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Anfípodes cavernícolas  
artigo publicado em 30/03/2015  




Anfípodes cavernícolas


Dentre os invertebrados cavernícolas, os Anfípodes representam um grupo bastante expressivo, com uma variedade muito grande nas cavernas de todo o mundo. No Brasil, existem cinco gêneros registrados, pertencentes a quatro famílias distintas: Spelaeogammarus e Megagidiella (família Artesiidae), Potiberaba (família Mesogammaridae), Seborgia (família Seborgiidae) e Hyalella (família Hyalellidae).


Os quatro primeiros são estritamente cavernícolas, mas o gênero Hyalella também pode ser encontrado fora destes ambientes (veja um artigo sobre os Hyalella epígeos  aqui ).

 


Spelaeogammarus


Explorações de cavernas no estado da Bahia na década de 70 levaram à descoberta de um novo gênero de anfípodes cavernícolas, batizada de Spelaeogammarus, sendo a primeira descrição destes animais no país. A primeira espécie descrita foi S. bahiensis da Silva Brum, 1975, em uma caverna próxima de Curaçá, capital de Matamuté. Desde então, novas espécies têm sido descritas, a mais recente em 2014, totalizando cinco espécies, todas de cavernas distribuídas linearmente por uma distância de 1200 km na Bahia, mas cada uma em sistemas cársticos descontínuos e isolados.


Todas mostram traços troglomórficos acentuados, com ausência de olhos e apêndices longos. Curiosamente, havia variação na coloração das diversas espécies, S. spinilacertus e S. trajanoae com cor cinza-amarelado, S. bahiensis marrom escuro, S. santanensis e S. titan esbranquiçados e quase transparentes. S. titan é a maior espécie, medindo 18,3 mm. S. santanensis mede 13,6 mm, e as demais medem cerca de 11 mm.

 


Megagidiella


Megagidiella azul Koenemann & Holsinger, 1999 é o outro Anfípode cavernícola da família Artesiidae que ocorre no Brasil. Trata-se de um novo gênero e nova espécie descoberta inicialmente em uma região profunda da Gruta do Lago Azul (daí seu nome), noroeste de Bonito, no estado do Mato Grosso do Sul. Depois, a espécie foi identificada também em outras cavernas adjacentes de Bonito, como a Gruta do Mimoso. É um anfípode relativamente grande, atingindo 16,2 mm.


Neste mesmo lago ocorre o Potiicoara brasiliensis Pires, 1987, um pequeno crustáceo cavernícola da ordem Spelaeogriphacea.

 


Potiberaba e Seborgia


Em 2013, dois novos gêneros de anfípodes cavernícolas foram descobertos no Rio Grande do Norte. Potiberaba porakuara Fišer, Zagmajster & Ferreira, 2013 (novo gênero da família Mesogammaridae, mede 3,5 mm) foi coletada na Caverna Três Lagos, em Felipe Guerra. E Seborgia potiguar Fišer, Zagmajster & Ferreira, 2013 (primeira espécie brasileira da família Seborgiidae, mede 1,5 mm) foi coletada na Caverna da Água, em Governador Dix-Sept Rosado.

 


Hyalella


Fora das cavernas, os Hyalella são os únicos anfípodes de água doce que ocorrem no Brasil. Seis espécies cavernícolas brasileiras são conhecidas, algumas delas de descrição bastante recente (2014).


            Hyalella caeca Pereira, 1989 foi a primeira espécie troglóbia descrita, é encontrada apenas na Gruta Tobias de Baixo, uma das cavernas do município de Iporanga (SP), no PETAR. É uma espécie pequena (6 mm), sem olhos. Constava no “Livro Vermelho” do Ministério do Meio Ambiente e IBAMA como Vulnerável na sua versão de 2002, era o único crustáceo não-decápodo desta lista, mas foi retirado da lista na sua atualização de 2014. Na atual lista, nenhum anfípode cavernícola é mencionado, possivelmente por algum equívoco. Para maiores informações sobre crustáceos cavernícolas, veja o artigo  aqui .


