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Hidróide de água doce  
Artigo publicado em 05/08/2012, última edição em 02/01/2017  



Hidróide de água doce

 

Cnidários são invertebrados aquáticos predominantemente marinhos, com pouquíssimas espécies de água doce. Estima-se em mais de 7500 espécies cnidárias atuais, e somente algumas dezenas de espécies de água doce, todas da classe Hydrozoa. Dentre os hidrozoários de água doce, certamente o grupo mais conhecido, com maior número de espécies descritas e mais bem estudado, é o do gênero Hydra, com 27 espécies, quatro delas presentes no Brasil. São bastante conhecidos por aquaristas como invasores indesejados de aquários, predadores de alevinos e filhotes de camarão. Temos também a Medusa de água doce, animal bem mais raro, mas extremamente fascinante, com uma única espécie em território nacional, Craspedacusta sowerbyi.

 

Além das Hidras e Medusas, existe uma última espécie de hidrozoário que pode ser encontrado no Brasil, o organismo colonial Cordylophora caspia (Pallas, 1771). Ela é considerada uma espécie típica de águas salobras de regiões estuarinas, mas que é bastante tolerante às baixas salinidades, não raro sendo encontrado em ambientes de água doce. É o único hidrozoário colonial de água doce conhecido.

 


Aspecto

 

Formam colônias ramificadas, parecidos com musgos ou arbustos, de cor cinza-castanho claro ou amarelo-esbranquiçado. As dimensões das colônias chegam a 12 cm, compostos de pólipos macroscópicos (cerca de 1 mm) conectados por uma cavidade gastrovascular. Uma parte da colônia é firmemente aderida ao substrato, e outra parte é ereta e arborescente. Cresce sobre qualquer substrato rígido, como rochas, plantas aquáticas, conchas de moluscos, pilares e etc.

 

As colônias são compostas de pólipos, especializados em alimentação (gastrozoóides ou hidrantes) ou reprodução (gonóforos, que produzem esporosacos). Um hidrocaule pode não ter ramos, ou ser ramificado com um hidrante terminal ou pólipo alimentar. Estes têm tentáculos retráteis incolores, filiformes, geralmente entre 10 e 20. Embora os tentáculos possam ser retraídos, como nos briozoários, não há tubo protetor onde se alojam. Estes tentáculos possuem células urticantes, usadas para paralisar e capturar presas microscópicas.


Uma grande colônia hidróide, fixa sobre cracas. Imagem gentilmente cedida por Horia R. Galea.



Reprodução

 

Colônias são dioicas, possuindo gonóforos masculinos ou femininos para reprodução sexuada. Alguns trabalhos descrevem colônias mistas, com indivíduos de ambos os sexos, mas parece ser uma exceção. Cada ramo ereto pode possuir 1 a 3 gonóforos com 6 a 10 ovos cada. Desta forma, a fecundidade depende do número de ramificações da colônia. Os gonóforos se localizam nos pedicelos dos hidrantes ou em ramos abaixo de um hidrante. Na reprodução sexuada o esporosaco masculino (branco) libera os espermatozoides na água, fertilizando os ovos dentro dos esporosacos femininos (rosados/purpúreos). Os ovos fertilizados se desenvolvem em uma plânula ciliada de nado livre, com alta capacidade de dispersão, que se fixa e forma um pólipo primário. Este se reproduz por brotamento formando uma nova colônia. Não apresentam metagênese (alternância pólipo-medusa), não há fase de medusa. Em raros casos a larva pode se desenvolver diretamente em um pólipo juvenil no gonóforo antes de ser liberado.

 

As colônias se reproduzem de forma assexuada através de brotamento, formando novas colônias, com crescimento prolífico durante o verão e início de outono. Uma forma comum é formando estolões verticais, que se aderem ao substrato adjacente, se destacam e iniciam nova colônia.

 

Quando as condições se tornam adversas, as colônias perdem seus tentáculos e os tecidos vivos retraem até os túbulos basais. Sobrevivem a estas condições através de um estágio dormente, pequenas massas de tecido, chamadas de menont, que permanecem no perisarco do hidrocaule e/ou porção ereta. Este tecido regenera quando a temperatura se eleva e as condições se tornam mais favoráveis.


