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Aranhas Aquáticas  
Artigo publicado em 11/02/2012, última edição em 21/09/2018  

Aranha aquática Ancylometes fotografada no Parque Juquery, Franco da Rocha (SP), foto de Walther Ishikawa.



Aranhas Aquáticas


            A grande maioria das espécies de aranhas é terrestre, alguns grupos terrestres são aquáticas opcionais, como muitas das Lycosidae, por exemplo a própria Aranha-de-jardim (Lycosa erythrognatha). Mas existem algumas aranhas altamente adaptados à vida junto a corpos d´água, capazes de caminhar sobre a superfície d´água e caçar animais aquáticos, chamadas de aranhas pescadoras ou aranhas d'água. Duas famílias principais são a Pisauridae e Trechaleidae, ambas bem próximas filogeneticamente à Lycosidae. A própria família Lycosidae têm alguns gêneros verdadeiramente aquáticos. Finalmente, alguns representantes da família Ctenidae (a mesma família da Armadeira, Phoneutria spp.) também são aquáticos, como a Ancylometes. Todas elas lembram bastante as Lycosidae, mas têm pernas mais alongadas, podem atingir grandes dimensões (especialmente as Ancylometes, com até 12 cm de envergadura incluindo suas pernas). O aspecto dos olhos ajuda bastante na distinção entre as famílias, tanto os Pisauridae como os Trechaleidae têm oito olhos de dimensões iguais em duas fileiras, ao invés do Lycosidae que tem oito olhos em três fileiras, com um par de olhos mais proeminentes. Nos Ctenidae, destaca-se somente dois olhos na fileira inferior.


Comparação de olhos de aranhas-pescadoras. Respectivamente, Lycosidae, Pisauridae, Trechaleidae e Ctenidae. As duas primeiras fotos de Walther Ishikawa, a terceira de Troy Bartlett, e a última de Markus Oulehla.


            Os pisaurídeos são os mais comuns, com mais de 300 espécies cosmopolitas, constroem teias irregulares próximos ao solo, com uma toca tubular feita de seda, semelhante a alguns licosídeos. Sua ooteca (saco-de-ovos) é esférica como os licosídeos, mas, ao contrário destes, a fêmea a carrega usando tanto as quelíceras quanto as fiandeiras abdominais. As três famílias mostram cuidado parental, no caso dos pisaurídeos, próximo à eclosão, estas aranhas constroem uma teia em forma de tenda (“nursery web”), colocam sua ooteca no seu interior e montam guarda nas proximidades.

Os trecaleídeos estão restritos à América Central e do Sul (exceto por uma única espécie japonesa), 75 espécies descritas. É uma das poucas aranhas que praticamente não usa a seda que produz, não construindo teias ou ninhos. A seda é usada somente para envolver os ovos na época da reprodução. Carrega a ooteca à moda dos licosídeos, usando as fiandeiras. Mas o aspecto da ooteca é distinto, achatado e discoide, e com uma abertura em forma de saia. Diferente dos pisaurídeos (mas semelhante aos licosídeos), quando os filhotes nascem, a mão continua a carregá-los. Porém, os carrega na ooteca vazia, ao contrário dos licosídeos, que carregam os filhotes sobre o seu abdômen.

Os ctenídeos estão representados pelo gênero Ancylometes (11 espécies), grandes aranhas pescadoras da América Central e do Sul, comuns na bacia Amazônica. Pelo seu grande tamanho, frequentemente caçam vertebrados, como peixes, rãs e lagartixas. Além da Argyroneta (descrita abaixo), é a única aranha do mundo capaz de tecer teias submersas, e eventualmente usa-as para caçar peixes. É uma das maiores espécies de aranhas Araneomorphae (Caranguejeiras são Mygalomorphae). Diferente das demais aranhas descritas aqui, não há cuidado parental. A mãe carrega a ooteca, e próximo à eclosão constrói uma teia em forma de tenda, semelhante aos pisaurídeos, mas abandona o local, sem cuidar dos filhotes.









