detalhe, a esponja é a mancha verde sobre a rocha. Fotos de N. Hamada.



Esponjas no aquário de água doce:


As informações são praticamente inexistentes, existem somente alguns poucos relatos na internet de manutenção destes animais em aquários, com sucessos e insucessos. Assim como outros animais filtradores, via de regra, não se adaptam às condições de aquários, e desta forma não são indicados para este fim. Esponjas coletadas na natureza e introduzidas em aquários invariavelmente não sobrevivem a longo prazo, existindo ainda, alguns relatos de mortalidade de peixes (veja adiante).


Esponjas dulcícolas têm um alto nível de endemismo, muitas destas espécies são ameaçadas, e de difícil identificação sem uma análise microscópica das suas espículas. Um quarto de todas as espécies continentais brasileiras é incluído na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas do MMA (como curiosidade, a lista brasileira foi a primeira no mundo a incluir esponjas). Desta forma, sugerimos fortemente que estes invertebrados não devam ser coletados na natureza para serem criados em aquários. Abaixo, alguns exemplos de esponjas que constam na lista brasileira, destacamos algumas espécies com aspecto mais incomum:


Oncosclera jewelli (Volkmer, 1963). Conhecida como “Feltro-de-água”, é uma espécie endêmica do manancial do rio Tainhas, e do ecossistema de floresta com araucárias, no Rio Grande do Sul. Vive em rio largo, de fundo rochoso, com águas rápidas, rasas, transparentes e frias, portanto bem oxigenadas. Forma crostas no substrato basáltico contínuo do fundo ou em rochas submersas desagregadas do leito. Essas crostas são lisas, finas, rígidas, contínuas e vão de poucos centímetros a 1,0 m de diâmetro e não mais que 0,5 mm de espessura. Possuem coloração verde quando expostas à luz, por causa da associação com algas fotossintetizantes (zooclorelas), ou são esbranquiçadas, quando ocupam a face inferior dos substratos, sem luminosidade. Faz parte da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas do MMA. Foto de Hope Ginsburg.



Uruguaya corallioides (Bowerbank, 1863). Chamada popularmente de “Coral-de-água-doce”, esta espécie tem ampla distribuição geográfica, ocorre da bacia Amazônica à bacia do Prata (Rios Orinoco, Amazonas, Tapajós, Paraguai, Paraná, Tietê e Uruguai). É um gênero monotípico endêmico do continente sul-americano, vive em ambientes lóticos turbulentos, fixo no fundo rochoso, podendo desenvolver formas arborescentes e coraliformes em maiores profundidades, onde a turbulência é menos intensa (como no Rio Uruguai). A coloração vai de cinza a preta, na face do substrato exposta à luz, e esbranquiçada na face inferior dos substratos. A superfície é lisa, vítrea e marcada pela disposição linear, conspícua, dos orifícios osculares. Faz parte da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas do MMA. Fotos de Gabriel John Bell e Roberto Cadenazzi (Uruguai).



Sterrastrolepis brasiliensis Volkmer-Ribeiro & De Rosa Barbosa, 1978. É uma esponja endêmica da Bacia do Paraná (GO e PR), habitando grandes rios, com águas turbulentas e fundos rochosos. Conhecida popularmente como “Espinho-de-pedra”, esta espécie se fixa preferencialmente na face superior desses substratos, formando crostas extensas e volumosas com cor negra a cinza-azulada, aderida fortemente ao substrato rochoso. Possuem projeções cônicas extremamente duras, ao inadvertidamente pisar nestas esponjas, os banhistas acabam perfurando os pés. Faz parte da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas do MMA. Foto de Ulisses S. Pinheiro.



