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Hemípteros aquáticos  
Artigo publicado em 02/09/2012, última edição em 10/12/2017  


Hemípteros aquáticos


Os hemípteros constituem o maior e mais bem-sucedido grupo de insetos Paurometábolos (com metamorfose incompleta, antigo Hemimetábolo), ou seja, cujos filhotes são miniaturas sem asas dos adultos, sua metamorfose não envolve o estágio de pupa. Existem pelo menos 80.000 espécies catalogadas, e o traço em comum destes animais é o fato de possuírem peças bucais adaptadas para sucção, como uma agulha hipodérmica.


Gerre Rheumatobates crassifemur crassifemur macho, junto a um Barqueiro notonectídeo MartaregaNote o dorso de cor clara do barqueiro, uma adaptação mimética, já que estes animais nadam com o dorso para baixo. Foto de Walther Ishikawa.



Os hemípteros incluem também as cigarras, cigarrinhas e pulgões, mas as espécies aquáticas pertencem somente à sub-ordem dos heterópteros (seu nome vem do fato das asas anteriores terem uma porção mais espessa e dura, e uma porção mais delgada, denominadas de “hemi-elitra”), chamados popularmente de “percevejos”, um grupo que inclui também o barbeiro e várias espécies herbívoras, como a “maria-fedida”. Por este motivo, alguns autores preferem se referir a estes insetos aquáticos como “heterópteros aquáticos”. Há cerca de 5000 espécies aquáticas e semi-aquáticas conhecidas no mundo, 480 no Brasil.




Louva-a-deus d´água, Ranatra sp., coletado em Vinhedo, SP. Foto de Walther Ishikawa.



Pequeno Naucorídeo em um aquaterrário. Foto de Walther Ishikawa.




Gerre, Limnogonus aduncus, fotografado em Vinhedo, SP. Dois machos e uma fêmea, todos ápteros. Fotos de Walther Ishikawa.


Gelastocorídeo, Nerthra sp., uma espécie semi-aquática. Foto de Walther Ishikawa.




Pequena Barata d´água (1,8 cm), coletado em Vinhedo, SP. O inseto foi coletado como ninfa, visível na primeira foto. Note o grande bolsão de ar na região abdominal, onde ele leva seu suprimento, enquanto não tem asas. A Barata fez uma ecdise no aquário, na segunda foto ele pode ser visto pouco após a ecdise, já com asas, mas ainda com a cor leitosa. Na terceira foto, a exúvia. Fotos de Walther Ishikawa.


Um grupo de Louva-a-deus d´água, Ranatra sp. Note como os filhotes são miniaturas dos adultos. O "graveto" no centro da foto é o abdomen do inseto maior. Foto de Walther Ishikawa.



Quase todas as espécies aquáticas são carnívoras, com pernas anteriores adaptadas na forma de garras curvas, se alimentando de insetos e outros pequenos invertebrados. Espécies maiores predam vertebrados, principalmente peixes e anfíbios, mas existem registros de grandes Baratas d´água se alimentando até de pequenas cobras e tartarugas. A única exceção é o Barqueiro corixídeo (e alguns Notonectídeos) que são quase todos herbívoros ou detritófagos.


A sua introdução acidental em aquários é muito raro, mas quando acontece, é mais prudente retirá-los o quanto antes.



Velídeo, espécie desconhecida, cerca de 3 mm, no momento em que salta sobre um mosquito. Fotografado em Vinhedo, SP, foto de Walther Ishikawa.



Forma áptera de um Gerre macho, provável Limnogonus aduncus, junto a diminutos velídeos (talvez Microvelia), fotografados em Barra Bonita, SP. Ambos alimentam-se de insetos na superfície da água. Foto de Walther Ishikawa.



Limnogonus aduncus predando uma Efêmera, fotografados em Vinhedo, SP. Foto de Walther Ishikawa.



A maioria dos hemípteros aquáticos são ferozes predadores. Aqui, uma ninfa de Barata d´água predando uma ninfa de Louva-a-deus d´água. Fotos de Walther Ishikawa.



Pequena Barata d´água, se alimentando de uma ninfa de Efêmera. Foto de Walther Ishikawa.