Pisaurídeo Dolomedes tenebrosus, fotografado no Parc régional de la rivière Gentilly, Quebec, Canadá. Na primeira imagem, uma fêmea
carregando uma ooteca, note seu aspecto esférico e o fato de ser carregado usando também as quelíceras. Na segunda imagem, a mãe protegendo os filhotes na teia-berçário. Fotos de Steve Troletti.




Trecaleídeo fêmea carregando uma ooteca, fotografado próximo a uma cachoeira em Guapé, MG. Note o aspecto achatado da ooteca, e o fato dela ser carregada sob o abdomen. Foto de Erik Fernando Finoti.





Um grande Trecaleídeo fêmea carregando uma ooteca, fotografado em Joinvile, SC. Foto de Fábio Longen.







Trecaleídeo fêmea Paratrechalea sp., carregando filhotes sobre a ooteca vazia, fotografado no Parque Natural do Caraça, MG. Na segunda imagem, os filhotes sobre o corpo da mãe. Fotos de Troy Bertlett.















Sequência de fotos mostrando o Licosídeo semi-aquático Pirata sedentarius construindo sua ooteca. Trata-se de uma espécie centro-americana, fotografada na República Dominicana, o macho mede 10 mm e a fêmea, 13 mm. A última imagem mostra a tipica forma que os Licosídeos carregam sua ooteca, com as fiandeiras. Fotos de Antonio Tosto.





Licosídeo Trochosa carregando filhotes sobre o abdomen, fotografado na APP Lagoa Encantada, em Vila Velha, ES. Foto de Flávio Mendes.







Licosídeo semi-aquático (provável Trochosa), fêmea carregando seus filhotes. Fotografado na represa de Vinhedo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.









Close nos olhos de um licosídeo Trochosa, e abaixo, uma toca às margens de uma lagoa, fotografados em Itapeva, MG. Fotos de Walther Ishikawa.


            Vivem em águas paradas ou com pouca correnteza, em meio à vegetação da margem. Licosídeos e Pisaurídeos utilizam a tensão superficial da água para andar agilmente sobre sua superfície, seu padrão de locomoção no filme d'água é diferente das outras aranhas aquáticas ocasionais, mostrando-se mais especializadas. Andam como se patinassem, ao contrário das Lycosas (Licosídeo terrestre), que se movem como que caminhando sobre a água. Alimentam-se de invertebrados que vivem ou caem na superfície da água, eventualmente pode mergulhar para caçar presas aquáticas, inclusive peixes muito maiores que eles, ou para escapar de predadores. Possuem excelente visão, e detectam também suas presas através de vibrações na superfície da água. Habitualmente, repousam com as pernas traseiras nas margens, e as pernas dianteiras na superfície da água, como se a superfície da água fosse uma grande teia. Respiram ar, quando submergem levam consigo uma reserva de ar junto aos pêlos abdominais. Esta reserva troca oxigênio com a água por difusão, permitindo que fique submersa por mais de 30 minutos.



Filhote de trecaleídeo nas margens da água, em uma rocha vertical. Note como se posiciona com as pernas dianteiras na superfície da água. Fotografado nas margens do Rio Jaguari, em Areia Branca, SP. Foto de Walther Ishikawa.





Dois trecaleídeos em rochas nas margens de um rio, em Amparo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.




Trecaleídeo submerso em uma rocha no Córrego Preguiça, na Vila de São Jorge, Chapada dos Veadeiros, GO. Foto de Felipe Andrade.



            Ancylometes não caminham sobre a água, mas também são capazes de mergulhar por longos períodos (até 20 minutos). Trecaleídeos somente caçam em águas rasas, com pouca capacidade de mergulho, e habilidade limitada em caminhar sobre o filme d´água. Pequenos peixes fazem parte da dieta de ambos os grupos.




Ancylometes cf. rufus, caminhando submersa, fotografada em Cachoeiras de Macacu, RJ. Fotos de Alexsandro Mesquita




Aranha pescadora, Thaumasia cf. velox, cerca de 8cm, fotografada em Monte Verde, MG. Fotos de Walther Ishikawa




Thaumasia sp., outro pisaurídeo, habitava um pequeno lago em Vinhedo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.