Porém, raramente, esponjas podem “surgir” em aquários, introduzidos inadvertidamente juntamente com plantas aquáticas ou algum outro elemento. O que fazer para mantê-las vivas? Para tal, vamos tentar compreender os motivos que podem levar estes animais à morte:


  1. Condições físico-químicas inadequadas: esponjas são animais muito sensíveis à qualidade da água, seja seu conteúdo em partículas orgânicas e minerais, poluentes e materiais orgânicos dissolvidos. Elas são, portanto boas indicadoras da qualidade da água, e seu uso como bioindicadores no monitoramento ambiental têm sido recomendados por alguns pesquisadores. Desta forma, condições inadequadas do aquário vão levar rapidamente estes animais à morte. Por outro lado, se surgiram esponjas no seu aquário, este fato é um grande indicador de que seu tanque está em ótimas condições!
  2. Exposição ao ar: Devido à sua estrutura porosa, é extremamente arriscado retirar as esponjas da água. O simples contato com o ar pode ser fatal para estes animais. Bolhas de ar (mesmo microscópicas) podem penetrar nos seus canais internos, ficando retidos, impedindo a circulação adequada de água e levando à morte tecidual regional. Tecidos necróticos e toxinas produzidas localmente podem matar mais células, levando a uma reação em cadeia que pode dizimar toda a esponja. Algumas espécies marinhas de zonas entre-marés produzem grandes quantidades de muco para evitar este fato, mas isto não ocorre nas espécies de água doce.
  3. Alimentação: Já foi dito que esponjas são animais filtradores. Porém, a dimensão das partículas alimentares filtradas por estes animais é muito menor do que outros organismos filtradores, como Moluscos bivalves, Briozoários, Rotíferos coloniais ou Cnidários. Bactérias, microdebris e nanoplâncton são alimentos típicos de esponjas, com uma dimensão menor do que 50 micrômetros (em geral menor que 0,5 micrômetros). E mesmo os preparados industriais para alimentar corais e invertebrados marinhos têm granulometria muito elevada para alimentar esponjas. Ou seja, além das dificuldades em termos de quantidade insuficiente de alimentos, comum a todos os invertebrados filtradores, as esponjas têm o problema adicional da dimensão específica do material particulado que será ofertado. Lembrando também que sedimentos finos (incluindo alimentos de granulometria inadequada) podem ser bastante prejudiciais às esponjas, devido ao entupimento dos poros e impedimento da filtração. É o mesmo motivo pelo qual esponjas são escassas ou ausentes em rios com cargas de sedimentos.
  4. Corrente de água: Embora possuam células flageladas que produzem correntes no seu interior, toda esponja depende de fluxo passivo de água através de sua estrutura, preferindo, portanto locais onde haja correnteza. Este constante fluxo de água traz oxigênio e alimento, e ajuda a remover seus excrementos. A própria arquitetura da esponja é desenvolvida na forma de melhor aproveitar a corrente de água, inclusive a orientação do crescimento do animal. Desta forma, não é recomendável mover a esponjas do local onde ela se desenvolveu, ou fazer modificações no layout que possam alterar o fluxo de água no interior do aquário. Pelo mesmo motivo, deslocar ela para um local de maior fluxo não levará necessariamente a um melhor crescimento, dado que o padrão de fluxo no interior da esponja pode não estar adequado para propiciar um melhor desenvolvimento.
  5. Iluminação: Muitas esponjas adquirem parte dos seus nutrientes de populações internas de algas fotossintéticas (zooxantelas), de forma semelhante a corais marinhos. Por outro lado, um crescimento excessivo de algas sobre elas pode prejudicar seu desenvolvimento. Assim, aqui vale a mesma dica do parágrafo anterior: não mova a esponja do local onde ela se desenvolveu, e tente manter o padrão de iluminação inalterado em relação ao momento que a esponja cresceu naquele local.
  6. Predadores: Muitos peixes e invertebrados se alimentam de esponjas, algumas espécies têm sua dieta exclusiva destes animais, como alguns cascudos amazônicos do reservatório de Itaipú (“Cascudo-chita” - Hypostomus regani e “Cascudo-abacaxi” - Megalancistrus aculeatus) e o Ituí Sternarchogiton porcinum além dos insetos neurópteros da família Sisyridae. Dos animais habitualmente encontrados em aquários, Ampulárias e espécies de Leporinus costumam se alimentar avidamente de esponjas.