Muitos destes hemípteros predadores podem infligir picadas dolorosas a seres humanos, como os Notonectídeos, por isso chamados de "Wasserbienen" (abelhas d´água) na Alemanha. As Baratas d´água são chamadas de “toe-biters” (picadoras dos dedos dos  pés) em inglês, e Pica-dedo em algumas regiões do país. O dano é proporcional ao tamanho do animal e tempo de picada, em raros casos, pode haver lesão tecidual, devido às enzimas proteolíticas.


Muitos podem voar, procurando outros corpos d´água quando as condições não são adequadas, geralmente à noite. São atraídos por luzes à noite, os Belostomatídeos são chamados de Electric Light Bug por este motivo.





Close na cabeça de uma pequena Barata d´água, são vorazes predadores, note o primeiro par de pernas adaptado na forma de garras. Foto de Walther Ishikawa.


Barqueiros notonectídeos, estes pequenos insetos podem causar uma picada bastante dolorosa. Fotos de Walther Ishikawa.



Close na cabeça de um Louva-a-deus d´água, Ranatra sp., mostrando sua boca sugadora. Foto de Walther Ishikawa.



Geralmente os ovos são depositados em plantas e outros objetos submersos. Mas muitas espécies de Baratas d´água menores depositam ovos na região dorsal dos machos. E um Corixídeo deposita seus ovos em lagostins, sendo considerada uma praga por criadores.






Barata d´água, macho com os ovos na região dorsal. Na terceira imagem também é visível uma pequena ninfa. Fotos de Walther Ishikawa.








Casais de Gerre Limnogonus aduncus durante cópula, fotografados em Vinhedo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.



Barqueiro corixídeo, um dos heterópteros aquáticos que produzem sons. São usados como alimento em algumas regiões do mundo. Foto de Walther Ishikawa.



Como última curiosidade, muitos destes insetos são servidos como alimentos humanos em alguns países. No México, os Barqueiros corixídeos (e uma espécie de notonectídeo) são chamados de Axayacatl (nome do sexto rei asteca, uma variação, Axaxayactl pode ser traduzido como "mutuca d´água"), diversos pratos são preparados com o inseto, e principalmente com seus ovos, que são conhecidos como Ahuatle (literalmente "semente d´água", chamados por alguns de "caviar asteca"). Talvez o caso mais conhecido seja das Baratas d´água gigantes, bem populares em países asiáticos, em especial na China e Tailândia, onde é considerada uma iguaria. São pescados usando armadilhas com luz negra, para atraí-los.




Ahuatle, ovos de Barqueiros corixídeos, considerada uma iguaria no México. A barra de referência tem 2 mm. Imagem gentilmente cedida por Juan Manuel Vanegas-Rico.






Insetos vendidos como alimentos em um mercado em Chatuchak, Bangkok, Tailândia. Na segunda foto, Baratas d´água. Fotos gentilmente cedidas por Ernie Cooper.





1. Infraordem Nepomorpha


São os Hemípteros verdadeiramente aquáticos, habitando o fundo ou a coluna d´água. Morfologicamente, distinguem-se por terem antenas curtas, inseridas abaixo dos olhos, em geral não sendo facilmente visíveis. Não possuem o corpo aveludado, olhos compostos geralmente muito grandes, e frequentemente possuem as pernas anteriores raptoriais.



Belostomatidae


Os representantes desta família são conhecidos como Baratas d´água (obviamente sem relação com estes insetos), alguns de grandes dimensões como o Lethocerus grandis, podendo ultrapassar 10 cm. Também são chamados de Arauembóia e Bota-mesa. Possuem corpo achatado e de forma elíptica, pernas anteriores adaptados para caça na forma de grandes garras. Pernas posteriores achatadas e franjadas, com forma de remos. Filogeneticamente forma um grupo irmão com os Nepidae, compartilhando um sifão respiratório na extremidade do seu abdômen, emergindo somente a sua extremidade para renovar o suprimento de ar



Barata d´água gigante, Lethocerus grandis, fotografado em Abaetetuba, PA. O inseto mede cerca de 10,5 cm de comprimento. Foto gentilmente cedida por Rui Oliveira Santos.



Barata d´água gigante, Lethocerus sp. fotografado na Praia da Costa, Vila Velha, ES. Fotos de André Souza Pellanda.






Baratas d´água Belostoma sp., coletados em Vinhedo, SP. Na primeira imagem, um macho com ovos nas costas. Fotos de Walther Ishikawa.