Pisaurídeo no filme d´água, fotografado em Morungava, Gravataí, RS. Foto de Éden Timotheus Federolf.



Ctenídeo fotografado em uma lagoa de Foz do Iguaçu, PR. Foto de Walther Ishikawa.



Licosídeo semi-aquático, Trochosa sp., habitava o mesmo lago do pisaurídeo acima. Note a disposição dos olhos. Fotos de Walther Ishikawa.



Um belo licosídeo semi-aquático, fotografado no Igarapé Santa Izabel, Belém (PA). Foto de Cinthia Emerich.




Outros licosídeos semi-aquáticos, fotografados em Vinhedo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.



Licosídeo fotografado às margens do Rio Tamanduá, Foz do Iguaçu, PR. Foto de Walther Ishikawa.





Um Pisaurídeo e um Licosídeo (provável Trochosa), ambos fotografados na represa de Vinhedo, SP. Fotos de Walther Ishikawa.





Trecaleídeo fêmea carregando uma ooteca, fotografado próximo a uma cachoeira em Guapé, MG. Fotos de Erik Fernando Finoti.



Trecaleídeo fêmea Paratrechalea sp., carregando filhotes sobre a ooteca vazia, fotografado no Parque Natural do Caraça, MG. Foto de Troy Bertlett.





Aranha-pescadora gigante amazônica, Ancylometes bogotensis, fotografado na Costa Rica. Foto de Markus Oulehla.



Ancylometes sp. em cativeiro, foto de Markus Oulehla.









Ancylometes bogotensis, criada em um aquaterrário. Na segunda e terceira foto, alimentando-se de uma larva de Tenébrio. Fotos de Alexandre Gros.








Ancylometes bogotensis, em um aquaterrário. A segunda foto mostra a aranha submersa, e a última alimentando-se de um Tenébrio adulto. Fotos de Alexandre Gros.


            Além das aranhas descritas acima, outro grupo de aranhas que frequentemente é encontrado junto a corpos d´água são as "Aranhas de mandíbulas longas" do gênero Tetragnatha. Não são propriamente aquáticos, mas constroem suas teias orbiculares em áreas alagadas e palustres, alimentando-se essencialmente de insetos relacionados a estes ambientes. Suas teias são horizontais, para otimizar a captura de insetos que saem da superfície d´água. Aguardam nas teias, mas ao menor movimento se escondem nas plantas onde a teia é sustentada. 

            Tem o abdomen e pernas bastante alongadas, o que ajuda a se mimetizarem em meio a estas estruturas. Quando perturbadas, estendem as pernas alinhadas ao corpo, agarrando-se a uma folha de capim usando suas pernas menores, tornando-se quase invisíveis. Medem até 6 cm, incluindo as pernas, as fêmeas são um pouco maiores. Suas mandíbulas são enormes, especialmente nos machos. Ao contrário de outras aranhas, o macho não é devorado após a cópula. Os machos usam suas quelíceras desproporcionalmente grandes para manter as fêmeas afastadas durante o acasalamento. Seus pedipalpos (que transferem a bolsa seminal) são bem alongados, pelo mesmo motivo. Dão um aspecto de mandíbulas supranumerárias, daí seu nome (Tetra = quatro, gnatha = mandíbula).






Tetragnatha sp. machos, dois exemplares fotografados às margens de um lago ornamental em Barra Bonita, SP. Na última foto, em close ventral, podem ser vistas suas mandíbulas e palpos bastante desenvolvidos. Fotos de Walther Ishikawa.



Tetragnatha sp. predando uma Donzelinha, fotografado às margens de um rio em Amparo, SP. Foto de Walther Ishikawa.



Dois pequenos Tetragnatha sp. fotografados em Vinhedo, SP. A segunda imagem mostra a aranha estendida junto a um caule de grama, em posição de camuflagem. Fotos de Walther Ishikawa.





Leucauge argyra, outro Tetragnatídeo que pode ser encontrado peto da água. Embora não sejam aranhas sociais, vivem em grupos, formando teias horizontais interconectadas. Também fotografados em um lago ornamental em Barra Bonita, SP. Fotos de Walther Ishikawa.





