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Tricópteros e Lepidópteros  
Artigo publicado em 04/01/2016, última edição em 12/09/2018  

Tricópteros e Lepidópteros


 

João-Pedreiro, Tricóptero - Arquitetos aquáticos!

 

Os Tricópteros são fascinantes insetos que surgiram no Triássico e compartilham um ancestral comum com os Lepidópteros (borboletas e mariposas). De fato, os adultos lembram mariposas, mas as larvas são aquáticas, com características bastante peculiares. Compreendem a maior ordem de insetos estritamente aquáticos e constitui a maior proporção da comunidade dos macroinvertebrados bentônicos, com uma fauna mundial próximo de 15.000 espécies descritas para os ecossistemas dulcícolas, além de algumas espécies marinhas, e raríssimas terrestres. São distribuídas em 40 famílias, pouco mais de 600 espécies descritas para o Brasil.


Uma característica diagnóstica dos insetos adultos é a existência de cerdas (pêlos) nas suas asas, em contraposição às escamas de Lepidoptera, seu grupo irmão (seu nome significa “asas peludas” - tricho = cerda; pteron = asa). Os adultos são frequentemente confundidos com mariposas, medindo de 1,5 a 45 mm, com antenas longas e filiformes, e repousando com as asas dobradas sobre o abdômen na forma de telhado. Suas peças bucais possuem palpos bem desenvolvidos, que não formam uma probóscide. Semelhante a estes, a maioria das larvas aquáticas produz seda na região bucal, podendo utilizá-la para construir casulos móveis, em forma de tubos, que envolvem seu corpo e carregam quando se locomovem.






Os Tricópteros são insetos holometábolos (metamorfose completa) que vivem a maior parte de suas vidas submersas, principalmente em locais bastante oxigenados (ambientes lóticos), já que as larvas aquáticas dependem do oxigênio dissolvido para respiração. Tolera algum grau de salinidade, mas é sensível a poluição, sendo excelentes bioindicadores de qualidade da água, existe até um "Índice EPT" (Ephemeroptera, Plecoptera, Trichoptera), com os três grupos mais sensíveis de macroinvertebrados bioindicadores. Larvas têm alimentação bem variável, algumas são detritófagas, outras herbívoras, outras ainda são vorazes predadoras. Cada um destes grupos é altamente especializado nos respectivos tipos de alimentação. A pupa se desenvolve dentro do casulo, e ao final da metamorfose, a própria pupa emerge do casulo, nada até a superfície, onde emerge o inseto adulto. Somete os adultos não são aquáticos, e se alimentam de néctar. Como curiosidade, existe uma família de Tricópteros com larvas marinhas da família Chathamiidae, encontradas na Nova Zelândia e Austrália, que deposita seus ovos numa espécie específica de estrela-do-mar, e passa sua fase de larva dentro do intestino destes animais.




Massa de ovos de Tricópteros, fotografada próximo à cachoeira Ponte de Pedra, em Águas da Prata, SP. Foto de Walther Ishikawa.






Massa de ovos de Tricópteros, já com pequenas larvas no seu interior. Fotos de Vithor Dantas.



Os ovos são depositados na água pelos adultos voadores, agrupados e geralmente envoltos por uma massa gelatinosa, fixo a objetos submersos. Fêmeas de algumas espécies têm pernas expandidas e achatadas, usadas para nadar ao realizar a oviposição.




Tricópteros pouco após sua metamorfose em adulto, uma exúvia também pode ser vista. Fotografada próximo à cachoeira Cascatinha, em Águas da Prata, SP. Foto de Walther Ishikawa.


As larvas são alongadas, segmentadas, lembram um pouco larvas de besouros, e medem até 4,0 cm. Têm os três segmentos bem definidos, cabeça esclerotizada e evidente, peças bucais mastigatórias. Pernas presentes nos três segmentos torácicos, em alguns grupos predadores, a perna anterior é modificada, com tíbia e tarso formando uma pinça; em espécies filtradoras a perna anterior pode apresentar uma escova de cerdas longas. Têm também um par de pró-pernas no segmento final do abdômen.


