INÍCIO ARTIGOS ESPÉCIES GALERIA SOBRE EQUIPE PARCEIROS CONTATO
 
 
    Artigos
 
Bivalves em aquários – dois interessantes artigos
 
Comentários sobre dois interessantes artigos, descrevendo os bivalves como filtros biomecânicos em aquários, e uma alternativa na sua alimentação.


A borda posterior de um Diplodon delodontus, com as aberturas inalante e exalante. Foto de Walther Ishikawa.


Bivalves em Aquários - Dois Interessantes Artigos



Dois grandes grupos de moluscos podem ser encontrados em ambientes de água doce, os gastrópodes (caramujos) e bivalves (berbigões, ostras e mexilhões). Embora os aquaristas estejam bastante familiarizados com os gastrópodes, seja como animais ornamentais quanto como invasores indesejados, pouco se fala dos moluscos bivalves. Apesar de não serem incomuns na natureza, raramente são introduzidos em aquários. E sua manutenção é bastante problemática, por serem animais filtradores, que se alimentam de grande quantidade de fitoplâncton.


Porém, muitas fontes na internet propagam a idéia de que são animais que podem ser criados facilmente em aquários, não necessitando parâmetros ou alimentação especial, já que são animais que “filtram seu alimento da própria água do aquário”, por isso “não precisam ser alimentados”. Mais ainda, alguns aquaristas defendem que são animais benéficos, substituem filtros mecânicos e limpam a água do tanque de uma “forma natural”. Nada disso é verdade.




Náiade Gigante Anodontites trapesialis, introduzido em um aquário somente para fotos. Foto de Walther Ishikawa.


 

Uso de Bivalves como Filtros Naturais?


Recentemente (2015) foi publicado um interessante artigo na Revista Turkish Journal of Fisheries and Aquatic Sciences, cujo título traduzido é “O uso do Berbigão Asiático (Corbicula fluminea Müller, 1774) como um Filtro Biomecânico em Cultura de Peixes Ornamentais”, dos autores Fatime Erdoğan e Mete Erdoğan. São dois autores turcos, e o trabalho foi realizado em parceria com entidades japonesas.


Várias densidades populacionais de Corbicula fluminea foram mantidas em tanques de criação de Peixe-dourado (Carassius auratus L., 1758) por 75 dias, e foram testadas a sua eficácia como filtro, tolerância a condições ambientais e viabilidade. Os crescimentos dos Berbigões e Kinguios foram controlados ao longo do experimento. Já existem diversos outros trabalhos similares, sobre o uso de bivalves em lagos externos, estações de tratamento de água e tanques externos de piscicultura, onde se mostraram uma alternativa interessante e mais barata para remover sólidos suspensos e nutrientes dissolvidos, e controlar o crescimento de algas, tanto em sistemas e água doce quanto marinhos. Porém, este é o primeiro trabalho que estuda esta aplicação em criações indoor de peixes ornamentais, em aquários sem exposição solar direta. Ou seja, uma situação próxima ao que ocorre em aquários domésticos.


225 Peixes-dourados juvenis (cerca de 2,85 cm de comprimento) foram separados em 15 aquários de 128 litros, numa densidade de 15 peixes por aquário (8,5 litros por peixe). Cada aquário possui um filtro interno de esponja com aerador, e um termostato mantendo uma temperatura constante de 23º C. Os aquários foram divididos em cinco grupos, cada um com uma densidade diferente de bivalves (0, 8, 16, 24 e 32 berbigões por aquário). O experimento foi conduzido por 75 dias, em uma sala iluminada por lâmpadas fluorescentes que mantinha um fotoperíodo de 12 horas. Os peixes eram alimentados com rações comerciais. A TPA era automatizada, 20% do volume diariamente. Diversos outros parâmetros foram controlados, como Oxigênio dissolvido e pH (diariamente), Amônia, Nitrito, Nitrato, Fosfato e TSS (quinzenal).




Corbicula sp., espécie invasora asiática usada no trabalho referido, encontrado também em grande quantidade no território brasileiro. Foto de Walther Ishikawa.



Os moluscos removeram grandes quantidades de partículas sólidas em suspensão na água, melhorando a qualidade da água. A concentração de nitrito variou entre 0,10 a 0,63 mg/L, e foram mais altas nos tanques sem bivalves. Foi observado uma grande diferença no TSS (sólidos totais em suspensão) entre os tanques, chegando a 9,55 mg/L ao final do experimento nos tanques sem bivalves, enquanto os valores eram mais baixos nos aquários com berbigões, 1,74 mg/L no tanque com 24 moluscos. Foi estimada uma redução de 73,35% de TSS e 80,95% de Nitrito entre os tanques de controle e tratamento. Tudo isso levou a um crescimento mais acelerado dos peixes nos aquários com bivalves, especialmente no grupo com mais moluscos (32). A porcentagem de ganho de peso neste grupo foi de 257,06% (227,46% no controle).


Desta forma, os autores concluem que a adição dos Bivalves em aquários ornamentais podem melhorar a qualidade da água e contribuir para um maior crescimento dos peixes. O artigo destaca também que a policultura dos peixes e moluscos não tiveram nenhum efeito negativo na viabilidade de ambas as espécies. Porém, analisando o artigo com mais cuidado, percebe-se que isto não é verdade em relação aos bivalves. No experimento, a taxa de crescimento linear dos Berbigões variou entre 0,052 ~ 0,069 mm/semana, à temperatura de 23º C. Nesta temperatura, sabe-se por coletas de campo que a taxa de crescimento destes animais é em torno de 0,80 mm/semana. Ou seja, nos 75 dias do experimento, os bivalves simplesmente pararem de crescer, possivelmente por escassez de alimentos! É quase certo que se o experimento prosseguisse por mais tempo, os bivalves iriam todos morrer.