Fenda entre rochas às margens do Rio Jaguari, em Areia Branca, SP. Dois Tetragnatha nas suas teias em primeiro plano, e ao fundo um grande Trecaleídeo. Na segunda foto, o Trecaleídeo em destaque. Foto de Walther Ishikawa.



            Estes são os grandes grupos de Aranhas Semi-Aquáticas que ocorrem no Brasil. Em outros países existem ainda outras espécies bem interessantes, como a paleártica Argyroneta aquatica (Cybaeidae), é a única que vive permanentemente submersa, construindo um ninho de teias com um bolsão de ar no seu interior. Muitos a consideram a única aranha verdadeiramente aquática. Outro gênero interessante é o asiático Desis (Desidae), que vive em litorais rochosos marinhos, em frestas de rochas e em meio a algas, como o D. martensis e D. marinus, este último com registros de predação de peixes. Há registros de predação de peixes também pela Agroeca lusatica (Liocranidae) na França. Finalmente, foi descrito recentemente (2005) um sparassídeo semi-aquático em Bornéo, Heteropoda natans (Sparassidae).



Aranha d´água, Argyroneta aquática, cerca de 1 cm, fotografada em uma lagoa de Almelo, Países Baixos. Espécie européia, não ocorre no Brasil. Foto gentilmente cedida por Gerard Visser.




Casal de Argyroneta aquática, fêmea à esquerda e macho à direita, fotografado em um aquário, animais encontrados em Viena, Áustria. Foto de Norbert Schuller Baupi, Wikimedia Commons.









Desis martensis
, espécie marinha fotografada em Tuas (primeira foto) e Cyrene Reef (segunda), Singapura.
Na primeira foto, alimentando-se de um camarão. Fotos de Ria Tan.






Bibliografia:

  • Wade S, Corbin T, McDowell LM. (2004). Critter Catalogue. A guide to the aquatic invertebrates of South Australian inland waters. Waterwatch South Australia.
  • McCafferty WP. Aquatic Entomology: The Fishermen's Guide and Ecologists' Illustrated Guide to Insects and Their Relatives. Jones & Bartlett Learning, 1983 - 448 p.
  • Gooderham J, Tsyrlin E. 2002. The waterbug book: a guide to the freshwater macroinvertebrates of temperate Australia. Australia: CSIRO. 240 p.
  • Carico JE. Revision of the genus Trechalea Thorell (Araneae, Trechaleidae) with a review of the taxonomy of the Trechaleidae and Pisauridae of the Western Hemisphere. J. Arachnol. (1993) 21: 226-257.

  • Nyffeler M, Pusey BJ. Fish predation by semi-aquatic spiders: a global pattern. PLoS One 2014; 9(6): e99459.
  • Jäger P. A "swimming" Heteropoda species from Borneo (Araneae, Sparassidae, Heteropodinae). Journal of Arachnology 2005; 33(3): 715-718.



Agradecemos a Troy Bartlett ( Nature Closeups , EUA), Markus Oulehla (Áustria), Erik Fernando Finoti, Eden Timotheus Federolf ( Organização Palavra da Vida - Sul  ), Gerad Visser (Países Baixos,  Microcosmos ), Steve Troletti (EUA, veja seu site  aqui ), Flávio Mendes, Antonio Tosto (República Dominicana,  Dominican Spiders ), Ria Tan (Singapura,  Wild Singapore ), Alexandre Gros (França,  Les elevages de Plantecarnivore ), Alexsandro Mesquita, Fábio Longen e Felipe Andrade pela cessão das fotos para o artigo.

Finalmente, agradecimentos especiais também ao Dr. Antonio Domingos Brescovit (Instituto Butantan - Coordenador de Coleções Zoológicas e do Grupo de Sistemática e Biodiversidade de Araneae) pela consultoria e auxílio na identificação das aranhas.


As fotografias de Walther Ishikawa, Troy Bartlett e Norbert Schuller Baupi estão licenciadas sob uma  Licença Creative Commons . As demais fotos têm seu "copyright" pertencendo aos respectivos autores.
 
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