Embora algumas larvas possam ter anatomia semelhante, podem ser identificadas através do abrigo, com arquiteturas distintas e feitas de materiais altamente específicos. Algumas usam somente seda, outras grãos de areia do substrato, folhas, gravetos, raízes, algas e espículas de esponja, outras ainda conchas de caramujos vazios. Existem também algumas espécies que constroem ninhos fixos, outras ainda usam a seda para tecer teias submersas usadas para filtrar partículas. Poucas espécies tecem abrigos somente para a pupação. Além da função de proteção, o abrigo auxilia na respiração, formando uma cavidade onde a água circula com a movimentação do animal. São chamados em inglês de “Caddisfly”, um nome que vem dos antigos vendedores ambulantes de roupas (“cadice men”) que andavam com pequenas amostras de pano penduradas no seu sobretudo. 


Recentemente os Tricópteros ganharam alguma notoriedade na internet, com artistas norte-americanos fazendo estes insetos construírem abrigos com fragmentos de metais e pedras preciosas, e produzindo jóias com os seus abrigos. Estes insetos são frequentemente mencionados pelo zoólogo Richard Dawkins como exemplo da sua teoria do “Fenótipo Expandido”, já que o padrão dos seus abrigos é determinado geneticamente. A forma e o material empregado na confecção dos seus casulos são específicos de cada espécie, e determinados pela herança genética. Ou seja, informações genéticas se expressam além dos limites do corpo físico do organismo.




Galeria de fotos de diversas larvas de tricópteros amazônicos, mostrando a grande variedade de formas e materiais das suas tocas. No centro da foto pode ser visto um Helicopsyche, e a penúltima imagem mostra um Oecetis (dos gêneros destacados no texto). Fotos cortesia de Dra. Neusa Hamada (INPA).




A ordem Trichoptera está dividida em duas ou três subordens, de acordo com a classificação: Annulipalpia, Integripalpia e Spicipalpia (esta última com famílias de posicionamento filogenético incerto).




Duas larvas de tricópteros, das famílias Hydropsychidae e Hydroptilidae. Foto de Walther Ishikawa



Subordem Annulipalpia: desde os estádios iniciais constroem abrigos tubulares fixos ao substrato. Em algumas famílias (Hydropsychidae e Philopotamidae) acrescentam redes de seda para filtrar partículas. Hydropsychidae também apresenta um comportamento interessante: possuem pequenos territórios submersos bem definidos onde constroem suas redes filtradoras, as larvas comunicam-se e defendem seus territórios através de sons de estridulação produzidos por estrias na porção ventral da cabeça, em atrito com o fêmur da perna dianteira.





Larva de Leptonema sp. (família Hydropsychidae), cerca de 13 mm, coletado em Monte Verde, MG. Este grupo não produz tocas, utiliza sua seda para criar teias e abrigos fixos. Fotos de Walther Ishikawa.








Outro exemplar de Leptonema sp., fotografado em uma pequena cachoeira de beira-de-estrada em Ubatuba, SP. Fotos de Walther Ishikawa.



Abrigo de Annulipalpia, mostrando a rede para captura de partículas. Foto gentilmente cedida por Neusa Hamada (INPA).



Casal de Tricópteros, provável Hydropsychidae em acasalamento (fêmea abaixo), fotografado na Floresta da Tijuca, RJ. Foto gentilmente cedida por Mário Jorge Martins.









Hydropsychidae fotografado no Parque Cantareira, Núcleo Engordador, SP. Fotos de Walther Ishikawa.










Larvas de Synoestropsis sp. (família Hydropsychidae), cerca de 20 mm, fotografados em um riacho no sudeste do Pará. Este gênero produz armadilhas de seda, mas são bastante ativos, frequentemente encontrados fora do seu abrigo, e acredita-se que sejam predadores. Fotos de Carolyne Alecrim.





Larva da família Polycentropodidae, fotografado na Cachoeira do Coqueiro Torto, em Águas da Prata, SP. Esta família constrói abrigos de seda em meio às folhas submersas. Fotos de Walther Ishikawa.




