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Neuroptéridos  
Artigo publicado em 08/08/2015, última atualização em 27/01/2018  




Superordem Neuropterida



A superordem Neuropterida representa o grupo mais primitivo de insetos holometábolos, eram os insetos previamente classificados todos na ordem Neuroptera, mas que hoje são divididos em três ordens distintas, Megaloptera, Neuroptera e Raphidioptera, somente a última não possui representantes no Brasil, e suas larvas são terrestres. As duas outras têm larvas aquáticas ou semi-aquáticas (todos os Megaloptera, e raros Neuroptera), e serão abordados neste artigo. Somente as larvas são aquáticas, os estágios de ovo, pupa e adultos são terrestres.

 






Larva de Coridalídeo, Corydalus sp. fotografado em um riacho catarinense. Imagens cedidas por Luís Adriano Funez.



 

Lacraia d´água, Hellgrammite, Julião



São os insetos pertencentes à ordem Megaloptera, família Corydalidae, com grandes larvas aquáticas, no Brasil chamados popularmente de Lacraia d´água, ou pelo nome em inglês, “Hellgrammite” (etimologia incerta, uma hipótese proposta é Hell + Grim + Mite, algo do tipo "Ácaro Ameaçador do Inferno"). Em Minas Gerais estes insetos aquáticos também são chamados de “Julião” e "Diabo-do-córrego", e no Rio de Janeiro de "Lacrau". Alguns chamam os adultos destes insetos de Formiga-Leão, embora  esta denominação seja mais usada para larvas de neurópteros da família Myrmeleontidae.

 

Larva achatada e alongada, acastanhada, pode ter grandes dimensões (até 9 cm). Corpo segmentado, mandíbulas bem desenvolvidas. Seis patas articuladas nos segmentos torácicos, mas os segmentos abdominais têm oito pares de brânquias filamentosas longas laterais, parecidas com penas, além de um par de falsas pernas anais, dando uma aparência semelhante a uma centopéia. Coloração geralmente castanha a parda.







Hellgrammite fotografado no Parque Estadual do Jaraguá, SP. Fotos de Walther Ishikawa.


 

Ovos são postos nas margens de cursos d´água límpidos e bem oxigenados, preferindo ambientes com correnteza, onde as larvas se desenvolvem. Os ovos são depositados em conjunto e recobertos por secreção de coloração branca, que escurece próximo à eclosão. Larvas geralmente são encontradas sobre rochas e troncos. Metamorfose completa, formam pupas em ambiente terrestre, geralmente nas margens dos locais onde as larvas cresceram, de onde emerge o adulto alado. As pupas são bem ativas, com patas funcionais e mandíbulas idem. Permanecem como larvas por alguns anos, mas a vida adulta é extremamente curta, não passa de uma semana. Adultos têm o intestino atrofiado, e não se alimentam.


 







Ovos de Coridalídeos fotografados no Rio Tamanduá, Foz do Iguaçu, PR. Havia uma grande quantidade de ovos (e restos de ovos eclodidos) em folhas de árvores sobre o rio, e em superfícies rochosas, como na ponte sobre o rio. Fotos de Walther Ishikawa.



 

Adultos alados, gênero Corydalus (de longe, o gênero mais comum mo Brasil) com exacerbado dimorfismo sexual, os machos possuem mandíbulas desproporcionalmente grandes, chegando a 2,5 cm (usados em rituais de acasalamento), sendo por isso chamados de “king bug”. Apesar das mandíbulas enormes, machos adultos não possuem força na sua mordida, ao contrário das fêmeas, com pequenas mandíbulas mas mordida bastante potente e dolorosa. Em geral, possuem coloração parda, exceto os do gênero Chloronia, com uma bela coloração amarela. Olhos protuberantes posicionados lateralmente, antena longa e filiforme. Dois pares de asas membranosas grandes, repousam dobradas sobre o abdômen, em forma de telhado.





Casal de Coridalídeos adultos, Corydalus sp., fotografado em Goianá, MG. Na primeira foto, é bem visível o dimorfismo sexual destes insetos, o macho com as mandíbulas desproporcionalmente grandes. Fotos cortesia de Bruno Corrêa Barbosa.