Imagem em close mostrando gonóforo feminino. Animal fotografado em um estuário de Chespeake Bay, foto de Dean Janiak.


Close de um gonoforo masculino, foto de Horia R. Galea.


Imagem em close mostrando gonóforo feminino. À direita, podem ser vistas também plânulas. Foto de Horia R. Galea.

 


Resistência

 

Há dados sugerindo que os organismos se mostram mais confortáveis em água salobra, com taxa metabólica e gasto energético menor. Seu ritmo de crescimento é maior, e a reprodução também é propiciada. Sua morfologia também é discretamente distinta, em água salobra os pólipos são mais longos e finos, além de apresentarem tentáculos mais longos e numerosos. As próprias colônias também são mais longas e ramificadas. Em água salobra também se observam mais e maiores gonóforos. Alguns autores sugerem que se trata de diferentes espécies/subespécies, mas é um tema controverso.

 

As colônias são tolerantes a amplas faixas de temperatura, pH e salinidade. Se desenvolvem em temperaturas entre 5 e 35º C, e se reproduzem entre 10 e 28º C. Sobrevivem numa salinidade entre 0 a 35%o, com crescimento ótimo em 15~17%o a 20ºC. Alta taxa de sobrevivência entre os valores de pH entre 5,0 e 8,5. Em água doce é mais comum em locais com alto fluxo de água, alta oxigenação e sais dissolvidos. Nos estuários são mais comuns em águas rasas de até 3 metros de profundidade, preferindo regiões sombreadas.

 

Hidróide fotografado em água doce, no Brasil. Pequenos protozoários sésseis também podem ser vistos na foto. Note os tentáculos mais curtos do que animais de águas salobras. Foto cedida por Otto Müller P. Oliveira.



Alimentação

 

Carnívoro caçador de zooplâncton em suspensão, sua dieta principal é composta de microcrustáceos, como ciclopes, pulgas d´água e ostracóides. Pode predar também alguns organismos bentônicos, como vermes e larvas de insetos. Podem consumir grandes presas, como bloodworms com 2 a 3 vezes o tamanho do pólipo. Para isto, eventualmente um grupo de pólipos pode agir em conjunto.






Colônias hidróides, fotografadas em estuários do Mar Báltico, na Finlândia. Fotos gentilmente cedidas por Visa Hietalahti.


 

Distribuição

 

É um animal exótico, com origem presumida na região Ponto-Cáspia, mares Cáspio, Negro e Azov, e regiões adjacentes. Distribuição global e em expansão, são encontradas em regiões costais tropicais e temperadas de todos os continentes exceto Antártida, e em muitos habitats de água doce. Não é encontrado no mar, embora consiga sobreviver em altas salinidades em laboratório (até 40 %o). No Brasil já foi detectado nos estados de PR (Foz do Iguaçu), SP (Ubatuba, em estuário), RJ (Itaiaia) e PA (Tucuruí). Exceto SP, todos estes registros no país são em usinas hidrelétricas, geralmente causando obstruções em sistemas de resfriamento.

 

A rota principal de dispersão é através de incrustações em cascos de navios e larvas planctônicas em água de lastro, mas aves migratórias também têm um papel importante. Algumas populações foram introduzidas através de aquaristas, como no Lago Erie (EUA/Canadá).


Colônia de hidróide, Cordylophora caspia, fotos de Horia R. Galea.

 


Impacto

 

Competição com espécies nativas por espaço e alimentos. Grandes colônias modificam habitats bentônicos causando alterações estruturais nas comunidades de animais. É um organismo importante como agente de bioacumulação (“biofouling”), termo que se refere à formação de depósitos biológicos sobre a superfície de equipamentos ou instalações industriais, como tubulações para resfriamento ou sistemas hidráulicos, causando obstruções, com grandes impactos econômicos.