Toca de tricóptero da família Xiphocentronidae. Esta família é semi-aquática, constrói tocas sobre rochas pouco acima do nível da água (zona higropétrica), suas tocas são bem longas e flexíveis, construídas com seda e grãos finos de areia ou matéria orgânica. Fotografado junto à cachoeira Ponte de Pedra, em Águas da Prata, SP. Eram muito numerosas no local, tanto submersas quanto em locais encharcados emersos.
Foto de Walther Ishikawa.



Subordem Integripalpia: são os típicos Tricópteros construtores de abrigos portáteis desde os estágios iniciais. Há uma grande variação nestes abrigos, alguns são bastante específicos, como o Helicopsyche (em forma de caracol, confeccionados com grãos de areia e seda) e Oecetis (pequenos fragmentos vegetais sobrepostos de forma quadrangular, embora possam ter outros padrões), mas deve-se evitar a identificação baseada somente no abrigo, já que algumas espécies utilizam abrigos abandonados de outras espécies, ou têm abrigos similares (Marilia e Oecetis, Nectopsyche e Phylloicus). Larvas do gênero Triplectides são conhecidas por usarem pequenos gravetos que são escavados pela própria larva como abrigos, no entanto, podem utilizar abrigos vazios abandonados por larvas de outros Tricópteros (isto também já foi descrito em Marilia), e até pernas de insetos e camarões.





Larva de Atanatolica sp. (Leptoceridae), exemplar amazônico. Este gênero constrói abrigos de grãos de areia. Foto gentilmente cedida por Neusa Hamada (INPA).




Tricópteros da família Leptoceridae, fotografado no Parque Nacional da Tijuca, Rio de Janeiro, RJ. Foto gentilmente cedida por Roger Rio Dias.






















Larvas de Grumichella sp. (
Leptoceridae), este gênero constrói abrigos de seda escura. Fotografados em córregos da Serra da Cantareira, Núcleo Engordador (São Paulo, SP). A última foto mostra o provável adulto. Fotos de Walther Ishikawa





Larva de Grumicha sp. (Sericostomatidae), todas as fotos cortesia de Jovi Marcos. Coletados num riacho em Penedo, RJ. Este gênero constrói abrigos de seda negra, note a semelhança das tocas com o gênero acima, mostrando como a identificação baseada somente em tocas não é confiável. As fotos mostram também um Fantasma Macrobrachium sp., e um diminuto Melanoides.





Larva de Helicopsyche sp. (Helicopsychidae), fotografado em Poços de Caldas, MG. Alguns destes Tricópteros foram erroneamente classificados como moluscos gastrópodes quando foram descobertos. Insetos coletados em projeto desenvolvido por Mireile Reis dos Santos, no IFSULDEMINAS, Câmpus Poços de Caldas. Créditos fotográficos também de Eloiza Ferreira.






Grupo de pupas da família Glossosomatidae, na cachoeira Cascatinha, em Águas da Prata, SP. Estes tricópteros costumam se empupar formando grandes aglomerações. Seu abrigo é típico, feito com pedregulhos. Fotos de Walther Ishikawa.








Larva de Odontoceridae (Marilia?), medindo cerca de 13 x 4 mm (abrigo), fotografado em um riacho montanhoso (900~1000m) em Chapada, Ouro Preto, MG. Fotos gentilmente cedidas por Alexandro Giovani.













Larva de Triplectides sp. (Sericostomatidae), fotografado no Parque do Jaraguá, SP. Este gênero constrói abrigos escavando gravetos. Eventualmente ocupa abrigos abandonados de outros tricópteros, ou até mesmo pedaços do exoesqueleto de pernas de insetos e camarões. Fotos de Walther Ishikawa.





Outra larva de Triplectides sp.,
fotografada próximo à cachoeira Ponte de Pedra, em Águas da Prata, SP. Foto de Walther Ishikawa.
















Larva de Phylloicus sp. (Calamoceratidae) com seu típico abrigo de folhas, fotografado no Parque do Jaraguá, SP. Fotos de Walther Ishikawa.





Adulto de Phylloicus sp. (Calamoceratidae), talvez da mesma espécie das larvas acima, fotografado no Parque do Jaraguá, SP. Fotos de Walther Ishikawa.



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