 

Finalmente, existe a questão da Espongiose. O único caso bem conhecido de doença em seres humanos foi o episódio de 2006, em Tocantins. Trata-se de um evento cujo gatilho foi a mortalidade em massa destes animais. Toda esponja possui espículas silicosas, e podem causar espongiose, mas a dimensão e morfologia da espícula são determinantes (como a Drulia, no Araguatins). Não há nenhum caso documentado de espongiose em aquários, tanto de água doce quanto salgada. Porém, existem alguns relatos de mortalidade inexplicada de peixes ornamentais após a introdução de esponjas de água doce coletadas, que pode, ao menos potencialmente, ser explicada por Espongiose. Outra possibilidade é a morte destas esponjas gerando picos de compostos nitrogenados.


Nos poucos casos existentes de crescimento de esponjas em aquários (não introduzidas intencionalmente), não parece haver efeitos nos peixes ornamentais, ou qualquer efeito adverso no aquarista, a curto/médio prazo. Porém, nos parece importante ao menos se lembrar da possibilidade de suas espículas poderem ser prejudiciais.



Esponjas de água doce crescendo sobre o molusco invasor "Mexilhão dourado" (Limnoperna fortunei), fotografado no Rio Jacuí, Porto Alegre (RS). Existem algumas pesquisas preliminares sobre o uso de esponjas ara o controle biológico do "Mexilhão zebra" (Dreissena polymorpha), invasor de outros países, que possam ser aplicados também ao "Mexilhão dourado". Fotos de Marcela Uliano.



Dois relatos de manutenção de Esponjas em aquários:


Gilson Suzuki

São animais aquáticos, organismos com estrutura simples. Uma das razões de serem pouco conhecidas no aquarismo é porque são extremamente difíceis de serem mantidas vivas no aquário. Dificilmente conseguiremos criar um ambiente artificial com condições bióticas para mantê-la viva, e caso seja possível, é complexo e extremamente trabalhoso. A alimentação desse metazoário depende de vários fatores. Como é um filtrador, depende de uma movimentação de água que faz com que passe pelos poros que cobrem seu corpo, captando assim os elementos necessários para a sua sobrevivência. As esponjas pouco evoluíram em milhões de anos, isso poderia significar fácil adaptação ao ambiente, mas nota-se que qualquer poluente na água prejudica o seu desenvolvimento. Desenvolvem-se agarradas em pedras, troncos e plantas, sob a forma de uma massa irregular. Sua cor depende das zooclorelas, que são as algas microscópicas das quais elas se associam em simbiose.







Por serem difíceis de criar, não tem valor comercial. Os lojistas não encontram fornecedores. Aqui nos nossos tanques de plantas aquáticas e peixes, vez ou outra aparecem alguns exemplares. Condições climáticas (inverno, secas) e padrões na água são fatores que influenciam seu ciclo e desenvolvimento.











Num caso não muito comum, em um aquário grande que reativamos, surgiu uma esponja de água doce incrustada numa folha de Microsorum pteropus (primeira foto abaixo), sobreviveu por meses, até que em uma das TPAs (troca de água parcial) ela se descolou e assim acabou sendo eliminada. Passado outros meses, eis que surgem uns pequenos pontos num tronco desse mesmo aquário, só que agora num local mais estável (segunda foto abaixo), vou tentar mantê-lo, e ver como se desenvolve.


 



Fernando Barletta


Aficionado por seres aquáticos estranhos, era minha aspiração adquirir e manter hidras, artrópodes aquáticos e outras criaturas de não muito apreço ornamental. Quanto mais pernas e ausências de olhos melhor. E mesmo assim foi de grande surpresa quando descobri essas criaturas em meu tanque.




Esponjas de água doce no aquário, aderidas a uma folha de Vallisneria. Fotos de Fernando Barletta.



O aquário comunitário onde surgiram as esponjas. Foto de Fernando Barletta.


Peço perdão, mas estaria contradizendo enormemente o Sr. Suzuki. A verdade é que, segundo o meu arquivo, há pelo menos 2 anos que possuo esponjas em meu tanque sem muitos cuidados extravagantes. E atualmente ao que parece se adaptaram bem e estão se reproduzindo. Inicialmente apareceu uma esponja em meu tanque de 200 litros com Acarás-Bandeira, num tronco. Em outro instante achei outra numa folha de Microsorum pteropus. E, na ultima contagem, há pelo menos 15 animais.