São particularmente numerosos no reservatório da Usina Hidrelétrica Governador José Richa (UHE GJR) ou UHE Salto Caxias, a cerca de 600 km de Curitiba. Ainda em Curitiba, foram coletadas também nas Usinas de Itaipú, Governador Ney Braga, Salto Santiago e Salto Osório. Também já foram detectados causando bioincrustação no interior do sistema de água de resfriamento das unidades geradoras de eletricidade da Usina de Funil (Furnas Centrais Elétricas S.A.), em Itatiaia, Rio de Janeiro, e Usina de Tucuruí, Pará.


Uma grande colônia hidróide, foto gentilmente cedida por Visa Hietalahti. A primeira foto do artigo também é de sua autoria.




Extensa incrustação de hidróides em uma grade de proteção de usina elétrica no Paraná. Foto de Otto Samuel Mäder Netto, extraído de Latini AO, et al. "
Espécies exóticas invasoras de águas continentais no Brasil" (MMA, 2016, veja 10a referência da Bibliografia).




Hidróides no Aquário?

 

Existem poucos relatos de detecção destes cnidários em aquários, sempre são introduções acidentais, em localidades onde já ocorrem na natureza. As fotos abaixo foram cedidas por um colega norte-americano, de Bloomingdale, Nova Jérsei, EUA. Foram descobertas em grande número em um tanque contendo peixes, alguns dos quais alimentavam-se vorazmente dos hidróides (como Tricogáster e Sumatra).

Um alerta bastante óbvio é que não recomendamos a introdução intencional destes animais em aquários, pelo seu caráter exótico e potencialmente invasor. Lembrando que em algumas localidades norte-americanas, o aquarismo foi quase certamente o vetor de introdução destes animais na natureza. Além deste fato, são animais caçadores, predando pequenas larvas e alevinos. Mesmo para animais de maior porte, suas células urticantes podem representar um risco à saúde.







Hidróides identificados em um aquário doméstico de Bloomingdale, NJ, EUA. Fotos gentilmente cedidas pelo aquarista norte-americano Jerry Smith.




 

Bibliografia  

  • Grohmann PA. 2008. Bioincrustation caused by a hydroid species in the turbine cooling system at the Funil Hydroeletric Power Plant, Itatiaia, Rio de Janeiro, Brazil. Naturalia 31: 1-7.
  • Portella KF, Joukoski A, Silva AS, Brassac NM, Belz CE. 2009. Biofouling e biodeterioração química de argamassa de cimento portland em reservatório de usina hidroelétrica. Química Nova, 32(4), 1047-1051.
  • Gutierre SMM. pH tolerance of the biofouling invasive hydrozoan Cordylophora caspia. Hydrobiologia. January 2012, Volume 679, Issue 1, pp 91-95.
  • http://www.biota.org.br/
  • http://nas.er.usgs.gov/
  • http://www.europe-aliens.org/
  • http://www.bryotechnologies.com/
  • http://www.cabi.org/
  • http://www.frammandearter.se/
  • Latini AO, Resende DC, Pombo VB, Coradin L. (Org.). Espécies exóticas invasoras de águas continentais no Brasil. Brasília: MMA, 2016. 791p. (Série Biodiversidade, 39)



Este artigo só foi possível com o apoio de muitos colaboradores, aos quais sou muito grato. Agradecimentos ao Dr. Horia R. Galea do Laboratório de Pesquisa de Hidrozoários, Tourves, França, pela cessão de fotos.
Agradecimentos também ao colega fotógrafo finlandês Visa Hietalahti que cedeu belíssimas fotos dos animais em ambiente natural. Agradeciemntos ao Prof. Dr. Otto Müller P. Oliveira, do Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC, por valiosas informações e pelas fotos do exemplares brasileiros. Agradecemos ao zoólogo Dr. Dean Janiak do Smithsonian Environmental Research Center, e também ao aquarista norte-americano Jerry Smith pela cessão das fotos. Finalmente, agradecemos à Dra. Priscila A. Grohmann da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Biologia,  por valiosas informações para o artigo. O Dr. Otto e a Dra. Priscila mantém uma belíssima página sobre Cnidários Brasileiros,  Jelly News South America

 
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