Coridalídeo Chloronia sp., fotografado na Reserva Biológica los Cedros, Equador. Este gênero não apresenta o exuberante dimorfismo sexual dos Corydalus. Foto cortesia de Andreas Kay.








Larva de Corydalus sp. em um riacho em Santa Leopoldina, ES. Fotos e vídeo de Flávio Mendes. A primeira imagem do artigo também é do mesmo animal.




As larvas são vorazes predadores, se alimentam de insetos aquáticos e outros invertebrados, e eventualmente de alevinos e peixes pequenos. Possuem fortes mandíbulas, sua mordida é bastante dolorosa, podendo causar ferimentos cortantes em seres humanos. Possui uma das maiores taxas de crescimento dentre insetos, com aumento na sua biomassa em mais de 1000 vezes da primeira à última forma larvar. Isto se deve à sua capacidade de manter um metabolismo constante mesmo com variações na temperatura ambiental, comparável a animais homeotermos, fato extremamente incomum em um inseto.









Larvas de Coridalídeos fotografados em Águas da Prata, SP. O primeiro junto à cachoeira Cascatinha (Chloronia sp.), e o segundo perto da cachoeira Ponte de Pedra. Na primeira foto pode ser visto também uma ninfa de Efêmera. Fotos de Walther Ishikawa.






Coridalídeo fêmea adulto fotografado em Paraty, RJ. Foto de Walther Ishikawa.




É predado por peixes maiores, por este motivo é um inseto bastante conhecido por pescadores, usados como isca. Nos Estados Unidos, crianças coletam estas larvas como um teste de coragem: introduzindo suas mãos no meio do lodo no fundo do rio, esperando estes animais morder seus dedos, para daí capturá-los.







Larva de Sialis lutaria, foto de André Karwath (Wikimedia Commons).


 

 

Sialídeos, Alderfly



Também fazendo parte da ordem Megaloptera, a família Sialidae também tem larvas aquáticas que lembram os Corydalidae, mas com menores dimensões. Outras diferenças são a presença de sete pares de brânquias filamentosas abdominais laterais, e um filamento longo no ápice do abdômen. Preferem locais de remanso ou com pouca correnteza. Diferente de Corydalidae, adultos não apresentam dimorfismo sexual.

 








Larva de Sisyra nikkoana, espécie japonesa, fotos de Yuta Nakase. A segunda imagem em close mostra as peças bucais.



 

 

Neurópteros Espongícolas

 

Alguns insetos aquáticos mantêm associações com Esponjas de Água Doce, são conhecidas três ordens: Neuroptera, Trichoptera e Diptera. Alguns Quironomídeos associados a esponjas podem ser vistas neste  artigo .


 

Neuroptera é uma ordem de pequenos insetos mais conhecida por seus representantes com estratégias caçadoras elaboradas, como as Formigas-Leão, construtoras de armadilhas em formato de funil no solo para capturar formigas. É composta por 17 famílias, e duas destas (Sisyridae e Nevrorthidae) tem larvas com hábitos aquáticos. Nevrorthidae tem distribuição mais restrita, sendo encontrada no Mediterrâneo, Japão, Taiwan e Austrália. Uma terceira família (Osmylidae, 13 espécies sul-americanas) também tem larvas aquáticas ou semi-aquáticas, por exemplo, vivendo em musgos marginais e caçando larvas de insetos dentro da água, mas muito pouco se conhece sobre sua biologia.

 

A família Sisyridae contém seis gêneros, dois deles com espécies descritas no Brasil: Climacia (restrito às regiões Neártica e Neotropical) e Sisyra (distribuição mundial). Suas larvas são dependentes de esponjas de água doce, fato no qual resulta seu nome popular em inglês “spongilla flies”.








Larva de Sisyridae encontrada no interior da esponja de água doce Radiospongilla inesi, fotografado no Ribeirão dos Mottas, Guaratinguetá, SP. Fotos de Cláudia Regina da Silva Leite.