Outras esponjas do mesmo aquário, aderidas a folhas de Microsorum, e na segunda foto, envolvendo também raízes de uma alface d´água. Fotos de Fernando Barletta.


Os parâmetros da água pouco mudaram e depois da minha descoberta e faço questão de não criar nenhuma alteração drástica: tenho um plantado low-tech, pH 6.8, 28ºC, com baixos níveis de toxidades, TPAs regulares. Sutil iluminação, 0.3w/l. Há pouco adquiri um canister, e isto contribuiu bastante com a filtragem biológica. Isso porque minha fauna também cresceu. Substitui os Acarás-Bandeiras por killifishes Lamp-eye e guppies Endler. Percebi também que as esponjas preferem áreas do tanque de menor fluxo, mais comumente nas laterais e a poucos centímetros do substrato. A flora se consiste de plantas rústicas como Microsorum pteropus, Echinodorus amazonicus, musgo-de-java, Anubias barteri, Vallisneria e V. nana, Najas indica. Esta última foi adquirida por doação que segundo a fonte veio do Japão. Por mais que esteja enganado, gosto de imaginar o caminho pelo qual a pequena gêmula percorreu até alcançar meu aquário.






Imagens em close, na primeira foto, destacando o ósculo. Na segunda, gêmulas arredondadas também são visíveis. note também as pequenas espículas vítreas em meio ao tecido translúcido. Fotos de Fernando Barletta.



Esponjas de água doce no aquário, note o discreto fluxo de água sendo exalado pelo ósculo (a estrutura em forma de sifão). Vídeo de Fernando Barletta.





GIF animado mostrando a sutil movimentação da região do ósculo. Fotos de Fernando Barletta.


 

Este artigo só foi possível graças à colaboração do Prof. Ulisses dos Santos Pinheiro, Chefe do Departamento de Zoologia, Centro de Ciências Biológicas, Universidade Federal do Pernambuco (UFPE), ao qual somos muito gratos. Prof. Ulisses é autor de boa parte do texto deste artigo, e também serviu de consultor para a seção sobre aquarismo. Prof. Ulisses também compila um banco de dados sobre esponjas de água doce no Brasil, no caso de identificação destes organismos na natureza, solicitamos, por favor, que entrem em contato com ele através do e-mail  uspinheiro@hotmail.com 

 

Agradecemos especiais também ao aquarista e fotógrafo (Centro de Documentação Histórica da UNESP) Fernando Barletta, que compartilhou conosco sua experiência na manutenção destes seres, e cedeu um vídeo e fotos espetaculares. Outra colaboração indispensável foi de Rony Sukuki, que permitiu a publicação do seu artigo no nosso portal. Este e outras ótimas matérias podem ser vistas no seu site,  Aquasuzuki . A autor autoria deste artigo é do irmão de Rony, Gilson Suzuki, o qual  também somos muito gratos.

Diversos outros colegas cederam fotos para o artigo, destacamos os biólogos Luís Adriano Funez, Roberto Cadenazzi (Uruguai), Marcela Uliano, Paul Lenhard, Isabella Capistrano Cunha Soares, a artista plástica norte-americana Hope Ginsburg (que realizou uma expedição para fotografar Oncosclera jeweleri como referência e inspiração para uma de suas obras, para a 9ª Bienal do Mercosul), e os colegas Gabriel John Bell (Uruguai) e Jennifer Reynolds (EUA). Muito obrigado a todos!

 

 

Bibliografia:

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  • Volkmer-Ribeiro C (1999) Esponjas. In: Joly C A, Bicudo CE de M. Biodiversidade do Estado de São Paulo; síntese do conhecimento do final do século XX, 4: Invertebrados de água doce. FAPESP São Paulo: p1-9.
  • Manconi R, Pronzato R (2007) Gemmules as a key structure for the adaptive radiation of freshwater sponges: a morpho-functional and biogeographical study. In Custódio MR, Lôbo-Hajdu G, Hajdu E, Muricy G (eds). Porifera research: biodiversity, innovation and sustainability. Série Livros 28. Museu Nacional, Rio de Janeiro.
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