            Do mesmo sistema de cavernas, foi descrita recentemente a Hyalella epikarstica Rodrigues & Bueno, 2014, coletada na caverna Areias de Cima, também em Iporanga (SP). Mede 4 mm, e também não possui olhos. Porém, diferentemente da H. caeca, lótica, esta espécie habita o epicarste, definida como a interface heterogênea entre o material não-consolidado (solo, sedimentos) que está parcialmente saturado com água. No caso da caverna em questão, os espécimes só foram coletados após intensa chuva, em poças temporárias formadas pela lavagem destes habitats epicársticos em fendas de rochas que foram percolados. Ou seja, habitam compartimentos encharcados “acima do nível da água” das cavernas.


            Ainda de São Paulo, existe o Hyalella spelaea Bueno & Cardoso, 2011. Coletada na Gruta da Toca, em Itirapina (SP), mede 4,4 mm. Ao contrário das espécies anteriores, possui olhos, embora reduzidos.


            Em 2014 foram descritas mais duas espécies, em outros estados: Hyalella veredae Cardoso & Bueno, 2014, da Caverna Vereda da Palha, uma caverna calcária em Presidente Olegário (Minas Gerais). Mede 5 mm, e tem olhos reduzidos ou ausentes. A Hyalella formosa Cardoso & Bueno, 2014 foi coletada na Caverna Andorinhas, uma caverna arenítica em Ponta Grossa (Paraná). Mede 6 mm.


            Hyalella imbya Rodrigues & Bueno, 2012 é uma pequena (5mm) e interessante espécie encontrada em Roque Gonzales, no Rio Grande do Sul. Diferente das demais, não ocorre em cavernas, mas em ambientes hipotelminorreicos (zonas subterrâneas rasas e superficiais alimentadas por lençóis freáticos). Foi coletada em áreas alagadas da região, um local bastante impactado por ação antrópica, ameaçando os animais altamente especializados que habitam estes ambientes.







Spelaeogammarus titan, exemplares fotografados em Bom Jesus da Lapa, BA. Fotos gentilmente cedidas por Léo Ramos / PesquisaFapesp.



Hyalella imbya, exemplar macho fotografado em Roque Gonzales, RS. Foto extraída de Rodrigues SG, et al. 2012. Licença Creative Commons.



Provável Bogidiella sarawacensis, fotografado no Upper Level Meander, Deer Cave, Parque Nacional Gunung Mulu, em Sarawak, Malásia. Foto gentilmente cedida por Alan Cressler.


 

Bibliografia:

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  • Koenemann S, Holsinger JR. (2000) Revision of the subterranean amphipod genus Spelaeogammarus (Bogidiellidae) from Brazil, including descriptions of three new species and considerations of their phylogeny and biogeography. Proc. Biol. Soc. Wash, 113 (1), 104–123.
  • Senna AR, Andrade LF, Castelo-Branco LP, Ferreira RL. Spelaeogammarus titan, a new troglobitic amphipod from Brazil (Amphipoda: Bogidielloidea: Artesiidae). Zootaxa. 2014 Nov 21;3887(1):55-67.
  • Koenemann S, Holsinger JR. 1999. Megagidiella azul a new genus and species of a cavernicolous amphipod crustacean (Bogidiellidae) from Brazil, with remarks on its biogeo-graphic and phylogenetic relationships. Proc. Biol. Soc. Wash. 112: 572-580.
  • Rodrigues SG, Bueno AAP, Ferreira RL. (2012) The first hypothelminorheic Crustacea (Amphipoda, Dogielinotidae, Hyalella) from South America. ZooKeys, 236, 65–80.
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  • Rodrigues SG, De Pádua Bueno AA, Ferreira RL. A new troglobiotic species of Hyalella (Crustacea, Amphipoda, Hyalellidae) with a taxonomic key for the Brazilian species. Zootaxa. 2014 Jun 13;(3815):200-14.
  • Cardoso, G.M., Bueno, A.A.P & Ferreira, R.L. (2011) A new troglobiotic species of Hyalella (Crustacea, Amphipoda, Dogielinotidae) from Southeastern Brazil. Nauplius, 19 (1), 17–26.
  • Fišer C, Zagmajster M, Ferreira RL. (2013) Two new Amphipod families recorded in South America shed light on an old biogeographical enigma. Systematics and Biodiversity 11: 1–23.

 




Agradecimentos especiais aos fotógrafos Alan Cressler (EUA) e Leonardo Ramos Chaves (Pesquisa Fapesp) pela permissão do uso das suas fotos.


A fotografia do Hyalella imbya, de Rodrigues SG e cols. (2012, sexta referência) está licenciada sob uma  Licença Creative Commons . As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.

 
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