Belostoma
sp., fotografado em Valinhos, SP. Fotos de Walther Ishikawa.




Ninfas de Belostoma sp., fotografadas em um lago de Foz do Iguaçu, PR. Note como elas têm um comportamento gregário quando jovens. Na segunda foto pode ser vista também uma massa de ovos de quironomídeos sobre o tronco. Fotos de Walther Ishikawa.



Nepidae


São os Escorpiões d´água (subfamília Nepinae) e Louva-a-deus d´água (subfamília Ranatrinae), com seu corpo alongado, achatado ou tubular, medindo até 45 mm. Apresentam um sifão caudal respiratório, não-retrátil, que pode ser tão longo quanto o corpo do animal. Lembram os Belostomatidae, seu grupo irmão, também com pernas anteriores raptoriais, pernas posteriores natatórias, e modo de vida similar. Alguns Nepídeos possuem a região dorsal do abdômen com coloração avermelhada, facilmente visível quando estão voando. Os Ranatrinae são também chamados popularmente de Bicho-pau d´água, ou Alfaiate em algumas regiões.



Louva-a-deus d´água repousando sobre uma planta aquática, em uma pequena lagoa catarinense. Imagem gentilmente cedida por Luís Adriano Funez.





Louva-a-deus d´água, Ranatra sp., coletado em Vinhedo, SP. O inseto maior mede 5 cm. Fotos de Walther Ishikawa.






Escorpião d´água, Curicta sp., fotografados em Boituva, SP, e Camaçari, BA. Fotos gentilmente cedidas por Maurício Carrilho e Alison Morais.





Curicta
 sp., fotografado em um lago em Quinta da Boa Vista, RJ.
Foto de Antonio Carlos dos Santos.



Gelastocoridae


São chamados em inglês de Toad-bugs (Bicho-sapo), devido ao corpo rugoso, olhos proeminentes e capacidade de saltar. Vivem em ambientes marginais, geralmente muito bem camuflados. A família é formada por duas subfamílias, cada uma com somente um gênero conhecido: Nerthrinae (gênero Nerthra) e Gelastocorinae (gênero Gelastocoris). Também possuem pernas anteriores raptoriais, caçando pequenos invertebrados, porém, são maus nadadores. Gelastocorinae podem ser encontrados em locais secos, a longas distâncias da água. Resistentes, há registros de Nerthra fuscipes vivendo em águas termais com temperaturas de até 32o C.



Gelastocorídeos Nerthra sp., fotografados em um bosque em Santa Catarina. Imagens gentilmente cedidas por Luís Adriano Funez.





Gelastocorídeo, Nerthra sp., coletado em Vinhedo, SP, animal com cerca de 10 mm. A última imagem mostra o animal em um paludário. Fotos de Walther Ishikawa.






Gelastocoris sp., fotografados no Rio do Peixe, em São Roque de Minas, MG (primeira imagem), e na Represa de Vinhedo, SP (demais). Fotos de Vagner Ramos e Walther Ishikawa.




Naucoridae


De corpo ovóide e achatado, medindo até 20 mm, lembram Belostomatídeos em miniatura. Alguns gêneros são adaptados a viverem em águas com bastante correnteza, com um plastrão permitindo respiração permanente dentro d´água.





Pequeno Naucorídeo coletado em Campinas, SP, provável Pelocoris sp. Nas primeiras fotos, em um aquaterrário. Fotos de Walther Ishikawa.



Naucorídeo coletado em Botucatu, SP, provável Limnocoris sp. Fotos de Walther Ishikawa.




Ochteridae


Conhecido em países com língua inglesa como Velvety Shore Bugs, são pequenos percevejos (até 9 mm) que vivem em áreas marginais, hábitos mais terrestres do que aquáticos. Possuem olhos grandes e proeminentes, e nenhuma adaptação visível aquática. 




Ochterus eurythorax, medindo cerca de 4,3 mm, fotografado em Buckland, Tasmania. Foto de Tony, Licença Creative Commons. O arquivo original pode ser visto  aqui .




Helotrephidae


Diminutos percevejos (até 4 mm) globosos que vivem em áreas marginais de locais com correnteza. Sua cabeça é fundida com o tórax (pronoto), chamada de cefalonoto.