 

O acasalamento ocorre ao entardecer, ovos agrupados são depositados recobertos por uma fina camada de seda, sobre a vegetação marginal, a eclosão se dá após uma a duas semanas. As larvas, ao nascerem, buscam ambientes aquáticos, muitas vezes com saltos sucessivos até encontrarem água, e daí procuram esponjas (ou mais raramente briozoários) aonde irão se desenvolver. Ao final do desenvolvimento larvar, o inseto deixa o ambiente aquático e procura um local para empupar, geralmente sobre a vegetação, troncos ou rochas junto às margens. Tecem um casulo de seda composto por duas camadas, e externa com trama mais aberta, em algumas espécies com arquiteturas bastante elaboradas, similar a uma rede de pesca. Demoram até 8 dias para se desenvolverem, e o adulto emerge do casulo. Os insetos adultos se alimentam de néctar, pólen, algas, afídeos e ácaros.

 




Casulo de Sisyridae encontrado próximo ao Rio Shenandoah, em West Virginia, EUA. Fotos de Cheryl Jennings.



Casulo de Sisyridae construído parcialmente sobre uma exúvia de Odonata, fotografado na Amazônia. As setas indicam as duas camadas de seda do casulo. Foto de Neusa Hamada (INPA), extraída de Hamada N, et al. 2014 (terceira referência da Bibliografia).

 


As larvas medem cerca de 4 mm, tem corpo mole e fusiforme. Coloração variável, a depender da sua dieta, do branco, verde a marrom. Possuem estruturais bucais longas e flexíveis, em forma de estilete, mantidas juntas na forma de um tubo, adaptadas para sugar os fluídos das esponjas. Antenas filiformes, três pares de pernas bem desenvolvidas mas delgadas, com uma única garra; tórax e abdômen possuem tubérculos dorsais com inúmeras cerdas. O último segmento abdominal é alongado, e abriga o espinerete por onde é expelida a seda para confecção do casulo. Brânquias abdominais segmentadas e ventrais nos últimos estágios larvais.

 

Os adultos lembram pequenos tricópteros, medindo 6~8 mm, com grandes olhos, antenas longas e filiformes, asas ovais apresentando numerosas veias, pousando com as asas fechadas paralelas ao seu corpo, em formato de tenda.







Sisyra terminalis, fotografado na Bélgica por Gilles San Martin.



Bibliografia:

  • Wade S, Corbin T, McDowell LM. (2004). Critter Catalogue. A guide to the aquatic invertebrates of South Australian inland waters. Waterwatch South Australia.
  • Azevêdo CAS, Hamada N. Ordem Megaloptera. In: Hamada N, Nessimian JL, Querino RB, editors. Insetos aquáticos na Amazônia brasileira: taxonomia, biologia e ecologia. Editora do INPA; Manaus: 2014.
  • Hamada N, Pes AMO, Boldrini R. Ordem Neuroptera. In: Hamada N, Nessimian JL, Querino RB, editors. Insetos aquáticos na Amazônia brasileira: taxonomia, biologia e ecologia. Editora do INPA; Manaus: 2014.
  • Silva M. Diversidade de Neuroptera (Insecta) na Mata do Baú, Barroso, MG. 2012. 79 p. Dissertação (Mestrado em Entomologia)-Universidade Federal de Lavras, Lavras, 2012.
  • Lima AMC. 1943. Neuroptera, p. 73-108. In: Lima AMC. Insetos do Brasil. Rio de Janeiro, Esc. Nacional de Agronomia, v. 4, 141p.
  • Hamada N, Pes AMO, Fusari LM. First record of Sisyridae (Neuroptera) in Rio de Janeiro state, Brazil, with bionomic notes on Sisyra panama. Florida Entomologist, v. 97, p. 281-284, 2014.
  • Penny ND, Flint Jr 0S. 1982. A revision of the Genus Chloronia (Neuroptera: Corydalidae). Smithsonian Contribution Zoological, 348: 1-27.



Agradecemos a Flávio Mendes, aos colegas zoólogos Luís Adriano Funez, Bruno Corrêa Barbosa, Andreas Kay (Equador), Yuta Nakase (Japão) aos fotógrafos Cheryl Jennings (EUA, veja seu blog  aqui ) e Gilles San Martin (Bélgica) pela cessão das fotos para o artigo. Agradecimentos especiais também à Dra. Neusa Hamada (INPA) e à bióloga Cláudia Regina da Silva Leite pela permissão do uso das fotos, e valiosas informações.




As fotografias de Walther Ishikawa e André Karwath estão licenciados sob uma  Licença Creative Commons . As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.
 
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