Corbícula, na primeira foto, a borda anterior com a concha semi-aberta, seu grande pé muscular visível, assim como o manto. Na segunda imagem, a borda posterior com os sifões. Fotos de Walther Ishikawa.


 

Então não é possível criar Bivalves em Aquários?


O grande obstáculo é fornecer uma alimentação adequada, e em volume suficiente, aquários domésticos não costumam ter uma carga suficiente de plâncton para estes seres se alimentarem, sendo a sua principal causa de morte. Requer um aporte constante especialmente de fitoplâncton, o que pode ser obtido em tanques externos estabilizados, que recebam luz solar direta. Quando mantidos em laboratório, é fornecida uma suspensão de infusórios e micro-algas (“água verde”) em grande volume, diariamente, ou ainda diretamente sobre os animais, com uma pipeta. Alimentos comerciais para corais e esponjas marinhas também pode ser usada. E existem algumas receitas caseiras bem interessantes na internet. Desligar temporariamente a filtragem é outra dica.


Uma experiência muito interessante é do nosso colega biólogo Alexandre Takio Kitagawa, que estudou uma forma alternativa simples de manter estes animais em cativeiro. Somos gratos ao autor, que nos permitiu reproduzir parte dos dados, publicados na revista Aquarista Júnior em 2011. Quatro bivalves Diplodon multistriatus (Lea, 1834) foram mantidos isolados em pequenos copos plásticos em um aquário de 6 litros (30 x 15 x 15 cm), sem substrato e com aeração constante promovida com auxílio de compressor de ar e pedra porosa, iluminação artificial (uma lâmpada fluorescente de 9W), temperatura em torno de 26°C e pH em torno de 6,8.





Náiade, Diplodon delodontus, do mesmo gênero do bivalve usado no experimento da alimentação. Fotos de Walther Ishikawa.



Como alternativa de alimento, foi oferecido diariamente no período noturno 2 gramas de fermento biológico utilizado no preparo de pães. Este era diluído em uma pequena parte de água filtrada e misturada à água do aquário. Quinzenalmente era realizada a troca parcial de água (30%) por sifonamento, retirando-se o máximo de matéria orgânica acumulada no fundo do aquário. Os espécimes viveram em cativeiro de fevereiro de 2009 a fevereiro de 2010, totalizando um período de doze meses, ao contrário dos outros 4 exemplares controle que ficaram sem alimentação alternativa, o que acarretou na morte em poucas semanas.


O autor conclui que este alimento alternativo pode ser uma opção para laboratórios, aquaristas, professores, entre outros profissionais que necessitem manter esses moluscos em cativeiro. Fica a dica para aqueles que quiserem criar estes interessantes animais de forma responsável em seus aquários!


 

Bibliografia:

  • Erdoğan F, Erdoğan M (2015) Use of the Asian Clam (Corbicula fluminea Müller, 1774) as a Biomechanical Filter in Ornamental Fish Culture. Turk. J. Fish. Aquat. Sci. 15: 861-867.
  • French JRP III, Schloesser DW (1991) Growth and overwinter survival of the Asiatic clam, Corbicula fluminea in the St. Clair River, Michigan. Hydrobiologia 219: 165–170.
  • Kitagawa AT, Salles ROL, Batalha F. Alimentação do molusco bivalve Diplodon multistriatus em cativeiro. Aquarista Júnior, São Paulo, p. 20 - 20, 01 ago. 2011.


As fotografias de Walther Ishikawa estão licenciadas sob uma Licença Creative Commons.
VEJA TAMBÉM
   
Genética das Cores de Caramujos “Ramshorn”
Variedades de cor e genética de Planorbídeos
Saiba mais
   
Revisão da História da "Caridina cantonensis"
José María Requena - Revisão da História d...
Saiba mais
   
Meus camarões vão se hibridizar?
Ryan Wood - Tabela de compatibilidade de c...
Saiba mais
   
Algas Coralinas de Água Doce
Uma interessante descoberta de 2016, em um...
Saiba mais
   
Ecdiase do Camarão Red Cherry
Peter Maquire - Fantásticas fotos da ecdia...
Saiba mais
   
Variedades de cor na "Pomacea diffusa"
Walther Ishikawa - Variedades de "Pomacea ...
Saiba mais
   
A reprodução do camarão de água doce no aquário
Uma breve explicação sobre o processo de r...
Saiba mais
   
Montando seu primeiro Aquário para Camarões
André Albuquerque - Montando seu primeiro ...
Saiba mais
   
Eclodindo ovos de camarão artificialmente
Ryan Wood - Eclosão de ovos retirados de c...
Saiba mais
   
Salvem os Caramujos!
Mateus Camboim - Salvem os Caramujos!
Saiba mais
   
O Mistério dos Camarões-Fantasma Azuis
O que são estes Fantasmas de cor azul??? -...
Saiba mais
   
Bivalves em aquários – dois interessantes artigos
Comentários sobre dois interessantes artig...
Saiba mais
 
« Voltar  
 

Planeta Invertebrados Brasil - © 2017 Todos os direitos reservados

Desenvolvimento de sites: GV8 SITES & SISTEMAS