Helotrephes semiglobosus, exemplar do acervo do Museu Sueco de História Natural, Licença Creative Commons.




Pleidae


Também são diminutos e globosos (até 3 mm), lembrando os Helotrephidae, mas vivem submersos em meio à vegetação. Os menores Nepomorpha pertencem a esta família.








Plea minutissima
, alimentando-se de uma pequena Dáfnia, e repondo seu estoque de ar com a extremidade do abdomen na superfície da água. Fotografado em uma lagoa em Almelo, Países Baixos. Fotos de Gerad Visser.




Notonectidae


Chamados popularmente de Barqueiros ou Rema-rema, e de Backswimmers em inglês. Nadam habilmente à meia-água, com o dorso virado para baixo, daí seu nome em inglês, o que diferencia esta família dos Corixídeos. Medem até 15 mm, posseum grandes olhos, pernas anteriores e médias adaptadas para agarrar suas presas, e pernas traseiras bem desenvolvidas e em forma de grandes remos, com longas cerdas. Devido à posição como nadam, possuem o dorso de cor clara, uma adaptação mimética.

Alguns destes insetos têm mecanismos bem sofisticados de submersão e nado, o gênero Anisops tem hemoglobina na sua hemolinfa (fluido corporal correspondente a sangue) das brânquias traqueias abdominais, permitindo a liberação reversa de oxigênio de volta para as bolhas de ar, desta forma modificando sua densidade, e controlando assim a submersão do seu corpo.








Barqueiro notonectídeo, Martarega cf. bentoi, cerca de 10 mm, coletado em Vinhedo, SP. As imagens em close mostram adultos e ninfas, ainda com asas curtas. Note também o aspecto claro do dorso, um recurso mimético. Na última foto, em um aquaterrário. Fotos de Walther Ishikawa.




















Barqueiro notonectídeo, Notonecta cf. sellata, cerca de 13 mm, coletado em Vinhedo, SP, no mesmo lago dos Martarega acima. Nas últimas fotos, junto a uma ninfa de Donzelinha, e um barqueiro Martarega. Fotos de Walther Ishikawa.



Corixidae


Dentre os Nepomorpha, possui o maior número de espécies descrita. Lembram bastante os Notonectidae, mas nadam com o dorso virado para cima. Uma espécie vive a grandes profundidades nos Grandes Lagos norte-americanos, tendo sido coletado a 12 metros de profundidade.


Diferente dos Notonectídeos, somente o primeiro par de pernas é curto, e adaptado para preensão. São bastante flutuadores (em japonês são chamados de Fússen-mushi, bicho-bexiga), as pernas médias são longas, e adaptadas para ancoragem. Pernas posteriores também longas, e adaptadas na forma de remos.


Machos de alguns grupos produzem sons, através de uma estrutura estridulatória nos fêmures anteriores, que é friccionada às laterais da cabeça, as cavidades laterais da cabeça e do protórax funcionando como caixa de ressonância. Recentemente foi noticiado que cientistas franceses e britânicos descobriram que uma diminuta espécie Corixídea européia de somente 2 mm (Micronecta scholtzi) produz o som mais alto dentre todos os animais, de até 99,2 dB (equivalente ao som que uma pessoa ouve ao assistir a uma apresentação de orquestra sentado na primeira fileira de um auditório). Incrédulos, os cientistas checaram várias vezes a calibragem destes aparelhos após o registro.








Barqueiro corixídeo, Heterocorixa sp., cerca de 10 mm, coletado em Monte Verde, MG. Apesar de nesta última imagem ele estar de ponta-cabeça, estes insetos geralmente nadam com o dorso para cima, ao contrário dos Notonectídeos. Note o grande suprimento de ar na sua região ventral. Fotos de Walther Ishikawa.














Corixídeo Tenagobia, encontrados em locais rasos de fundo lodoso, fotografados no fundo de um riacho, tributário do Rio Negro, em Manaus, AM (primeira foto). e em Nazaré Paulista, SP (demais). Este gênero é encontrado em locais de água turva, sem vegetação, e medem poucos milímetros. Fotos de Walther Ishikawa.



Pequeno Barqueiro corixídeo Heterocorixa, fotografado em Poços de Caldas, MG. Fotos de Walther Ishikawa.



Veja a segunda parte do artigo, incluindo a bibliografia e créditos fotográficos,  aqui .
 
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